| Ed. Sextante, 2014 - 240 páginas: |
Um enorme shopping estava prestes a ser construído na cidade americana de Seattle, mas no meio do terreno havia a casinha de Edith Wilson Macefield, uma velhinha durona que estava decidida a não arredar pé dali. Quando o responsável pela obra, Barry Martin, foi conversar com ela, todos acreditaram que iria convencê-la a mudar de ideia. Mas estavam redondamente enganados. Nesta emocionante e singela história real, Barry conta como nasceu a inusitada amizade entre ele e Edith, e as lições de vida que aprendeu com ela.
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Uma história que resgata o valor das lembranças e a importância de manter-se fiel aos sentimentos. Que fala de altruísmo. Esta é a premissa do livro Uma Casa no Meio do Caminho (Sextante, 240 páginas): um apanhado de lições que o autor, Barry Martin, oferta ao leitor a partir de sua convivência com a octogenária Edith.
A dependência de um idoso, nos últimos anos da vida, envolve todos os familiares. Enquanto vivencia a decadência física, também as pessoas que o cercam são abaladas e levadas a pensar na própria vida, na inevitável finitude, além dos aspectos mais práticos que a perda da autonomia impõe.
Barry é um engenheiro, supervisor encarregado da obra de um shopping center em um antigo bairro de Seattle. Em meio à demolição de antigas propriedades uma casinha resiste bravamente. Edith Wilson Macefield, 85 anos, não vai sair, não vai. A casa tem um valor sentimental importante demais para ela. Edith não se desfaz dos objetos que contam sua trajetória: vinis dos músicos que conheceu, livros que supostamente escrevera, quadros e souvenirs de viagens, bibelôs que acumulou durante uma vida intensa e cheia de aventuras. Teria mesmo sido uma espiã infiltrada entre os nazistas na segunda guerra? Teria vivido em um castelo e cuidado de crianças? Barry não sabe se acredita nas histórias que a velhinha conta aos poucos e sem detalhes. Cabe a ele costurar as informações que recebe para reconstruir uma personagem curiosa, corajosa e muito, muito ranzinza.
"A forma como ela vive e a escolha que fez de não sair de casa parecem despertar sentimentos muito fortes em desconhecidos. (...) Acho que é porque ela é genuína, autêntica. Está vivendo a própria vida sem pedir ajuda, piedade ou dinheiro. O fato de considerarmos isso tão surpreendente revela muito sobre nós."
Como seu trailer fica pertinho da casa de Edith, Barry passa a visitá-la diariamente, para saber se precisa de alguma coisa. Toda a área circunvizinha será do shopping, que envolverá a casinha antiga de Edith, porque ela não quer vender, não aceita os altos valores que são oferecidos. Não precisa de dinheiro, precisa ficar onde esteve durante boa parte de seus últimos anos. E onde está o seu coração.
Percebendo as dificuldades que ela enfrenta, começa a ajudá-la em pequenas tarefas diárias e, quando percebe, está fazendo as refeições de Edith, levando-a ao médico e preocupando-se tanto, como se fosse alguém da família... Um lindo laço de amizade e afeto os une, mas é Barry quem luta para que a harmonia predomine. Edith não é fácil, não é mesmo!
"Ela relatava as coisas de um jeito que não parecia ser para me impressionar. E sempre mudava de assunto se você insistisse em saber mais. Será que ela estava inventando as histórias e tinha medo de ser pega em alguma mentira? Ou os acontecimentos de seu passado eram reais demais e lhe causavam muita emoção? Eu não tinha a menor ideia."
A leitura é reflexiva, especialmente para o leitor que convive com um idoso. Mostra como Edith vai perdendo a capacidade de fazer coisas simples, mas não aceita ajuda e não quer reconhecer que não pode mais permanecer sem auxílio.
"Quando não sabia o que tinha, ela havia perdido o controle da própria vida; agora, ela estava no comando novamente. (...) Ao menos a partir desse momento ela podia tomar as grandes e importantíssimas decisões. Isso é algo que fazemos bem menos ao envelhecer - e a coisa mais importante que nós, ao ajudarmos um idoso, devemos lembrar. Eles passaram a vida inteira tomando grandes decisões sobre o próprio destino e o de outros."
Há momentos divertidos, especialmente quando Barry tenta manter a calma diante da impertinência, teimosia e até grosseria de Edith. E há também passagens onde sentimos uma compaixão imensa pelo homem que se dedica incansavelmente ao bem-estar da velhinha que só reclama. Barry passa, aos poucos, a cozinhar para Edith, a cuidar dos pormenores que a mantêm saudável e confortável. Cada vez mais ela exige a presença dele, que, enquanto dirige a grandiosa obra no entorno da casa, fica de olho nas necessidades da velha senhora. A coisa vai tomando dimensões sufocantes: Barry deixa de jantar com a família e, às vezes, até dorme na casa de Edith... Uma relação um tanto mal conduzida, mas que trará preciosas lições sobre a liberdade e os limites de cada um, dentre outras tantas, além de fazê-lo experimentar uma melhor relação com o pai, que adoece e precisa dele.
"Acho que ninguém está preparado para o momento em que os pais começam a envelhecer. Eu pelo menos não estava. Fiquei em estado de negação. Não é que eu não soubesse o que estava acontecendo com meu pai. Eu só não queria saber."
Tenho a forte impressão de que seria difícil suportar a carga que Barry carregou. Ele se dispôs a fazer coisas por Edith que poucos filhos fariam pela própria mãe! Nesse ponto, o autor merece o meu aplauso: não dispensou as revelações de suas dificuldades e compartilhou os sentimentos de raiva que experimentou, foi sincero com o leitor.
Ainda que a leitura mostre um lado mais triste da velhice, esta não deve ser vista como essencialmente um momento de perdas, afinal é no ocaso da vida que muitas pessoas se veem livres de obrigações e com tempo para realizar projetos engavetados e ousar aprender coisas novas. É assim que se mantêm ativas, produtivas e aproveitando o que antes era, de alguma forma, limitado. E Edith fez isso muito bem: resolvia todos os seus problemas, dirigia seu velho automóvel e aproveitava seus dias. Quando conhece Barry, infelizmente, já está nos últimos anos de sua magnífica caminhada e só por isso o peso do tempo a abate, deixando-a impossibilitada de cuidar de si.
Confesso que senti raiva de Edith em muitos momentos e tive vontade de sacudir Barry por aguentar tantos abusos... Ao mesmo tempo, Edith seduz o leitor, é inteligente, engraçada, uma mulher forte e notável. Enquanto descreve a relação de ambos, Barry se revela, reavalia a própria vida. Tudo o que aprendeu com Edith parece ter sido um estágio para agora encarar a nova condição de seu pai:
"Acho que meu desejo era termos uma última memória bonita e marcante juntos. Além disso, eu não gostava de ver meu pai ali, sentado no sofá o dia inteiro. É uma tendência que as pessoas têm quando alguém próximo fica muito doente: deixá-lo o tempo todo num quarto, em silêncio, para tentar preservar sua força e sua energia e evitar que passe por algum perigo. Para alguns doentes isso não é problema, mas para outros é uma sentença de morte (...)."
A leitura é interessante, apesar dos pontos repetitivos, exatamente como é a rotina de cuidados com um idoso tão dependente, mas que tem uma história tão bonita para contar. Me fez enxergar coisas que antes escapavam, perceber pessoas queridas que começam a apresentar fragilidades quando antes eram fortes e decididas. Mostrou o quanto ficaremos vulneráveis e um tanto carentes. Gabriel García Marquez disse que: “O segredo de uma velhice agradável consiste apenas na assinatura de um honroso pacto com a solidão.” Doloroso, não? O livro mostra – embora sem esta intenção - que precisamos dar mais amor e atenção aos mais velhos. Fatalmente vai mudar sua maneira de lidar com eles. E como estamos vivendo cada vez mais – e melhor -, fica a reflexão sobre nossos dias futuros.
Lembrei da doce e inesquecível convivência que tive com minha avó, que dizia: “não sou idosa, sou velha, não gosto de amenizar a decrepitude, aceito-a”. Sábia vovó.
A história de Edith inspirou a divulgação do filme Up: Altas Aventuras.
Link do livro no Skoob: http://www.skoob.com.br/livro/425713ED482151
A dependência de um idoso, nos últimos anos da vida, envolve todos os familiares. Enquanto vivencia a decadência física, também as pessoas que o cercam são abaladas e levadas a pensar na própria vida, na inevitável finitude, além dos aspectos mais práticos que a perda da autonomia impõe.
Barry é um engenheiro, supervisor encarregado da obra de um shopping center em um antigo bairro de Seattle. Em meio à demolição de antigas propriedades uma casinha resiste bravamente. Edith Wilson Macefield, 85 anos, não vai sair, não vai. A casa tem um valor sentimental importante demais para ela. Edith não se desfaz dos objetos que contam sua trajetória: vinis dos músicos que conheceu, livros que supostamente escrevera, quadros e souvenirs de viagens, bibelôs que acumulou durante uma vida intensa e cheia de aventuras. Teria mesmo sido uma espiã infiltrada entre os nazistas na segunda guerra? Teria vivido em um castelo e cuidado de crianças? Barry não sabe se acredita nas histórias que a velhinha conta aos poucos e sem detalhes. Cabe a ele costurar as informações que recebe para reconstruir uma personagem curiosa, corajosa e muito, muito ranzinza.
"A forma como ela vive e a escolha que fez de não sair de casa parecem despertar sentimentos muito fortes em desconhecidos. (...) Acho que é porque ela é genuína, autêntica. Está vivendo a própria vida sem pedir ajuda, piedade ou dinheiro. O fato de considerarmos isso tão surpreendente revela muito sobre nós."
Como seu trailer fica pertinho da casa de Edith, Barry passa a visitá-la diariamente, para saber se precisa de alguma coisa. Toda a área circunvizinha será do shopping, que envolverá a casinha antiga de Edith, porque ela não quer vender, não aceita os altos valores que são oferecidos. Não precisa de dinheiro, precisa ficar onde esteve durante boa parte de seus últimos anos. E onde está o seu coração.
Percebendo as dificuldades que ela enfrenta, começa a ajudá-la em pequenas tarefas diárias e, quando percebe, está fazendo as refeições de Edith, levando-a ao médico e preocupando-se tanto, como se fosse alguém da família... Um lindo laço de amizade e afeto os une, mas é Barry quem luta para que a harmonia predomine. Edith não é fácil, não é mesmo!
"Ela relatava as coisas de um jeito que não parecia ser para me impressionar. E sempre mudava de assunto se você insistisse em saber mais. Será que ela estava inventando as histórias e tinha medo de ser pega em alguma mentira? Ou os acontecimentos de seu passado eram reais demais e lhe causavam muita emoção? Eu não tinha a menor ideia."
A leitura é reflexiva, especialmente para o leitor que convive com um idoso. Mostra como Edith vai perdendo a capacidade de fazer coisas simples, mas não aceita ajuda e não quer reconhecer que não pode mais permanecer sem auxílio.
"Quando não sabia o que tinha, ela havia perdido o controle da própria vida; agora, ela estava no comando novamente. (...) Ao menos a partir desse momento ela podia tomar as grandes e importantíssimas decisões. Isso é algo que fazemos bem menos ao envelhecer - e a coisa mais importante que nós, ao ajudarmos um idoso, devemos lembrar. Eles passaram a vida inteira tomando grandes decisões sobre o próprio destino e o de outros."
Há momentos divertidos, especialmente quando Barry tenta manter a calma diante da impertinência, teimosia e até grosseria de Edith. E há também passagens onde sentimos uma compaixão imensa pelo homem que se dedica incansavelmente ao bem-estar da velhinha que só reclama. Barry passa, aos poucos, a cozinhar para Edith, a cuidar dos pormenores que a mantêm saudável e confortável. Cada vez mais ela exige a presença dele, que, enquanto dirige a grandiosa obra no entorno da casa, fica de olho nas necessidades da velha senhora. A coisa vai tomando dimensões sufocantes: Barry deixa de jantar com a família e, às vezes, até dorme na casa de Edith... Uma relação um tanto mal conduzida, mas que trará preciosas lições sobre a liberdade e os limites de cada um, dentre outras tantas, além de fazê-lo experimentar uma melhor relação com o pai, que adoece e precisa dele.
"Acho que ninguém está preparado para o momento em que os pais começam a envelhecer. Eu pelo menos não estava. Fiquei em estado de negação. Não é que eu não soubesse o que estava acontecendo com meu pai. Eu só não queria saber."
Tenho a forte impressão de que seria difícil suportar a carga que Barry carregou. Ele se dispôs a fazer coisas por Edith que poucos filhos fariam pela própria mãe! Nesse ponto, o autor merece o meu aplauso: não dispensou as revelações de suas dificuldades e compartilhou os sentimentos de raiva que experimentou, foi sincero com o leitor.
Ainda que a leitura mostre um lado mais triste da velhice, esta não deve ser vista como essencialmente um momento de perdas, afinal é no ocaso da vida que muitas pessoas se veem livres de obrigações e com tempo para realizar projetos engavetados e ousar aprender coisas novas. É assim que se mantêm ativas, produtivas e aproveitando o que antes era, de alguma forma, limitado. E Edith fez isso muito bem: resolvia todos os seus problemas, dirigia seu velho automóvel e aproveitava seus dias. Quando conhece Barry, infelizmente, já está nos últimos anos de sua magnífica caminhada e só por isso o peso do tempo a abate, deixando-a impossibilitada de cuidar de si.
Confesso que senti raiva de Edith em muitos momentos e tive vontade de sacudir Barry por aguentar tantos abusos... Ao mesmo tempo, Edith seduz o leitor, é inteligente, engraçada, uma mulher forte e notável. Enquanto descreve a relação de ambos, Barry se revela, reavalia a própria vida. Tudo o que aprendeu com Edith parece ter sido um estágio para agora encarar a nova condição de seu pai:
"Acho que meu desejo era termos uma última memória bonita e marcante juntos. Além disso, eu não gostava de ver meu pai ali, sentado no sofá o dia inteiro. É uma tendência que as pessoas têm quando alguém próximo fica muito doente: deixá-lo o tempo todo num quarto, em silêncio, para tentar preservar sua força e sua energia e evitar que passe por algum perigo. Para alguns doentes isso não é problema, mas para outros é uma sentença de morte (...)."
A leitura é interessante, apesar dos pontos repetitivos, exatamente como é a rotina de cuidados com um idoso tão dependente, mas que tem uma história tão bonita para contar. Me fez enxergar coisas que antes escapavam, perceber pessoas queridas que começam a apresentar fragilidades quando antes eram fortes e decididas. Mostrou o quanto ficaremos vulneráveis e um tanto carentes. Gabriel García Marquez disse que: “O segredo de uma velhice agradável consiste apenas na assinatura de um honroso pacto com a solidão.” Doloroso, não? O livro mostra – embora sem esta intenção - que precisamos dar mais amor e atenção aos mais velhos. Fatalmente vai mudar sua maneira de lidar com eles. E como estamos vivendo cada vez mais – e melhor -, fica a reflexão sobre nossos dias futuros.
Lembrei da doce e inesquecível convivência que tive com minha avó, que dizia: “não sou idosa, sou velha, não gosto de amenizar a decrepitude, aceito-a”. Sábia vovó.
A história de Edith inspirou a divulgação do filme Up: Altas Aventuras.
Link do livro no Skoob: http://www.skoob.com.br/livro/425713ED482151
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![]() Cearense, fisioterapeuta e mãe. “Eu não tenho o hábito da leitura. Eu tenho a paixão da leitura. O livro sempre foi para mim uma fonte de encantamento. Eu leio com prazer. Leio com alegria.” Ariano Suassuna. |
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