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25.6.18

Os Meninos da Rua Paulo [Ferenc Molnár]

Ed. Cosac Naify, 2005 - 264 páginas
- "Os garotos da Sociedade do Betume tinham duas importantes tarefas - manter o betume (símbolo da sociedade) sempre molhado, por meio da mastigação, e defender o grund, quartel general onde jogavam péla. Eis que os camisas-vermelhas, desterrados e, consequentemente, impedidos de jogar péla, declaram guerra à Sociedade e decidem tomar-lhe o grund. Do líder Boka ao soldado raso Nemcsek, a Sociedade do Betume se organiza para a grande batalha de Budapeste do começo do século. O que era brincadeira de criança transformou-se num belo retrato da infância."
9.2.15

Vermelho Amargo [Bartolomeu Campos de Queirós]

Ed. Cosac Naify, 2011 - 75 páginas:
       Vermelho Amargo procura revelar uma face diferente do escritor Bartolomeu Campos de Queirós. Um narrador em primeira pessoa revisita a dolorosa infância, marcada pela ausência da mãe substituída por uma madrasta indiferente. Há os irmãos, filhos de um pai que não larga o álcool e de uma madrasta que serve em todas as refeições fatia cada vez mais finas de tomate. Eles desenvolvem diversas anomalias para tentar suprir a ausência de afeto e a saudade da mãe - um come vidro, a outra não larga as agulhas e o ponto cruz. Numa espécie de contagem regressiva, o narrador observa seus irmãos mais velhos irem embora de casa.  



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“Toda saudade é a presença da ausência de alguém” (Gilberto Gil)

Último livro de Bartolomeu Campos de Queirós (1944-2012), vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura na categoria Melhor Livro do Ano de 2012, Vermelho Amargo (Cosac Naify, 75 páginas) é um relato autobiográfico, cujo narrador é um menino atormentado pela saudade. Nas palavras do autor: “Cada frase que eu escrevia estava passando um pouco a minha vida a limpo. É quase uma reflexão sobre o que está presente na minha memória ainda hoje e que eu não consegui esquecer.”

Ao lado dos irmãos e de um pai cada vez mais ausente, a chegada da madrasta: ‘O pai, que suportava o peso das caixas de manteiga, agora andava leve, manso, tropeçando em penumbras e suspiros. O amor encarnou em todo o seu destemido corpo e afrouxou até seus pesares. Amava em dobro: o amor que sobra aos viúvos e mais o amor reinventado, e capaz de camuflar o luto.’

Uma criança narrando suas memórias imprime sinceridade ao texto e mostra que as palavras são poucas para tamanho padecimento: ‘Eu possuía, oculto em mim, também o que eu não sabia dizer. (...) Cobiçava conhecer mais palavras para nomear o incômodo perpétuo instalado pela dor.’ É difícil assimilar a perda, o garoto não tem o amparo necessário para este momento decisivo. Precisa aprender a conviver com muitas lembranças e a imensa dor, que permaneceram tão vivas e latejantes por toda a vida do autor, como ele mesmo diz no vídeo (link no final da resenha).

O tomate é uma referência importante ao longo do livro. O menino observa o ritual da madrasta: um único tomate é fatiado para a família. Para que sirva a todos, as fatias são finas, impregnadas de raiva, ciúme e indiferença, que ela distribui para cada um junto com uma quota de dor. Uma dor viva em vermelho, bocado amargo experimentado todos os dias. Tão difícil engolir o tomate envenenado pelo ódio quanto digerir o imenso pesar da alma cravada de angústia.

Nenhum filho sobrevive ao luto sem seqüelas: um irmão come vidro, a outra borda obsessivamente em pontos de cruz (metáfora da cruz que carrega), uma irmã menor passa a miar ao criar um gato mudo. Não há uma linha reta nesta narrativa de memórias, o referencial de tempo é dado pela partida dos irmãos, um a um. Cada parente a menos na mesa garante um pedaço mais grosso do fruto: ‘Cada despedida se anunciava dando mais sustância às fatias do tomate. O que antes era apenas transparência — hóstia maculada de ameaça — agora se fazia corpo e decretava abandono. As mãos matemáticas da mulher registravam com a faca e a força, e sobre a pele do tomate, suas premeditadas vitórias.’

A morte de uma mãe é algo avassalador, uma tragédia pessoal que gera inconformismo, uma lancinante saudade que nunca ameniza, a falta de quem olhe, cuide, zele. Parece faltar o elo que nos liga à vida. ‘A mãe partiu cedo — manhã seca e fria de maio — sem levar o amor que diziam eu ter por ela. Daí, veio me sobrar amor e sem ter a quem amar. Nas manhãs de maio o ar é frio e seco, assim como retruca o coração nos abandonos. (...) Eu pronunciava, seguidamente, a palavra amor, amor, sem ter a presença amada.’

Não pude deixar de refletir sobre o duelo mãe x madrasta e o impacto para a criança – e aqui me coloco inteira, porque sou madrasta de um órfão, e também mãe. Para o pequeno narrador, a mãe era maravilhosa, perfeita: ‘Se a chuva chovia mansa o dia inteiro, o amor da mãe se revelava com mais delicadeza. O tempo definia as receitas. Na beira do fogão ela refogava o arroz. O cheiro do alho frito acordava o ar e impacientava o apetite. A couve, ela cortava mais fina que a ponta da agulha que borda mares em ponto cheio. Depois, mexia o angu para casar com a carne moída, salpicada de salsinha, conversando com o caldo do feijão. Tudo denunciava o seu amor. Nós, meninos, comíamos devagar, tomando sentido para cada gosto. Ela desconfiava que matar nossa fome era como nos pedir para viver.’ E sem discordar do gosto popular, a madrasta é má: ‘Afiando a faca no cimento frio da pia, ela cortava o tomate vermelho, sanguíneo, maduro, como se degolasse cada um de nós.’

Para lidar com o insuportável, o menino, assim como os irmãos, não dá voz ao sofrimento. Há muita dor escondida por trás da ausência do choro, que só encontra vazão na leitura e, mais tarde, na escrita. As memórias afetivas se multiplicam, o narrador derrama seu pranto em cada página: ‘Sobre os dias, a ausência da mãe ganhava corpo. O tempo — capaz de trocar a roupa do mundo — não consumia sua lembrança. Quando se ama, em cada dia o morto nasce mais. Em tudo, sua ausência estava presente. Sobre a fruteira da mesa da sala de jantar, na janela em que se debruçava nas tardes, na gota de água que pingava da torneira, no anil que clareava os lençóis, ela se anunciava. No silêncio obrigatório para bem escutar os pássaros, ela se emanava.’

O livro é inteiramente poético, cheio de metáforas que nos conduzem à intimidade da tristeza. Apesar de fininho, guarda potencial para o arrebatamento: ‘Na morte, a ausência ganha mais presença. É substantivo e concreto tudo aquilo que permanece. Daí, os mortos passearem entre nós.’ Para os fãs de ação e diálogos pode soar monocórdico. Para os apreciadores do encantamento proporcionado por construções lapidadas pela sensibilidade e metáforas profundas, um deleite!

Impossível escrever minhas impressões sobre esta leitura estupenda sem a quase onipresença do vermelho. Vermelho da alma em carne viva, da sangria abundante que não leva embora o amargo do luto. Amargura pungente, ruminada. O vermelho amargo dos tomates servidos para matar a fome (de afeto) que jamais será saciada. ‘Não se desata com delicadeza o nó que nos amarra à mãe.’



Cearense, fisioterapeuta e mãe. “Eu não tenho o hábito da leitura. Eu tenho a paixão da leitura. O livro sempre foi para mim uma fonte de encantamento. Eu leio com prazer. Leio com alegria.” Ariano Suassuna.

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