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30.5.17

Acabei de Ler - Maio de 2017


Na onda de terminar minhas séries iniciadas, este mês acabei de ler A Garota do Calendário. E isto prova que sou persistente e finalizo as séries que inicio, mesmo aquelas que não são do meu agrado. Esta série tem capas lindas e até uma boa ideia, mas a autora não soube conduzi-la de forma instigante, pelo contrario, foi sempre muito previsível e também totalmente inverosímil. A verdade é que tem obras que conquistam a alguns e não dão certo para outros. Esta não deu certo para mim, infelizmente.

Para quem ainda não sabe do que se trata os doze livros da coleção A Garota do Calendário abaixo faço um pequeno resumo:

Mia Saunders é uma garota que já sofreu algumas desilusões amorosas, e agora acredita que o amor verdadeiro não existe. Sua mãe abandonou a família e ela vive desde então somente com o pai e a irmã mais nova. O pai de Mia aparentemente nunca se recuperou do abandono, dedicando-se a jogos e bebidas. Eles moram em Las Vegas, lugar bem propício aos seus vícios e assim, seu pai conseguiu uma dívida de um milhão de dólares com um dos perigosos agiotas da cidade, que por acaso, é um dos ex-namorados de Mia.

Por não poder pagar a dívida de jogo, seu pai levou uma surra que o deixou em coma no hospital, mas Mia precisa liquida-la, senão eles irão mata-lo definitivamente. Mia, que a propósito é linda, mas não sabe disso, decide procurar a ajuda de sua tia Millie, irmã de sua mãe, que é proprietária de uma agencia de acompanhantes de luxo. Para conseguir o montante necessário, ela deverá trabalhar como acompanhante de um novo homem a cada mês, por uma bagatela de cem milo dólares. E se transar com ele, ganhará vinte por cento a mais. Fácil não?


A Garota do Calendário - Setembro [Audrey Carlan]

Audrey Carlan
Ed. Verus, 2016 - 144 páginas
Em setembro, Mia será obrigada a dar o cano no cliente do mês, pois um problema urgente de família exige sua atenção. Ela vai voltar para Las Vegas e ficar cara a cara com o passado, num reencontro que pode reabrir feridas antigas.

Onde comprar:



A Garota do Calendário - Outubro [Audrey Carlan]

Audrey Carlan
Ed. Verus, 2016 - 160 páginas
Outubro virá com um sopro de novidade para Mia. Agora que as coisas estão quase todas resolvidas em sua vida, ela pode se estabelecer com o homem que ama e dar uma nova direção para sua carreira.

Onde comprar:



A Garota do Calendário - Novembro [Audrey Carlan]

Audrey Carlan
Ed. Verus, 2016 - 116 páginas
Em novembro, Mia viajará novamente para Nova York por motivos profissionais, mas dessa vez o trabalho é diferente. Ela precisará entrar em contato com celebridades — sorte dela que alguns dos amigos que fez em sua jornada estão prontos para ajudá-la!

Onde comprar:



A Garota do Calendário - Dezembro [Audrey Carlan]

Audrey Carlan
Ed. Verus, 2016 - 140 páginas
Em dezembro, Mia irá a Aspen, a estação de esqui mais celebrada pelos americanos endinheirados. Um homem misterioso pagou uma bolada para que ela fosse até lá. E o que Mia vai encontrar nas montanhas geladas vai mudar sua vida para sempre.

Onde comprar:



Enfim... Acabou.

Os livros abaixo foram os lidos e resenhados em Maio. Clique nas capas para ler as resenhas:


Top Comentarista de Maio

Gisela Menicucci Bortoloso
Capixaba, leonina, analista de sistemas e mãe. Apaixonada por livros, sou uma leitora compulsiva e como o tempo é curto, leio em todo o lugar: esperando o elevador, dentro do ônibus, no salão de beleza... Ler é meu prazer e minha paixão!
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29.5.17

Criaturas Estranhas [Neil Gaiman]

Criaturas Estranhas
Ed. Rocco, 2016 - 400 páginas
"Dezesseis histórias fantásticas, algumas escritas há mais de cem anos, outras inéditas, selecionadas por ninguém menos que o aclamado autor de Coraline e outros tantos sucessos, Neil Gaiman. Como o título sugere, “Criaturas Estranhas” é uma coletânea de contos povoada por seres fantásticos, magníficos e às vezes assustadores. Assinadas por autores clássicos de ficção científica e fantasia, como Anthony Boucher e Diana Wynne Jones, a escritores contemporâneos, como Nnedi Okorafor e o próprio Gaiman, as histórias, que parecem ter saído de um sonho, ou talvez de um pesadelo, têm em comum o olhar atento e único de Neil Gaiman para o insólito. Cada conto é precedido de um comentário do escritor, que visa a provocar ainda mais a imaginação do leitor."

Onde comprar:

Criaturas Estranhas é uma coletânea com dezesseis contos selecionados pelo autor Neil Gaiman. Nessas histórias, conhecemos criaturas peculiares com histórias mais peculiares ainda. Esse livro é como se fosse um museu, onde estão expostos as mais diversas criaturas, mas aquelas que a gente não costuma encontrar por aí.

"O livro que você tem em mãos, com lobisomens e coisas misteriosas guardadas em baús, com perigosas marcas de tinta e suas bestas e deuses-serpentes, com o pássaro do sol, os unicórnios e as sereias, e até mesmo a bela Morte, existe para cuidar do atual Museu de História Sobrenatural."

Eu já li algumas coletâneas organizadas pelo Gaiman e o que mais me chama atenção são os tipos de histórias que ele seleciona. Algumas tão antigas que nós nunca ouvimos falar, outras até recentes, mas que faltava uma oportunidade para serem conhecidas. E é isso que o autor fez, nos trouxe histórias fantásticas, inimagináveis, mas que ao mesmo tempo nos fazem refletir.

Não vou falar de todos os contos para essa resenha não ficar enorme, mas eu gostei de todos. Claramente uns mais do que outros, mas todos me impactaram de alguma forma e escolhi seis para comentar com vocês.

Criaturas Estranhas

O Grifo e o Cônego Menor é o terceiro conto e o primeiro que eu mais gostei. É uma história sobre coragem, e a vontade de ajudar o próximo, mesmo que ele não mereça. O grifo é um animal bem marcante aqui, e o modo como ele lida com o Cônego é bem peculiar.

O Pássaro do Sol é o quinto conto, e escrito pelo Neil Gaiman de presente de aniversário para a filha. Como fã do autor, essa era a história que eu mais ansiava e fui surpreendida quando percebi que já tinha lido essa história. É um conto muito bacana sobre um clube que tem como objetivo experimentar os mais diversos animais (e outras coisas também). O problema é quando eles percebem que já comeram de tudo...

O Cacatucano ou a tia-avó Willoughby é o oitavo conto e o mais completo até então. Ele é tão bem desenvolvido que eu me senti completa quando ele terminou, como se tivesse a quantidade exata de páginas. Aqui, conhecemos a Matilda, uma menina que está sendo obrigada a visitar sua tia-avó, mas as coisas ficam mais interessantes quando ela e sua babá Pridmore pegam a carruagem errada a chegam a uma cidadezinha bem estranha,

Prismática é o décimo primeiro conto e um dos meus preferidos. Aqui temos uma jornada de Amos, um homem pobre e simples, que se une ao homem cinza, com roupas cinzas e voz cinza para ajudá-lo e ao seu mais próximo e querido amigo. Essa jornada é bem interessante e a inteligência e esperteza de Amos é fundamental para que tudo ocorra bem, principalmente para ele mesmo.

O Sorriso no Rosto é o décimo quarto conto e outro favorito. No início você não dá muito crédito a ele, porque a principal, Gilla, é bem chatinha. Mas as coisas mudam de tal forma que no final é só amor. Ele nos mostra uma lenda da Antiópia, sobre uma hamadríade e como isso interfere na vida da nossa protagonista é sensacional. Só digo uma coisa: empoderador!

Venha, Dona Morte é décimo sexto conto e o menos fantasioso, mas não deixa de ser interessante. O autor escolheu bem a história para fechar essa coletânea. Lady Neville é uma viúva idosa muito conhecida por suas excelentes festas. Mas ela já está cansada de sempre a mesma coisa, não importa o quanto tente inovar. Até que decide chamar um ser muito interessante para a sua nova festa, a Dona Morte. Mas é claro que, as coisas não vão sair exatamente como ela esperava. Essa história nos faz refletir bastante sobre a humanidade e o modo como cada um age em determinadas situações.

Outros contos que fazem parte da coletânea: A Coisa (coloquei esse nome porque o título é impossível de ser escrito), As Vespas Cartógrafas e as Abelhas Anarquistas, Ozioma - a Maligna, O Sábio de Theare, Cabriel-Enerst, O Mal Também se Levanta, O Voo do Cavalo, A Mantícora, a Sereia e Eu, O Lobisomem Cabal e Ou Todos os Mares com Ostras.

Criaturas Estranhas

Eu recomendo bastante esse livro, principalmente para aqueles que querem conhecer o gênero fantástico ou se abrir para novos autores. As histórias são bem diferentes entre si, mas todos trazem uma carga surreal e reflexiva, que vale a pena ser conferida. Quero deixar meus parabéns a editora Rocco, porque esta edição está maravilhosa. Todos os contos contém uma ilustração lindíssima e a diagramação está ao mesmo nível.

Espero que deem uma chance a essas histórias e que depois venham aqui contar suas impressões. E para quem já leu me diz aí qual foi o conto que você mais gostou.

Beijos e até a próxima.
Top Comentarista de Maio

Gabriela Erler
Gabriela do blog Reino da Loucura, ou simplesmente Gabis. Germiniana, 22 anos, capixaba. Viciada em livros, séries, músicas e maratonas literárias. Apaixonada por azul, roxo e inverno. Formada em Pedagogia e se tudo der certo, futuramente Psicologia. Uma garota um pouco estressada que morre de medo do futuro.
Cortesia da Editora Rocco
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25.5.17

The Kiss Of Deception, Vol.01 - Crônicas de Amor e Ódio [Mary E. Pearson]

Mary E. Pearson
Ed. Darkside Books, 2016 - 384 páginas
Morrighan é um reino imerso em tradições, histórias e deveres, e a Primeira Filha da Casa Real, uma garota de 17 anos chamada Lia, decidiu fugir de um casamento arranjado que supostamente selaria a paz entre dois reinos através de uma aliança política. O jovem príncipe escolhido se vê então obrigado a atravessar o continente para encontrá-la a qualquer custo. Mas essa se torna também a missão de um temido assassino. Quem a encontrará primeiro?


Onde comprar:

O amor talhado à faca

O amor está no ar, mas não é um amor qualquer, é um amor estilo Darkside – Darklove! Para você desacostumado aos livros desta editora pode parecer pouco, mas vá por mim, o livro é incomum. Esqueça a mocinha frágil e chorosa esperando pelo bravo, forte e belo príncipe. Aqui há mulheres fortes e encantadas, bárbaros gentis e príncipes inseguros. Personagens vigorosos, alucinados, rancorosos, poderosos, mas acima de tudo “humanos”, afeitos às vicissitudes de pessoas comuns como nós, repletos de dilemas.

O livro em questão é The kiss of deception (Darkside, 416 páginas) de Mary E. Pearson, o primeiro da trilogia “Crônicas de amor e ódio” que pretendo ler na íntegra, tamanho o meu entusiasmo com a sensibilidade poética e também estética da autora. Poética por que cada personagem carrega em si qualidades e defeitos que se equilibram através de palavras ditas diretamente ao leitor. E estética porque é um livro em primeira pessoa (por si só de difícil confecção) com 3 personagens narradoras.

Lia, princesa do reino de Morrighan, primeira filha (isso é importante, porque diz a lenda que todas as primeiras filhas da casa de Morrighan possuem o “dom”), por causa de um acordo pactuado entre reinos e também para colocar fim à tensão entre eles, é obrigada a se casar com o príncipe do reino de Dalbreck. Lia, com 17 anos, não conhece o tal príncipe, imagina que ele seja alguém de idade avançada e isso está completamente fora de seus planos – casamento sem amor.

Com a ajuda de sua amiga e criada, Pauline, decide fugir. E lá vão elas em busca de uma nova vida em Terravin, cidade natal de Pauline. É uma viagem longa, a cavalo, repleta de descobertas, surpresas e um bocado de receios.

“... pior do que ursos, pode haver bárbaros”, falei, colocando um terror fingido na voz, tentando tornar mais leves nossos humores.
Pauline arregalou os olhos, embora um sorriso brincasse abaixo deles. “Ouvi dizer que eles se reproduzem como coelhos e arrancam as cabeças de pequenos animais a dentadas.”

Desobediência como esta é tratada, no mínimo, como deslealdade no reino de Morrighan e a pena para tal insubordinação é a forca. Então nesta fuga não pode haver arrependimentos. Este ato não provoca a ira apenas do rei, mas também do chanceler e do perigoso erudito, que esconde segredos que poderão alterar a vida em todos os reinos.

Se fosse apenas isso já seria um problemão, mas Lia terá em seu encalço um príncipe ignorado e cheio de raiva do reino de Dalbreck e um assassino frio do distante reino de Venda, um bárbaro que tem como objetivo eliminar qualquer chance de união entre os reinos de Morrighan e Dalbreck. Para que isso aconteça basta matar Lia.

Em certo momento todas as vidas destas personagens se cruzarão e cada um terá voz no belíssimo texto de Mary E. Pearson.

“... virei-me rapidamente para evita ter que trocar mais uma palavra que fosse com ele. Com apenas algumas passadas, eu me encontrava tropeçando na mesa dos recém-chegados. Fui pega de surpresa pelos olhares fixos deles, e minha respiração ficou presa em meu peito. A intensidade que eu avistara de longe era mais aparente assim tão de perto. Por um instante, fiquei paralisada. Os olhos azuis do pescador cortavam-me, e os tempestuosos olhos castanhos do mercador eram mais do que perturbadores. Eu não sabia ao certo se eles estavam com raiva ou alarmados. Tentei driblar minha entrada desajeitada e ganhar vantagem.”

Fui desavergonhadamente ludibriado até a metade do livro. Ainda assim escolhi torcer pelo amor bandido de Lia que se vê encantada pelos dois cavalheiros, mas que tem as batidas do coração inclinadas para um dos lados.

“Eu virei a cabeça e ouvi o inconfundível som das pancadas de cascos no chão, pesados e metódicos... Só tive tempo de me arrastar e me pôr de pé quando um imenso cavalo surgiu...
O diabo havia chegado. E uma estranha parte de mim estava feliz com aquilo.”

A transição de Lia para a vida adulta não será nada fácil, assim como não é fácil este rito de passagem para nenhum adolescente. Ela tem que viver em meio a profecias cantadas em Venda ou declamadas em textos sagrados de Morrighan. Muitos sabem sobre Lia, menos ela mesma que precisa descobrir por si só (com sua força e sua faca) os segredos que envolvem seu nascimento.

Ela aprenderá a amar Terravin e seu povo, que é a tradução das pequenas cidades do interior:

“... em Civica, o próprio ar era tenso, esperando para nos pegar e nos nocautear, sempre embebido com o aroma de espreitas e avisos. Aqui em Terravin, o ar era apenas ar, e, o que quer que estivesse nele, estaria nele. Ele não fazia prisioneiros, e isso transparecia nos rostos das pessoas da cidade. Elas sorriam mais rápido, acenavam, chamavam a gente para entrar na loja e experimentar alguma coisa, para partilhar uma risada ou alguma notícia. A cidade era cheia de tranquilidade.”

Irá conviver com a morte:

“Pelejei com o cadáver, erguendo-o e colocando-o nas costas do meu cavalo. O sangue manchou meu ombro. O cheiro de putrefação ainda não tinha se assentado, mas tive que desviar do odor violento de abandono e excrementos para respirar um pouco de ar puro. A morte é assim. Não há dignidade alguma nela.”

Viajará pelo deserto como prisioneira:

“No terceiro dia, eu fedia tanto quanto Griz, mas ninguém notava isso. Todos os outros também fediam. Seus rostos tinham camadas de sujeira, então presumi que o meu estivesse da mesma forma, todos nos tornando animais imundos. Senti o gosto de poeira na minha boca, senti-a em meus ouvidos, poeira por toda parte, pedacinhos secos de inferno soprando na brisa...”

E em todos estes desafios Lia aprenderá que mesmo na adversidade devemos ter esperança e dar valor ao que a vida nos oferece.

“‘Vejo apenas lembretes de que nada dura para sempre, nem mesmo a grandeza.’
‘Algumas coisas duram.’
Encarei-o. ‘É mesmo? E exatamente que coisas seriam essas?’
‘As coisas que importam.’”

Haverá momentos em que Lia terá que mentir e podem me crucificar, mas sou a favor de uma “mentirinha branca” se for para poupar dor a alguém, evitar que sofra um mal ainda maior. Sei das consequências de toda mentira e também que uma mentira puxa outra – o que fazer quando uma bola de neve torna-se, ao final do caminho, uma avalanche totalmente desproporcional quando de seu início?

Lia terá que conviver com profecias de seu passado e consequência de suas escolhas do presente. Mas nada disso irá prepará-la para a magia contida no nascimento de cada dia.

“As regras da razão curvam-se à magia todos os dias”

Ela é a primeira filha da Casa Real e seu “dom” poderá se manifestar a qualquer momento, mesmo que ela tenha sido ensinada a ignorá-lo desde seu nascimento.

“O dom não veio para mim de forma conhecida ou clara, e eu ainda tinha muitas perguntas, mas, ainda assim, hoje, quando me sentei na campina, parecia que as pontas dos meus dedos haviam tocado a cauda de um cometa. Minha pele formigava com a poeira das possibilidades.”

Enfim, é um livro maravilhoso, com personagens que nos cativam desde o início, impossível largá-lo. Devorei em poucos dias cada parágrafo, cada palavra grafada no papel. Quando se gosta muito de um livro, a tarefa de se confeccionar uma resenha torna-se hercúlea. Quer-se colocar tudo e no fim achamos que não conseguimos passar nada do que realmente sentimos.

O que posso dizer é que me sinto maravilhado, sob um encantamento qualquer que não cabe em palavras. A Darkside mais uma vez me deixou mudo, mas a princesa Lia poderá me ajudar a fechar minha resenha:

“Aquele era o dia em que mil sonhos morreriam e um único sonho nasceria”.

Porque os sonhos são assim, feitos de algo indestrutível e inexplicável.

Top Comentarista de Maio

Rodolfo Luiz Euflauzino
Ciumento por natureza, descobri-me por amor aos livros, então os tenho em alta conta. Revelam aquilo que está soterrado em meu subconsciente e por isso o escorpiano em mim vive em constante penitência, sem jamais se dar por vencido. Culpa dos livros!
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24.5.17

O Muro [William Sutcliffe]

Ed. Record, 2017 - 336 páginas
      Joshua tem 13 anos e mora com a mãe e o padrasto em Amarias, um lugar isolado no topo da montanha, onde todas as casas são novíssimas. Na fronteira da cidade, há uma barreira bem alta, guardada por soldados fortemente armados e que só pode ser cruzada através de um posto de controle. Ninguém deve entrar naquele lugar, e quem está lá não tem permissão para sair. Desde pequeno, Joshua sabe que, do outro lado daquela muralha, há um território violento e implacável e que O Muro é a única coisa capaz de manter seu povo em segurança. Desde pequeno, ele sempre ouviu que, do outro lado, havia um território proibido, um lugar violento e perigoso, do qual um garoto como ele deveria manter distância. Um dia, a bola de Joshua cai do outro lado do Muro e, ignorando tudo o que sempre ouviu, ele vai atrás dela e acaba descobrindo um túnel que o leva a uma realidade que jamais imaginou encontrar. Lá ele acaba caindo nas mãos de uma gangue sanguinária, mas a bondade de uma menina salva sua vida. Porém isso acaba desencadeando um ato de extrema crueldade e coloca Joshua em dívida com ela... Uma dívida que ele fará de tudo para pagar.

Onde comprar:

Vou fazer de tudo nessa resenha pra não dar nenhum spoiler e revelar o mínimo possível do enredo do livro, porque acredite: você vai querer passar por cada detalhe por si só desse livro maravilhoso!

Quando você começa a ler “O Muro” pode até parecer mais uma distopia YA, com uma parte do mundo isolada e bem sucedida e a outra não, com pessoas estando do lado “certo” ou “errado” do muro. Mas se você for do tipo de leitor um pouco mais atento, ou se simplesmente tem alguma referência dos noticiários internacionais, logo verá que apesar de ser uma obra de ficção, O Muro é o reflexo do que ocorre nos dias atuais na Cisjordânia, e então você se dará conta de que Joshua é israelita, e as pessoas do lado errado do muro são os palestinos.

O Muro

O autor teve uma maestria inegável ao fazer uma representação da cruel e triste realidade deste lugar, para o qual nós estamos acostumados a apenas fechar os olhos e ignorar que é tocante! Sutcliffe coloca uma carga emocional na sua narrativa que é difícil de passar batido, e arrisco-me a dizer quase impossível de não ser afetado por ela.

A construção de cenário, acontecimentos e personagens é rica e verossímil, o que é um grande ponto a mais para o livro. Joshua é um garoto com uma moral forte, uma índole quase impecável! É o tipo de personagem com o qual você se conecta, porque ele busca, mesmo em sua inocência, fazer o certo mesmo que isso lhe custe muito. Quero aqui dar um pequeno destaque para Leia: uma personagem que nem aparece tanto assim, mas toda vez que aparece, vale muito a pena e que faz toda a diferença para a história. Se apaixone por ela!

O Muro

Por fim, não tem como terminar essa resenha sem dizer “leia assim que puder!”, é um livro fora do comum e fora da zona de conforto, mas vale muito a pena!
Top Comentarista de Maio

Laiara Dias
Baiana, criada no Mato Grosso, casada com um mineiro e cai de paraquedas nas terras capixabas. Viciada em Youtube e Netflix, chocólatra assumida, devoradora de chick-lits. Amo um bom romance açucarado e não resisto a um toque de pimenta na literatura, nem a uma colher de farinha no prato. Choro a toa, rio alto, e não consigo decidir entre ser ogra ou princesa! Muito prazer, essa sou eu!
Cortesia do Grupo Editorial Record
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23.5.17

Espero por Você [Jennifer L. Armentrout]

Jennifer L. Armentrout
Ed. Novo Conceito, 2017 - 384 páginas
Algumas coisas valem a pena esperar. Algumas coisas valem a pena experimentar. Algumas coisas não devem ser mantidas em silêncio. E, por algumas coisas, vale a pena lutar. Avery Morgansten precisa fugir. Ir para uma faculdade a centenas de quilômetros de casa foi a única forma que encontrou para esquecer o acontecimento fatídico que, cinco anos antes, mudara a sua vida para sempre. O que não estava em seus planos era atrair a atenção do único rapaz que pode mudar totalmente a rota do futuro que Avery está tentando construir. Cameron Hamilton tem um metro e noventa de altura, impressionantes olhos azuis e uma habilidade notável para fazer com que Avery deseje coisas que ela acreditava terem sido roubadas irrevogavelmente dela. Envolver-se com ele é perigoso. No entanto, ignorar a tensão entre eles — e despertar um lado dela que nunca soube que existia — é impossível. Até onde ela estará disposta a ir e o que fará para esquecer o passado e viver aquela relação intensa e apaixonada, que ameaça ruir todas as suas certezas e fazê-la conhecer um mundo de sensações que julgava estar negadas para sempre?

Onde comprar:

Avery era uma moça de 19 a caminho da faculdade que devido a algo que aconteceu a ela aos 14 anos resolveu se mudar para o mais longe possível da casa dos pais e da adolescência turbulenta. Ela saiu do Texas para o outro lado do país totalmente contra a vontade dos pais, mas diga-se de passagem, foi a melhor coisa que poderia ter acontecido a ela.

Queria ter essa sorte de no primeiro dia de aula da faculdade esbarrar com o cara mais gato e popular da universidade rsrrs, Cameron Hamilton, olhos azuis e um corpo de tirar suspiros de qualquer beata. Porém minha querida e amada Avery saiu correndo no sentido contrário só para não entrar atrasada na sala de aula de astronomia, deixando Cam pra trás sem entender nada. Ao contar o acontecido para Jacob e Britanny seus mais amigos de carteirinha (coisa essa que Avery sentia falta desde o halloween de 5 anos atrás), seus amigos ficam empolgadíssimos com a ideia de Cam ter conversado com ela.

Espero por Você

Avery e Cam são lindos juntos e isso vocês mesmos vão chegar a conclusão no decorrer do livro, mas o lance da autora é questionar até que ponto alguém aceitaria a opinião dos pais sobre algo que pode mudar a sua vida e transformá-la de cabeça para baixo.

Uma menina de 14 anos sofre um abuso por um garoto 3 anos mais velho. Conta para a polícia, presta queixa e o seus pais preocupados com o que a sociedade vai pensar, a convence a ceder, aceitando um acordo solicitado pelo pai do garoto. O que a pobre Avery não podia imaginar era ter que passar o ensino médio inteiro ouvindo as pessoas falando coisas horríveis sobre ela e sair do status "popular" para "puta mentirosa". Como você lidaria com isso? O que você faria?

"Algumas coisas valem a pena esperar.
Algumas coisas valem a pena experimentar.
Algumas coisas não devem ser mantidas em silêncio.
E por algumas coisas, vale a pena lutar."

Avery não tomou as melhores decisões após o acontecido, mais foi muito feliz na escolha de faculdade, e Cam foi insistente o suficiente para mostrar que ela é mais forte do imagina, e que o que aconteceu com ela não a torna um ser desprezível. O que nos leva a pensar: que tipo de mãe prefere ver a filha sofrer todos os dias ao invés de apoia-la?

Convido você a ler e se emocionar com o amor dos dois.

Top Comentarista de Maio

Luana Miranda Rodrigues
Analista de Sistemas, "Meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros. Sem livros, sem leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever - inclusive a sua própria história". Bill Gates tem toda razão.
Cortesia da Editora Novo Conceito
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22.5.17

Resistência [Affinity Konar]

Resistência
Ed. Rocco, 2017 - 320 páginas
      Narra a trajetória de duas irmãs gêmeas lutando pela sobrevivência na Segunda Guerra Mundial. Pearl e Stasha chegam a Auschwitz em 1944 e ainda vivem sob o encantamento da infância – têm uma conexão muito forte, se entendem, se confortam e brincam juntas. Como parte de um experimento chamado Zoológico de Mengele, as irmãs conhecem o horror e têm suas identidades fraturadas pela dor e pelo sofrimento. No inverno, Pearl desaparece; Stasha chora pela irmã, mas mantém a esperança de encontrá-la viva. Ao final do conflito, Stasha se depara com um mundo em ruínas, uma Polônia devastada pela guerra, e tenta reconstruir sua vida a partir dali. Narrado com uma voz poderosa e única, que desafia qualquer expectativa ao atravessar um dos períodos mais devastadores da história contemporânea e mostrar que há beleza e esperança até diante do caos e ganhou elogios da crítica e de autores como Anthony Doerr.

Onde comprar:

Vamos resumir e facilitar as coisas para você que pensa em ler Resistência: se tiver estômago fraco, não leia! Calma, calma, não estou dizendo que o livro é ruim, porque não é, mas é pesado, MUITO pesado, e não de uma forma bem dosada.

Mas vamos a partir do começo: Resistência conta a história de duas irmãs gêmeas idênticas, Pearl e Stasha, que no fim da Segunda Guerra Mundial vão parar em Auschwitz, no “zoológico”, como é conhecida a parte do campo de concentração dedicada aos experimentos do Dr. Menguele.

A história relata então o tempo que essas meninas passam no campo de concentração e parte do período pós-guerra.


Eu sempre fui fascinada por livros, filmes e documentários sobre a segunda guerra mundial, e talvez por isso tenha achado uma ótima ideia a proposta do livro, e sim, eu já tinha conhecimento das obras do famigerado Dr. Menguele, então a questão não é que eu não soubesse dos horrores que aconteciam por trás das portas do laboratório, mas sim como eles foram apresentados.

O estilo de escrita do livro é impecável, é um tipo de narrativa que não é tão comum de se encontrar e que nem todos os autores são capazes de desenvolver. Sabe quando você lê um livro e parece que as frases e parágrafos foram muito bem pensados? Então, Resistência é assim, e não há como negar essa qualidade.

Mas existe um paradoxo narrativo que me incomodou bastante durante toda a leitura: ao passo que a autora tenta nos apresentar a história de uma forma lúdica, pelo fato das meninas serem narradoras, há partes em que há uma verdadeira “pornografia de sofrimento” e uma cena em particular da segunda parte do livro foi tão desnecessária, mas tão desnecessária, que eu tenho que confessar que preferi pular alguns parágrafos.

Resistência

A construção das personagens principais é boa, embora eu ache que a dos coadjuvantes seja melhor, já que as meninas ora são descritas como bastante precoces para a idade ora suas ações e falas denotam uma infantilidade e inocência de uma criança de 6 anos ao invés de 13, que é a idade que têm quando a história começa.

No mais o livro em si é bom, apesar do livro ter me rendido uma bela ressaca, já que a carga das cenas ainda ficaram pairando na minha mente, mas se você se interessa pelo tema e tem estômago forte: vai fundo! Perda de tempo garanto que não vai ser.

Top Comentarista de Maio

Laiara Dias
Baiana, criada no Mato Grosso, casada com um mineiro e cai de paraquedas nas terras capixabas. Viciada em Youtube e Netflix, chocólatra assumida, devoradora de chick-lits. Amo um bom romance açucarado e não resisto a um toque de pimenta na literatura, nem a uma colher de farinha no prato. Choro a toa, rio alto, e não consigo decidir entre ser ogra ou princesa! Muito prazer, essa sou eu!
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18.5.17

Talismãs, Vol. 03 - Série Uma Geração, Todas as Decisões [Eleonor Hertzog]

Talismãs
Ed. Mundo Uno, 2016 - 555 páginas:
      A aventura dos Melbourne continua de forma avassaladora. Os conflitos se entrelaçam e emolduram um quadro muito maior, e muito, muito pior do que acreditávamos ser! Agora, mais do que nunca, um único erro pode levar todas as raças da Terra ao caos total. Nunca o destino exigiu tanto de nossos personagens. Perigos inimagináveis permeiam a escuridão do oceano, nossos mais profundos pensamentos não estão mais seguros. O bravo Cisne talvez não resista até o fim da jornada.  

Onde comprar:

Vocês não sabem o quanto me sinto orgulhoso de chegar aqui e poder dizer que li Talismãs, terceiro livro da série Uma Geração, Todas as Decisões escrita por Eleonor Hertzog. Orgulhoso por que tive em minhas mãos um livro sensacional e fantástico. Orgulhoso por que dá gosto e muito prazer ver uma série que você tanto gosta ficar cada vez melhor sem te decepcionar nenhum pouco. Me sinto também honrado por ter sido convidado a ler antes ter sido lançado, e por isso agradeço imensamente a escritora que se tornou umas das minhas influências e inspiração para continuar com o meu sonho de ser escritor. Então sem mais delongas, vamos conhecer hoje o terceiro ato da família Melbourne.

Em um breve resumo, só para recapitular onde paramos...

O mundo que conhecemos mudou. Estamos no futuro e a Terra finalmente conseguiu a tão sonhada paz. Não há mais guerras, não há mais mortes sem fundamento real, existe apenas a paz. Descobrimos vida além da Terra após encontrarmos Tarilian, localizado atrás do sol e que nunca fora visto do nosso lado do sistema solar por está situado na mesma linha de percurso que a Terra faz em torno do sol. Ou seja, enquanto a Terra girava, Tarilian vinha em sentido oposto. Mas graças aos lendários astronautas e sua tecnologia foi possível localizar o mundo aparentemente igual ao nosso bem “debaixo de nossos narizes”. Tarilian é o único planeta com um convívio diplomático com a Terra e é formado por diversas linhagens importantes para a formação de seu mundo. Existe também raças de vida espalhadas pelo universo, assim como povos atlantes que vivem sem o conhecimento dos superficianos.


Sabemos que existe um elo mental entre Peter, Loon e Peggy, e que Peter e Loon (irmãos gêmeos), acabaram se apaixonando por Peggy. Acontece que Peggy não sabe que Loon é gêmeo de Peter, mesmo já tendo visto ele. Elos mentais sugerem grandes problemas e perigos para a vida de quem os tem, e desde a descoberta deste, o Dr. Henry, a Dra. Doris, Robert e toda Merine se preocupam e querem desfazer o elo existente sem que ele provoque sequelas indesejadas. Até então não se sabia que tipo de elo era esse e qual a proporção que ele poderia tomar. Então tudo era feito baseado em hipóteses e com muita cautela, pois qualquer erro por mais que fosse pequeno, poderia ocasionar efeitos muito graves.

Descobre-se então que o elo é na verdade um elo de compromisso, estabelecido quando Peter e Peggy se encontraram ainda pequenos. Os passos tomados a seguir, são para deixar Loon fora de perigo, o mais afetado da situação. Em Talismãs novas providências são tomadas, assim como tudo é feito e estudado o mais meticulosamente possível. A ideia é tentar separá-los por um tempo enquanto não se acha uma fórmula concreta de resolver o problema. O difícil é segurar Peggy, que fica no Cisne apreensiva e ansiosa por respostas. Enquanto em Merine Peter vai descobrindo mais sobre a história do seu povo e seu mundo. Além de Senhor de Krilin e Herdeiro de Merine, ele vai descobrir pertencer a algo muito maior.


É quando Eleonor nos apresentar os Talismãs, que são como uma força suprema transformada em pontos sólidos. Estes têm o poder de armazenar toda a história de uma linhagem, de uma casa e de seu senhor. Ele assume a função de jamais deixar acontecer que esses tópicos sejam destruídos e esquecidos. E por que eles foram necessários agora? Gostaria muito de continuar a falar, mais certamente seriam spoilers enormes.

"- Você é estranha, menina... Estranha e rara. Existe luz em você, muito mais do que essa que a faz brilhar. Existe vida. E existe... proteção. Para você e para os que a rodeiam." (página 275)

Apesar de a trama centralizar no terrível elo entre os gêmeos e Peggy, o livro ainda trará as histórias que ocorrem simultaneamente e que darão continuidade as que vimos nos livros anteriores. Nos aprofundamos mais ainda em alguns personagens que fazem parte do Toque de Reunir, a exemplo dos Lefreve. O gato Pierre é de fato um animal curioso, e que em minha opinião o leitor deve dar atenção para ele, visto que acredito que a autora fará alguma coisa com ele e com o cachorrão do Anton, o Pipperion. Posso estar errado, mas prevejo coisas.

Em falar em Anton é impossível não lembrar de Cheli. O alienígena que encontrou na terráquea um tubo de ensaio ao qual pode testar suas emoções e se acalmar. O romance entre ambos dão de certa forma equilíbrio entre as cenas tensas e pesadas da série, que é muito gostoso de ler. Pena que neste livro o destaque do casal AntCheli fica apagado e os dois quase não tem participação.


Outro ponto é que finalmente descobrimos quem é a pessoa por detrás do misterioso Dr. Don. Tinha minhas hipóteses sobre ele, mas nem cheguei perto. É também um personagem que merece atenção dobrada por parte do leitor. Formulei outros pensamentos sobre ele e espero que esteja correto, rs! Peter é um personagem que foi cada vez mais crescendo durante toda a série. E o que ele fez nesse livro só fez calar a boca de que o chamava de pirralho. Peter é muito foda.

Os acontecimentos do livro são uma correria atrás da outra e se encaminhando para aquilo que todos querem, que é a chegada a Escola Avançada Champ-Bleux. O livro termina às vésperas de irem para a Escola, o que por ventura nos deixa mais ansiosos para o próximo livro. Eles na escola será o ápice, e mal posso esperar para ler as aventuras que ocorrerão por lá.

Por fim, mas não menos importante, quero falar da autora. A paixão que ela sente por contar sua história é totalmente visível e presente a todo momento. É notável o quão grande é o universo criado por ela, assim como tantas coisas a serem contadas. Eleonor Hertzog entrega aos fãs da série mais um trabalho primoroso e espetacular. Sem decepcioná-los nenhum pouco e na medida certa, Talismãs veio deixar ainda mais angustiado os corações dos leitores. Ótima leitura!

Clique nas capas para ler as resenhas dos livros anteriores:

Cisne
Douglas Brandão
Geminiano, formado em Magistério e futuro professor de História. Mora na Bahia e louco por livros. Um pouco ciumento e orgulho. Fanático por Harry Potter e chegou a receber o apelido de "Vírgula" por sempre dar uma opinião ou comentário, porque sempre usa "Entretanto", "Contudo" e "Todavia" por ser sempre "Do Contra". Sincero ao extremo e venho para compartilhar meu gosto de leitura com vocês.
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17.5.17

Wild Cards #03: Apostas Mortais [editado por George R.R.Martin]

Apostas Mortais
Ed. Leya, 2014 - 400 páginas:
      Vingança é a palavra de ordem. E a vida parece estar por um fio... Depois da invasão alienígena que sacudira o mundo, curingas e ases de Nova York têm muito a comemorar. E o auge dessas comemorações acontece no dia 15 de setembro, data em que outra intervenção alienígena mudou por completo a vida de todos os seres humanos e de alguns alienígenas, como de Jube e do próprio Dr. Tachyon. E também a do Astrônomo, que volta neste volume da série para uma fria e bem-calculada vingança. Neste romance-mosaico reencontramos Ira, Ceifador, Nômada, Jack, Brennan, Kid Dinossauro, Uivo e muitos outros ases e curingas que se reúnem para o Dia do Carta Selvagem. Entre roubos e buscas desesperadas, gritos supersônicos e dinossauros-mirins, o destino desses personagens é posto em xeque a cada hora deste dia, considerado um dos mais festivos para a cidade de Nova York e certamente um dos mais sangrentos desde a queda do meteoro que trouxe o vírus carta selvagem para a Terra. 

Onde comprar:

A megalomania de um vilão quase imortal

É difícil resenhar livros de séries sem soltar algum spoiler. Então, só para relembrar sobre a trama: Após a detonação de uma bomba alienígena contendo um vírus (qualquer semelhança com o “agente laranja” parece não ser mera coincidência), parte considerável da população é dizimada. Uma parcela dos sobreviventes é afetada. Alguns recebem habilidades físicas ou mentais e são chamados de ases, outros sofrem transformações grotescas e tornam-se coringas. Ases e curingas vivem em constante conflito e no meio deste conflito encontram-se os limpos (que não foram afetados pelo vírus) e alguns alienígenas.

O Astrônomo é o grande vilão de Apostas mortais: Wild Cards – Livro 3 (Leya, 400 páginas) e talvez da série toda. Prometeu vingança ao grupo que desmantelou sua gangue de maçons e não descansará enquanto não se der por satisfeito. Comanda sacrifício de jovens mulheres para ganhar maiores níveis de energia e controlar um arsenal de habilidades que o deixam à beira da imortalidade.

“— Sabe que dia é hoje?
— Dia do Carta Selvagem. Todo mundo sabe disso. — Spector pegou as calças de veludo cotelê do chão.
— Sim, mas também é outra coisa. O Dia do Juízo Final. — O Astrônomo entrelaçou os dedos.
— Dia do Juízo Final? — Ele vestiu as calças. — Do que você está falando?
— Daqueles desgraçados que arruinaram meu plano. Intervieram em nosso verdadeiro destino. Impediram que dominássemos o mundo. — Os olhos do Astrônomo reluziam. Havia uma loucura neles que nem mesmo Spector tinha visto antes. — Mas há outros mundos. Este aqui não esquecerá tão cedo do meu tiro de misericórdia nos malditos que ficaram no meu caminho.”

Para alcançar seus objetivos o Astrônomo obrigará alguns asseclas arrependidos a tomarem partido nesta empreitada. Passa a amedrontar Spector (pode matar apenas com o olhar), e a incitar o ódio que Roleta (envenena o parceiro durante o sexo) carrega por Dr.Tachyon, afinal muitos o culpam por serem como são, querem vingança e só vão sossegar com o alienígena morto.

“— Ah, minha preciosa. É assim que você se esconde de sua alma? Minha pequena tola. Você deveria abraçar o ódio, lambê-lo, comê-lo, deleitar-se com ele. Estou lhe oferecendo uma oportunidade única de vingança. Para retribuir a perda com dor...
... E o fluxo de memória voltou. A coisa deformada nojenta que jazia entre suas pernas. O resultado líquido de tantas horas de parto doloroso. Um monstro tão grotesco que até mesmo as enfermeiras odiaram tocá-lo.”

Como podem perceber, “vingança” está no prato do dia. Entre os componentes do grupo que enfrentou o Astrônomo temos Fortunato (amplia seus poderes através do prazer). Provavelmente é o único com poder para equiparar-se com o vilão.

“Fortunato sentiu as pernas saírem do chão e dobrarem-se em posição de lótus. Os dedões tocaram os indicadores e pousaram sobre os joelhos. Ele sentiu como se o orgasmo final... ainda estivesse acontecendo. Quando ela o abraçou e lançou o poder de volta para dentro dele, foi como explodir em átomos e se reunir com o universo inteiro dentro dele. Sentia-se como o centro do sol, com as labaredas de energia saindo dele de forma incontrolável. Sentia como se nunca fosse acabar.”

Nos primeiros dois romances o universo de Wild Cards foi sendo criado, o mosaico ia se expandindo inúmeras vezes, as histórias se tocavam em alguns pontos, mas também se afastavam. Neste já podemos notar a convergência, as inúmeras conexões se confundindo como uma rede neural. Gostei mais, pois agora se tornou uma história única com vários envolvidos. Cada capítulo é uma determinada hora do dia e o desenrolar da trama acontece em 24 horas – mortes, revelações, conflitos, guerra.

Lembrando que a saga se iniciou nos anos 80, é impossível não compará-la às HQs de heróis da Marvel e da DC, que parecem quase pueris comparados a esta. Sou capaz de imaginar o rebuliço causado dentro das redações e departamentos de criação ao notar o sucesso de Wild Cards. Esta mudança de paradigma, alteração para uma temática voltada ao público adulto, redundaria em “Watchmen” do mago Alan Moore. Mas aí já é outra história.

O enredo continua calcado no pensamento que ganhou forma nos anos 80, mas acabou solapado pela nova era Trump, truculenta e egoísta, assim como acabou enterrando nosso expoente maior – o poeta Gentileza. Prova disso é o discurso proferido pelo Dr.Tachyon no “Dia do Carta Selvagem”, observado tanto por ases, quanto por curingas:

“Enfatizo as diversas conquistas desse povo notável, pois existe um novo ânimo neste país que eu acho temeroso. Surge novamente uma tentativa de delinear o que é norte-americano, de desprezar e discriminar aqueles que existem na periferia desta ‘maioria’ de contos de fadas. E é um conto de fadas. Cada pessoa é um indivíduo único no fim das contas. Não existe ‘consenso de opinião’, não há ‘jeito certo’ de fazer as coisas. Há apenas pessoas que, não importa o quanto sejam horríveis e distorcidas do lado de fora, são impulsionadas por dentro pelas mesmas esperanças, sonhos e aspirações que impulsionam a todos nós.”

E, logicamente, a grande epidemia que tomou conta do planeta nos anos 80 não poderia ficar de fora. Ela estava lá para levar aqueles que não o foram pelo vírus Carta Selvagem:

“— É o retrovírus — ele falou. — Ele é assassino. Acabei de vir do meu médico. Infelizmente, o resultado foi positivo. — Ele suspirou. — Bem positivo.
— Retrovírus? — Jack perguntou. — Você quer dizer que o carta selvagem...
— Não — Jean-Jacques o interrompeu. — O verdadeiro assassino. — A palavra parecia grudada na sua garganta. — AIDS.”

Os dois primeiros romances da série têm histórias individuais, como se fossem contos para cada personagem. Há problemas com o ritmo, com a maneira de escrever e a qualidade dos escritores envolvidos. Parecia uma colcha de retalhos bem costurada pelo talentoso George R.R.Martin, mas ainda assim uma colcha de retalhos.

Neste há uma amarração com um posfácio explicando este grande mosaico e afirmo ter valido a pena ter lido cada um deles, principalmente este terceiro. O universo de Wild Cards é apetitoso e pode seguir por caminhos tão incríveis e fantasiosos (são super-seres vivendo entre nós) que já não vejo a hora de me jogar no quarto livro da série. Quero viajar novamente pelos caminhos de Fortunato, Nômada, Kid Dinossauro, o grande Tartaruga, Uivador, Dr.Tachyon e também enfrentar com eles os vilões Astrônomo, Ceifador, Roleta e tantos outros.

A grande sacada e o objetivo maior deste livro parece ser a indicação das mazelas de nosso mundo e a busca de mecanismos para combatê-las, tocar na ferida de forma ficcional com propósito de atingir o real. E não se enganem: este é um livro para adultos. Seu final é digno de um filme – perfeito!

Clique na capa para ler as resenhas dos livros anteriores:

Rodolfo Luiz Euflauzino
Ciumento por natureza, descobri-me por amor aos livros, então os tenho em alta conta. Revelam aquilo que está soterrado em meu subconsciente e por isso o escorpiano em mim vive em constante penitência, sem jamais se dar por vencido. Culpa dos livros!
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