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24.9.26

Alchemised [Senlinyu]

⏱ Tempo de leitura: calculando...

É difícil falar sobre Alchemised sem pensar, antes de tudo, em como esse livro me fez sentir. Faz uma semana que terminei a leitura e, sinceramente, ainda não consegui deixá-lo para trás. Volta e meia me pego lembrando de uma cena, de um diálogo ou simplesmente do peso que essa história carrega. É aquele tipo de livro que não acaba quando você fecha a última página.

Uma das curiosidades mais interessantes sobre essa história é a sua origem. Nos últimos anos, as fanfics de Dramione, casal formado por Draco Malfoy e Hermione Granger, do universo de Harry Potter deixaram de ser um fenômeno restrito ao fandom e ganharam enorme visibilidade nas redes sociais, especialmente no TikTok. Entre elas, Manacled, escrita por SenLinYu, tornou-se um verdadeiro fenômeno por sua narrativa sombria e pela forma como dialoga com O Conto da Aia, de Margaret Atwood.

Alchemised
Título: Alchemised
Autor: Senlinyu
Tradutor: Helen Pandolfi
Editora: Intrínseca
Gênero: Fantasia
Páginas: 960
Edição: 1ª
Ano: 2025
Onde comprar: Amazon

Foi a partir dessa história que Alchemised começou a tomar forma. No entanto, o livro vai muito além de suas inspirações. A autora reimaginou completamente a narrativa, construiu um universo inédito, estabeleceu uma mitologia própria e criou personagens que possuem identidade e profundidade suficientes para sustentar a obra por si só. Em nenhum momento senti que estava lendo uma adaptação de uma fanfic; pelo contrário, encontrei uma história madura, brutal e profundamente envolvente. A sensação foi a de acompanhar uma fantasia original, com uma narrativa consistente, emocionalmente intensa e capaz de conquistar até mesmo leitores que nunca tiveram contato com as obras de referências.

Dividida em três partes, a narrativa começa da melhor forma possível: no meio do caos. Quando a história se inicia, a guerra já acabou, o mal venceu e Paladia já não é mais a mesma. Acompanhamos Helena Marino, uma alquimista que desperta sem recordar completamente quem é ou o que aconteceu. À medida que suas memórias retornam, o leitor monta esse quebra-cabeça junto com ela, descobrindo que recuperar o passado significa também reviver perdas, traumas e escolhas devastadoras. Mais do que uma fantasia, é uma história sobre aquilo que permanece depois da guerra: as cicatrizes.

Mas preciso dizer: esse livro não é para todo mundo!

A autora não poupa o leitor. As cenas são gráficas, a violência é explícita e os impactos psicológicos recebem tanto destaque quanto os conflitos físicos. Tortura, violência física e psicológica, abuso, manipulação, luto, perda da identidade, trauma e as consequências da guerra são apresentados de maneira extremamente crua. Em diversos momentos precisei interromper a leitura apenas para respirar e processar tudo o que havia acontecido.

E talvez esse seja um dos maiores méritos da obra. Embora se passe em um universo fantástico, Alchemised estabelece paralelos inquietantes com o nosso próprio mundo. Guerras, regimes autoritários, violência, desumanização e abuso de poder não pertencem apenas à ficção; continuam fazendo parte da realidade de milhares de pessoas. A fantasia funciona, então, como uma lente que amplia questões profundamente humanas e dolorosamente atuais.

Ao mesmo tempo, foi justamente essa coragem de não romantizar o sofrimento que mais me conquistou. Os personagens parecem pessoas reais. Eles erram, sofrem, amam, fazem escolhas moralmente questionáveis e tentam seguir em frente mesmo completamente quebrados. É impossível não criar um vínculo com eles. O romance, por sua vez, nasce desse cenário de destruição e reconstrução. Não aparece como uma solução mágica para os traumas, mas como um pequeno respiro em meio ao caos.

“Eu te conheço?" ela perguntou enquanto seus olhos se fechavam. "Eu suponho que sim.”

Essa talvez seja uma das frases que melhor resume a essência do livro: memória, identidade e o peso das relações atravessadas pela guerra.

Se existe algo que pode afastar alguns leitores, é justamente sua intensidade. Alchemised é um livro denso. Não é uma leitura para consumir rapidamente ou para servir como distração. Pelo contrário: ele exige tempo, atenção e entrega emocional. É o tipo de história que continua coexistindo com você mesmo depois da última página. As cenas permanecem na memória, os diálogos retornam de forma inesperada e os dilemas dos personagens continuam ecoando. É uma leitura que dói, porque a autora não oferece conforto nem suaviza o sofrimento. E talvez seja exatamente por isso que ela seja tão memorável.

No fim, qualquer ressalva se tornou pequena diante da experiência que esse livro me proporcionou. A obra me destruiu e me conquistou na mesma medida. Foi uma leitura sufocante, dolorosa e, paradoxalmente, belíssima. Não é uma história que eu recomendaria para qualquer leitor, mas para quem gosta de fantasias adultas, emocionalmente intensas e com personagens moralmente complexos, ela é uma experiência inesquecível.

“O amor não é tão bonito ou puro quanto as pessoas gostam de pensar. Às vezes, ele guarda uma escuridão. Kaine e eu somos um só. Eu o tornei quem ele é. Quando salvei a vida dele, eu sabia o que aquela matriz significava. Se Kaine é um monstro, então fui eu que o criei.”

Terminei o livro com aquela rara sensação de que uma parte de mim ficou presa em Paladia. Faz uma semana desde a última página, e a história continua comigo. Continuo pensando em Helena, em seus silêncios, nas escolhas que precisou fazer e em tudo o que ela perdeu. Poucos livros provocam uma ressaca literária tão profunda.

Deixo explicito, não é uma leitura confortável, nem pretende ser. É um livro que machuca, inquieta e emociona na mesma intensidade. Ele não entrega respostas fáceis nem oferece finais que apagam a dor. Ao contrário, deixa o leitor carregando um pouco do peso que seus personagens também carregam. Algumas histórias servem para entreter; outras nos transformam. Alchemised pertence à segunda categoria. E, para mim, essa é a maior prova de que um livro cumpriu seu propósito.

Gabriele Machado

2 comentários em "Alchemised [Senlinyu]"

  1. Falta me coragem para encarar kkkk
    Como não sou muito fã de HP não tive vontade de ler

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  2. Oiii.
    Parabéns pela resenha.
    Não sou fã do universo Potter, por isso nem me aventurei a ler.
    Mas o mundinho literário amou esse livro

    ResponderExcluir

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