Vivendo a mil, com a morte nos calcanhares
Um livro não ficcional tende a ser de leitura mais lenta, geralmente sem muitos ganchos. A leitura fica ainda mais lenta se o biografado não for alguém conhecido ou que você não seja fã. É o caso deste livro.
Patti Smith me era uma completa desconhecida, que a princípio confundi com a herdeira Patty Hearst, neta de um famoso magnata da imprensa, que se apaixonou por seu sequestrador (síndrome de Estocolmo).
Passada a fase da confusão e do estranhamento, me vi diante de um livro belíssimo, uma história de cumplicidade, de amor carnal e de amor à arte –
Só garotos (
Companhia das Letras, 280 páginas ) é poesia em prosa, ou seria prosa poética, não sei ao certo, mas o que importa é que é puro sentimento, com uma capa de encher os olhos.
A narrativa, algumas vezes melancólica, lembra uma elegia, testemunha a vida improvável de um casal ligado pela arte e pelas almas, um corte exposto sem sofrimento. O livro é de
Patti Smith , sobre ela e o fotógrafo Robert Mapplethorpe, uma homenagem póstuma ao artista que lhe abriu o mundo artístico e lhe ensinou sobre ele. Um tributo, uma declaração de amor.
“Foi o verão em que Coltrane morreu. O verão de “The Crystal ship”. Crianças com flores erguiam as mãos vazias e a China lançava sua bomba H. Jimi Hendrix punha fogo na guitarra em Monterey. A rádio AM tocava “Ode to Billie Joe”. Havia rebeliões em Newark, Milwaukee e Detroit. Foi o verão de Elvira Madigan, o verão do amor. E nessa atmosfera mutante, inóspita, um encontro casual alterou o rumo de minha vida. Foi o verão em que conheci Robert Mappelthorpe.”
Este encontro aconteceu logo após Patti se mandar para uma Nova York fervilhante, apenas com um livro de Rimbaud na mala e sem dinheiro no bolso. Era a coragem de alguém que busca incessantemente pelo sonho, sem planos, sem destino, sem juízo, só inocência.
“Como se fosse a coisa mais natural do mundo, ficamos juntos, só saindo do lado um do outro para trabalhar. Nada foi dito; apenas mutuamente compreendido.”
A arte estava sempre em primeiro lugar, mesmo que isso custasse o pouco que tinham ou que não tinham, já que o furto era justificado e praticado em nome da arte:
“Nosso primeiro inverno juntos foi duro. Mesmo com meu salário melhor... tínhamos muito pouco dinheiro. Tantas vezes parávamos na esquina gelada da St.James Place com um olho no restaurante grego e outro na loja de materiais de arte do Jake, decidindo como iríamos gastar nossos últimos dólares – tirando na moeda dois sanduíches de queijo quente ou material de pintura. Às vezes, incapaz de ver que a fome era maior, Robert ficava olhando nervoso para o restaurante, enquanto eu, tomada pelo espírito de Genet, embolsava o necessário apontador de latão ou lápis de cor. Eu tinha uma visão mais romântica a respeito da vida de artista e dos sacrifícios. Li uma vez que Lee Krasner chegou a roubar material de pintura para Jackson Pollock. Não sei se isso é verdade, mas me serviu de inspiração. Robert se corroía por não ser capaz de nos sustentar. Eu dizia para ele não se preocupar, que o compromisso com a grande arte é a própria recompensa.”
O mundo artístico girava em torno de Andy Warhol e todos queriam ser e estar com ele. Robert não era diferente, invejava a arte de Warhol e achava que tinha qualidades superiores. A todo momento, Patti e Robert trombavam com mitos ou pessoas que se tornariam mitos:
“Pensava em como aquele saguão era um portal mágico quando a pesada porta de vidro se abriu, como que escancarada pelo vento, dando passagem a uma figura familiar com uma capa preta e escarlate. Era Salvador Dalí. Seus olhos percorreram o saguão nervosamente... Botou a mão elegante e ossuda no topo da minha cabeça e disse: “Você parece um corvo, um corvo gótico.”
Tudo isso impressionava Patti, mas não a deslumbrava. Ela era forjada para negar o status quo, uma ovelha negra pronta a explorar o mundo criado pelas imagens de Robert:
“Lembro de passar com minha mãe olhando vitrines e perguntar por que as pessoas não chutavam e quebravam aquilo. Ela disse que existiam regras implícitas de comportamento social, e que era assim que as pessoas conviviam. Lembro que na hora me senti confinada diante da ideia de que nascemos em um mundo onde tudo já foi mapeado pelos outros antes. Lutei para reprimir impulsos destrutivos e, em vez disso, trabalhei impulsos criativos. Ainda assim, a pequena inimiga das regras dentro de mim não morreu.”
Você pode não conhecer
Patti Smith , como eu não a conhecia, mas ela conviveu e compartilhou da vida de quem realmente “aconteceu” nos anos 60 e 70, artistas que influenciaram e influenciam corações e mentes, seja na prosa, poesia, música, pintura, fotografia: Morrisson, Janis, Hendrix, Lou Reed, Warhol, Dalí, entre tantos outros. É o arquivo vivo de uma geração. Viveu intensamente e sentiu a tristeza de perder um pedaço de si para a AIDS:
“Partir é sempre lancinante. Eu vivia assombrada pela ideia de que se eu ficasse por perto ele sobreviveria. Mas, ao mesmo tempo, às voltas com uma resignação cada vez maior. Senti vergonha por isso, pois o próprio Robert vinha lutando com se pudesse sarar só com sua força de vontade. Tentara de tudo, de ciência a vodu, tudo menos rezar. Isso, pelo menos, eu poderia lhe fornecer em abundância. Rezei por ele incessantemente, uma oração desesperada. Não por sua vida, ninguém podia livrá-lo desse destino, mas para que ele tivesse força de suportar o insuportável.”
É um livro imprescindível a todos aqueles que cavam sua felicidade em meio a intempéries, solidificando sonhos, vivendo plenamente o amor. Patti construiu seu caminho e tem propriedade para falar sobre tudo isso. Leiam o livro, ouçam “Because the night”, parceria com Bruce Springsteen. Deleitem-se! Como diria Chico César: “o carneiro sacrificado morre, o amor morre, só a arte não”.