| Ed. Record, 2014 - 252 páginas: |
Do consagrado autor de cachorros de palha, uma visão brilhante e assustadora do lugar solitário do homem no universo e sua busca pela imortalidade. A obsessão com a natureza da morte e as diversas tentativas do homem de tentar explicar e até provar que existe vida após a morte são o tema deste livro. A recusa em acreditar que a morte é o fim de tudo e insistir na nossa imortalidade resultou em vários experimentos e ideologias que, conforme Gray apresenta, perduram até hoje. As implicações do livro de John Gray vão assombrar os leitores para o resto de suas vidas - e talvez além dela.
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Vozes dos que já se foram
Não sou de fraquejar diante de livro algum, não há abandono mesmo ao me deparar com uma leitura enfadonha ou que tenha me ludibriado. Foi o que ocorreu com A busca pela imortalidade (Rercord, 252 páginas), que me fez acreditar, pela capa, tratar-se de um livro sobre o avanço da medicina em relação à longevidade.
A capa é sensacional, um equilibrista se balançando em cima de uma cadeira, que está em cima de outra cadeira, que por sua vez está em cima de uma mesa no último andar de um prédio (é balançar-se acima de um precipício). Não é a capa original, sendo que esta da Record foi a que me ganhou de cara.
O livro de John Gray não é de ficção e possui citações maravilhosas, como a de Frederick Seidel que nos diz: “Cada buraco de bala é um portal para a imortalidade”, deixando-nos totalmente à mercê de nossa própria reflexão.
Na primeira parte do livro somos arremessados de encontro a pensadores que travaram consigo e com todos sua crença sobre a religião e a vida após a morte. As personagens deste livro são historicamente conhecidas: Darwin, madame Blavatski, Górki, Lenin, Stalin, H.G.Wells, Lamarck, Aleister Crowley. Quem não os conhece, basta dar uma busca pelo Google e ficarão boquiabertos:
- “A religião não é um tipo primitivo de teorização científica, nem a ciência é um tipo superior de sistema de crenças. Assim como os racionalistas interpretaram mal os mitos, como se fossem protoversões de teorias científicas, cometeram o erro de acreditar que as teorias científicas podem ser literalmente verdadeiras. Ambos são sistemas de símbolos, metáforas para uma realidade que não pode ser expressa em termos literais...”
É aí que começa a grande guerra entre aqueles que abraçavam o Espiritismo por inúmeras razões e outros que os declaravam um engodo.
- “Durante o final do século XIX e o começo do século XX, a ciência transformou-se em um instrumento investido contra a morte. O poder do conhecimento foi convocado para libertar os seres humanos de sua mortalidade. A ciência foi lançada contra a ciência e tornou-se um canal para a magia.”
Darwin é incitado de certa forma a dar sua opinião sobre a morte e ela vem de encontro ao que acredito ou quero acreditar:
-
“... por que suas vidas deveriam terminar como as dos outros animais, no nada. Se fosse assim, como poderia a existência humana ter algum sentido? Como se poderiam conservar os valores humanos se a personalidade humana era destruída no momento da morte?”
Tenho medo da morte sim, é um medo atávico, sem explicação. O pior é que tal frase me fez ficar pensando em outras questões: o que nos faz melhores que os animais ou que uma formiga, por exemplo? Digo isso em relação à morte. Por que podemos possuir o status de ter vida após a morte enquanto um outro ser não? Mas isso é uma discussão para outro livro.
Sigo e sinto necessidade de teísmo, mas não me curvo à autoridade de nenhuma religião, talvez Henry Sedgwick se expresse melhor:
- “... Não sei se acredito ou apenas espero que exista uma ordem moral no universo que conhecemos, um princípio supremo de Sabedoria e Benevolência, guiando todas as coisas para bons fins e para a felicidade do Bem.”
Por outro lado se tudo se encerra com a morte, por que sermos éticos? Sedgwick chamou a isso de “dualismo da razão prática”. Poderíamos todos ser na melhor das hipóteses hedonistas, e na pior, pura e simplesmente egoístas.
Olhem a confusão na qual fui me meter com este livro, é um vespeiro sem tamanho. O título original poderia trazer maiores esclarecimentos – “The Immortalization commission” – em tradução literal “A comissão da imortalidade”, afinal de contas um grupo de estudiosos e beneméritos decide que se houver vida após a morte, assim que passarem para o outro lado haveriam de dar um sinal que só os mesmos entenderiam. Textos fragmentados (psicografados de fontes diversas), de enorme erudição, deveriam ser decifrados através de uma colagem - correspondências criptadas. Isso daria a todos os pesquisadores do psiquismo a prova de que o espírito sobreviveria após a morte física.
O problema é que é aí que o livro naufraga. John Gray escreve com tendência a menosprezar o trabalho espírita que estimo muito. Apesar de ser uma pesquisa bem fundamentada, ela carece de outros pontos de vista e fica sujeita a considerações nada abonadoras. O autor me parece um agnóstico, que segundo um amigo meu, é um indivíduo que não crê e nem deixa de crer, falta colhão para ser ateu (hilária definição por sinal).
Fui de nada para lugar nenhum com este livro. Porém, a partir do segundo capítulo o livro melhorou porque entra em cena uma personagem histórica misteriosa e fascinante – Moura – amante de H.G.Wells, sim o escritor de inúmeros sucessos, tais como “A máquina do tempo”, “A ilha do Dr.Moreau”, “A guerra dos mundos” e tantos outros que abordam questões morais e metafísicas.
Então mesmo que este livro tenha sido arrastado e cheio de questões insolúveis, toma um rumo totalmente diferente com Moura, entrando no mundo da espionagem e da Guerra Fria e tudo o que é de cunho histórico me fascina.
Caso o leitor consiga chegar até aqui não se decepcionará!
![]() ![]() Cortesia da Editora Record |
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![]() Ciumento por natureza, descobri-me por amor aos livros, então os tenho em alta conta. Revelam aquilo que está soterrado em meu subconsciente e por isso o escorpiano em mim vive em constante penitência, sem jamais se dar por vencido. Culpa dos livros! |
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