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2.2.15

[Bookserie] Engenharia Reversa: Parte V - Sonhos Artificiais



Engenharia Reversa


Parte V - Sonhos Artificiais

O flymob da equipe de segurança da VNR segue veloz por uma aerovia pouco movimentada na zona sul de Vix, em seu interior, dentro de um compartimento na parte traseira do veículo, Bel Yagami está deitada de barriga para cima e firmemente presa em uma maca; um cabo de fibra-óptica conectado ao seu CND transmite informações para equipamentos fixados na parede de metal escovado. Ao lado da maca, um homem de idade trajando um macacão azul marinho aplica em Bel uma solução intravenosa. Após terminar o procedimento, ele remove com cuidado a agulha e olha meticulosamente para os monitores em sua volta. Segundos depois, as veias e artérias da mulher são invadidas por milhares de máquinas microscópicas, que se agrupam e então navegam pelas correntes sanguíneas, indo em direção a um destino comum: o cérebro.


Em uma outra parte da nave, o grupo tático da Vieira & Nakashima Robotics começa a retirar o equipamento de combate, iniciando pelos capacetes. A tradição mandava que ao final de uma missão, independente do resultado, uma garrafa de uísque deveria ser aberta, era uma forma de aliviar o estresse pós-ação, que demorava para sair da alma. Mas no momento um clima de ansiedade crescente domina o ambiente, e os agentes não chegam nem perto do pequeno frigobar acoplado em uma prateleira. Removem os dorsos de suas armaduras e tiram os coletes de liga sintética, então se encaram, preocupados com o desfecho da missão. Apenas um dos objetivos, a recuperação da executiva, fora concluído. O outro havia falhado: eles deveriam ter capturado o bio-hacker conhecido como Davi. Foi o primeiro fracasso em anos de serviço. “Aquele miserável escapou, mas como?”, era a pergunta que imperava na mente dos quatro homens.


Um pouco distante deles, Amanda Makarim, a chefe de segurança da VNR e líder do grupo, só agora remove seu elmo ao mesmo tempo em que se senta na cadeira de comando. Todos olham para ela, esperando por uma ordem que os envie no encalço do fugitivo, ela percebe a ansiedade dos homens, mas precisa refletir antes de tomar qualquer decisão. Amanda permanece impassível e com as feições sérias, olha fixamente para um monitor de video na parede oposta à sua poltrona, respira fundo e relaxa o corpo, então conecta seu CND ao servidor central da VNR. Instantaneamente, uma enxurrada de dados invade seus bio-processadores.


Apesar de não envolver combate de campo, aquela era a missão mais importante da “Anjo Delta”, como é chamada a equipe de Amanda. Eles precisavam chegar ao alvo no tempo certo, e para tal tudo havia sido minuciosamente planejado: A executiva, Bel Yagami, era a isca e nem imaginava. Ela deveria se envolver com o bio-hacker conhecido como Vampiro, que usa em Vix o nome falso de Davi. Dados secretos da VNR foram propositalmente expostos, revelando que Bel possuía informações corporativas muito valiosas. Mas os dados realmente valiosos estavam na mente de Davi: o programa KDCode. Juntar os dois foi a parte fácil, Amanda havia criado todas as oportunidades e preparado a armadilha com muito cuidado. Um programa especialmente desenvolvido, um vírus bioneural, foi implantado no CND de Bel e assim que detectasse a presença de Davi entraria em ação, copiando o KDCode para a memória da executiva e deixando o bio-hacker inconsciente. Foram três anos de planejamento e agora Amanda estava no meio da parte mais importante do plano: recuperar o KDCode. Além disso, eles deveriam capturar Davi e obter os dados guardados em sua mente, que os levariam até o fornecedor do KDCode, o contratante.


A única falha até o momento era a fuga do bio-hacker. Mas apesar de ter escapado, o CND dele deveria estar imprestável, destruído pelo vírus, e o dano seria tamanho que Davi nunca mais poderia usar outro CND novamente, assim, ele não tinha como apagar as informações cobiçadas de sua própria memória, como faziam os bio-hackers ao terminar um serviço.


“Mas como ele conseguiu fugir?” O cérebro positrônico de Amanda, conectado ao banco de dados central da VNR, processa dezenas de milhões de possibilidades, determinando os possíveis próximos passos do fugitivo, calculando todas as variáveis prováveis naquele cenário complexo. Trabalhar com quantidades descomunais de  informação em tempo real era normal para ela. Desde que metade de seu cérebro fora substituído por uma contraparte digital, sua vida havia adquirido uma rotina fora do comum, que se dividia basicamente em processar informações, planejar e agir, exatamente como uma máquina. De fato, para muitos ela já havia deixado de ser humana, e no fundo, após todos aqueles anos de missões quase suicidas, Amanda aprendeu a gostar do que havia de fato se tornado: uma assassina metódica e sem remorsos, uma profissional em busca da perfeição.


Então um dos agentes se move em sua direção, é o mais novo na equipe e também o mais jovem. Os outros olham para ele, como se dissessem: “O que esse idiota vai fazer?”
O rapaz chega mais perto, visivelmente contido, ele repara nos cabelos vermelhos e lisos dela, normalmente soltos e cortados na altura dos ombros, agora estão presos em um coque. Percebe o perfil da chefe, o nariz longo porém perfeito, a pela alva com algumas pequenas sardas, e as cicatrizes,registros de uma vida repleta de ação, mas quando chega aos olhos, quando olha bem para eles, sente um certo desconforto, o que era normal pois Amanda não possui mais olhos humanos, ela enxerga através de um par de implantes cibernéticos, olhos eletrônicos utilizados apenas por membros das forças especiais; eles são grandes e amendoados, negros como um céu sem estrelas e não refletem nenhuma fonte de luz, “perturbadores”, era o que os outros empregados da VNR falavam a respeito. E além das habilidades usuais, como enxergar através de paredes e detectar armas escondidas, aqueles olhos sintéticos possuem outra característica que Amanda aprecia: eles afastam as pessoas.


Mas o jovem agente está ansioso demais, não se intimidará dessa vez. Ele toma coragem e quebra o silêncio, preenchendo o ar com sua voz um pouco trêmula:


- Chefe… A… Amanda, o que vamos fazer em relação ao bio-hacker?


Os processadores de cristal do cérebro-máquina de Amanda já apontavam a melhor opção. Calmamente, ela olha o jovem, percebendo também que os outros três operativos aguardam pela resposta. Os implantes oculares captam uma diminuta gota de suor descendo pela lateral do rosto do rapaz, denunciando nervosismo. Após alguns segundos ela finalmente responde em seu costumeiro tom baixo e seco:


- O bio-hacker não estava sozinho. De certo existem outros jogadores em campo, outros que estão ajudando-o. Dessa forma, por hora, devemos nos preparar. - ela se levanta e olha para o grupo. -  Coloquem novamente suas armaduras.


Os agentes se entreolham, não era o que esperavam ouvir, mas logo obedecem a ordem.  Amanda encara o jovem agente, que se esforça para manter a postura militar. Ela então olha para os outros e continua:


- Não precisamos ir atrás do Vampiro, ele virá até nós. E não virá sozinho.


Máquina assassina insensível? Sim, de fato, mas uma parte de Amanda ainda é humana, e as únicas pessoas com quem ela se preocupa são seus comandados. Para aquele tipo de trabalho ela precisa confiar em sua equipe da mesma maneira que eles confiam nela: cegamente, e a moral estava abalada, o que não era bom para o trabalho. Ela precisa reduzir a ansiedade da tropa. Se levanta, fazendo com que os agentes fiquem alertas, então fala tentando emular um tom reconfortante:


- Homens, fiquem tranquilos, estamos mais do que preparados. Vou verificar o progresso dos trabalhos com a executiva, enquanto isso vocês devem se preparar para a ação eminente; não chegamos até aqui para falhar.


- Sim, senhora! - respondem os agentes, quase em uníssono.


***


Subtamente, Bel se vê dentro de um estranho prédio, em um longo corredor repleto de portas de ambos os lados. Ela olha ao redor e percebe que a construção é bastante antiga, inteiramente feita em madeira, e agora parece estar prestes a desmoronar. As paredes, o chão, o teto, tudo apresenta um odor forte de mofo e uma superfície suja, carcomida, enegrecida. Algumas lâmpadas rudimentares, com luzes amarelas, piscam oscilando em uma espécie de balé assíncrono, alternando escuridão e luz em curtos intervalos. “Meu Deus, que lugar é esse? Como vim parar aqui?”


Então, com um choque, a mente dela é inundada por uma enxurrada involuntária de imagens desconexas, que a fazem entrar em pânico. Em questão de segundos uma dor latejante se apossa de sua cabeça, e as imagens começam a ser exibidas cada vez mais rápidas, logo se transformando em borrões. É como se alguém tivesse assumido o controle de sua mente, e então forçado a projeção de um filme em uma velocidade absurda.


Ela se ajoelha. A sensação é horrível, tenta lutar mas seu corpo não responde. Tem alguma coisa muita errada, pressente. Desaba sobre o piso enegrecido, assumindo uma posição fetal e se contorcendo em agonia. Não existe fuga, não adianta fechar os olhos, é como ter um pesadelo enquanto se está acordado.


A tortura se prolonga por dezenas de minutos, que parecem ser séculos. Mas então, como num passe de  mágica, as imagens começam a desacelerar e a dor se atenua, ficando cada vez mais fraca. Finalmente, Bel consegue ver o que é exibido: são cenas de sua vida!


A infância nos jardins suspensos da imensa torre residencial em que seus pais moravam, a adolescência de poucos amigos, passada em sua maioria em escolas de tempo integral, os momentos de rebeldia, onde efetivamente conheceu melhor o mundo, e sua recente vida profissional, quando conseguiu independência e desfrutou de algumas aventuras. As imagens quase param, até que, finalmente, as cenas mostram sua relação atual com Davi, desde o dia em que se conheceram até o último momento em que estiveram juntos, no apartamento dela, deitados na confortável cama. A dor se foi.


Afinal, onde ele estaria? O que aconteceu com Davi? O que aconteceu naquela manhã tão normal? Ela se lembra da conversa que tiveram, do sexo, mas não consegue visualizar nada que aconteceu depois. Recuperada da estranha e dolorosa experiência, Bel se coloca de pé. Começa a andar lentamente pelo estranho corredor.


Passa as mãos nos cabelos, por um breve momento aprecia a sensação de bem-estar depois de toda aquela agonia, toma fôlego, então repara em suas roupas. “Roupas?” Percebe que está vestida apenas com uma camisola rudimentar as roupas de baixo. “Uma camisola hospitalar! Mas como?”


“O que é isso?” Ela vê uma espécie de fio, que reconhece como sendo um cabo de fibra óptica, que em uma extremidade está conectado na porta de dados de seu CND, atrás da orelha direita, e pende ao longo de seu corpo, terminando na altura dos joelhos. O balançar do fio chama sua atenção. Bel pega o cabo e examina a extremidade livre, ele foi claramente cortado, mas a marca do corte é tão precisa que ela deduz ter sido feita por um laser. Tenta então desconectá-lo, puxando-o com força; ”Ai!”, sofre um novo choque, o que a faz perder os sentidos por um milésimo de segundo. Tenta de novo, a mesma coisa acontece, porém dessa vez o choque é mais forte. Não dá para desconectar aquilo, “pelo menos não por enquanto”, ela pensa.


“Agora eu preciso sair daqui”. Começa então a andar mais rápido, tenta entrar em alguns quartos, mas logo percebe que todos estão trancados pelo lado de dentro. Farpas no piso de madeira machucam seus pés, mas ela não pode parar. Começa a correr. “Tem que existir uma saída!”


Bel corre por mais de vinte metros e o cenário não muda. As mesmas portas trancadas, as mesmas luzes bruxuleantes. É tudo uma grande reta, percebe. Começa a reparar que existem quadros nas paredes, são pinturas de pessoas, famílias, “não, espera!”, em todos os quadros é a mesma família! O pai, a mãe e um casal de filhos. Mas estão velhas, desbotadas, de forma que é impossível ver com detalhes as faces das pessoas, são praticamente fantasmas.


Repentinamente, estranhos sons, batidas na madeira, chamam a atenção de Bel.  “Que barulho é esse?” Ela começa a perceber passos, o chão de madeira vibra, parece que estão marchando em velocidade acelerada. “São botas! Talvez soldados?” Estão vindo de onde ela estava, estão correndo em sua direção. Por um momento ela se alegra, não estava sozinha afinal, poderia obter respostas com essas pessoas, talvez a tirassem dali, mas e se não fossem amigos? Então ouve vozes e suas piores suspeitas se confirmam:


- Ali na frente, senhor, ela está ali! Vamos pegá-la!


É uma voz masculina, pronunciada através de alto-falantes. A polícia? Militares? Seja lá quem fossem não eram amigos.


Então vários feixes de luz, brilhantes e azuis, são projetados contra o corpo de Bel. “Miras laser!” Ela se vira rapidamente e começa a correr, precisa escapar dos inimigos desconhecidos.


- Atirem, matem aquela mulher!


Bel sente o coração quase saindo pela boca, desesperada, tenta se curvar enquanto acelera o máximo que consegue.


“O que é aquilo?” Ela então vê um vulto alguns metros à frente. A medida que se aproxima percebe que é outra pessoa, um homem! Ele está parado, tem algo de familiar naquela figura.


O primeiro tiro passa raspando bem perto de sua cabeça, ela sente um calafrio, continua correndo. O estranho vulto logo à frente continua imóvel. Então ela consegue ver claramente quem é o vulto.


- Davi! Meu Deus, como você veio para aqui? - ela olha para trás, mais alguns tiros, projeteis cortam o ar.


Ela termina a corrida ficando bem na frente do namorado, sem fôlego, o abraça.


- Eles vão nos matar, temos que sair daqui!
Impassível, e estranhamento sério, Davi finalmente responde ao pânico da namorada:


- Calma, Bel, tudo vai dar certo. Estou aqui para protegê-la.


Ele está estranhamente sereno, sua voz não transmite emoção alguma;  continua em pé e parado, alheio a tudo que está acontecendo.


-Davi! - Bel grita, desesperada, percebe que tem algo errado.


Então ele a abraça, segurando os braços da jovem executiva com força, impedindo que ela se solte.


- Eu já disse, tenha calma, tudo vai dar certo.


Aquele homem não era o Davi que ela conhecia. Não era. O desespero se apodera de Bel. Os homens armados estão muito próximos. Ela tenta se soltar, tentar lutar, mas sente as forças deixando seu corpo. Lágrimas começam a escorrer de seus olhos. Os inimigos finalmente alcançam o casal.


- Ela está aqui, senhor! Podemos matá-la facilmente agora!


Os homens formam um círculo ao redor dos dois. Apontam as armas para ela. Todos usam roupas negras e capacetes que escondem seus rostos. De alguma forma, Bel sente uma hostilidade muito forte, que parece emanar do grupo de homens armados e hostis, mas por que?


Um deles se aproxima, colocando o cano do fuzil contra a cabeça da jovem executiva, Davi nada faz, permanecendo inerte, segurando a namorada com força, apenas olhando fixamente para os olhos dela. Tristeza. Raiva. “O que fizeram com você, meu amor…”


- Sua aberração! Chegou a hora de fazer do mundo um lugar melhor! - Diz tomado pelo ódio o homem que aponta o fuzil.


- Davi...Davi...por favor…me ajude!


O estrondo do tiro é seguido por uma total escuridão. Bel sente seu corpo flutuar.


***


- Ah! Olá, senhorita Amanda! Entre. Venha ver o progresso do meu trabalho!


Com um sorriso amarelo nos dentes, o velho médico da corporação, Felipe Pavlos, recebe Amanda dentro da pequena enfermaria do flymob. Ele está segurando uma injeção, preparando-se para aplicá-la em Bel, que permanece deitada na maca, profundamente dopada e suando bastante.


- Já conseguiu extrair os dados, doutor Felipe?


- Ainda não. Os nanodrones estão trabalhando a todo vapor, mas ela está resistindo. Vou iniciar a segunda aplicação. Acredito que será suficiente.


- Segunda aplicação? - Indaga Amanda, perplexa. Ela se aproxima de um dos monitores e confere a quantidade de nanorobôs presentes no corpo de Bel, é um número totalmente fora dos padrões de segurança, algo impossível. Irritada, pega firmemente no ombro de Felipe, forçando o homem a ficar de frente para ela:


- Você pretende arruinar a missão, doutor Felipe? O senhor tem idéia do que está fazendo? O limite máximo de nanodrones a que um ser humano pode ser exposto é de cem mil unidades, mas o senhor aplicou mais de um milhão no corpo dessa mulher! Você quer matá-la? Seu miserável! - Amanda vira o corpo do homem e com um gesto muito rápido agarra o pescoço dele. A injeção cai provocando um som agudo.


- Solte-me! - ordenou o médico, profundamente irritado com a atitude de Amanda. Ela não obedece, e aplicando mais força, ergue o corpo dele alguns centímetros do chão.  


- Seu traidor de merda! - Ela o empurra forte contra a parede oposta. Felipe atinge um equipamento médico, quebrando o aparelho e caindo no chão. A raiva ascende em Amanda. Ela se aproxima de Felipe e o ergue do chão, voltando a apertar o pescoço do médico, agora com as duas mãos. Um infiltrado entre eles, inimaginável!


O médico agarra os braços de Amanda, tentando removê-los, mas a mulher-máquina é forte demais, e o velho começa a perder a visão, os sentidos começam a fraquejar.


- E...e… e… eu… posso… posso salvá-la!


Amanda entende as palavras do velho, por um momento ela havia perdido o controle e isso não podia acontecer. Se ele tentou matar Bel, certamente é um agente do inimigo infiltrado na VNR, e por todos esses anos! Felipe pode ter informações preciosas. Ela se acalma.


Precisa descobrir para quem ele trabalha. Solta o médico. Ele cai de joelhos e começa a arfar, apoiando-se nos cotovelos. Pouco a pouco recupera o fôlego.


- Comece a falar, seu bosta. Para quem você trabalha?


O médico se levanta. Olha para Amanda com uma expressão irritada, segura o pescoço com uma das mãos, massageando-o. Com raiva, finalmente fala:


- Você não sabe de nada! Eu não sou um traídor! Essa mulher aí não é qualquer uma, ela pode aguentar uma dose extrema de nanorôbos em seu sangue!


O cérebro positrônico de Amada examina cada sinal, cada gesto de Felipe, seus sensores medem a pulsação do homem, procurando pelo menor indicador de que ele está mentindo. Nada. Noventa e cinco porcento de chance de que ele não está mentindo.


- Do que você está falando, Felipe? Explique-se!


- Por que você acha que ela foi a escolhida para essa missão?


Ele se abaixa e pega a injeção, para em seguida aplicá-la rapidamente em Bel. Um novo exército de micro máquinas invade as correntes sanguinas da jovem. Ela treme, contorcendo-se na maca.


***


“O tiro”. Bel recupera os sentidos. Parece que ela estava dormindo durante dias, então se lembra do grande corredor sombrio, dos homens em seu encalço, e de Davi, Davi? O filho da puta que a deixou levar um tiro, que permitiu que eles a matassem? Não, aquele não poderia ser o homem que ela amava. Cedo ou tarde ela iria investigar aquilo, iria obter as resposta. Um sonho! Só poderia ser. Mas afinal o que estava acontecendo? Ela nunca havia tido um sonho - ou um pesadelo - tão real, tão detalhado. “Será que estou morta?” Por um momento ela pensou que sim.


Então percebe a grama, está deitada sobre a grama. Sente algo queimando seu corpo levemente, o sol! Uma brisa atinge seu rosto, o cheiro da maresia se faz notar. Ela abre os olhos. Um céu azul descomunal. Se levanta rapidamente, ainda está vestida com a roupa de hospital, o cabo de fibra óptica ainda está lá, conectado ao seu CND.


Ela reconhece o lugar: está na cobertura da torre residencial em que seus pais moravam quando era criança. Uma torre gigantesca, localizada em uma ilha artificial da VNR no Oceano Atlântico, a quilômetros de distância do litoral de Vix.


Toda a área da cobertura é um imenso parque arborizado, em forma de hexágono, com pequenas árvores frutíferas, muitos canteiros de flores e arbustos esculpidos com desenhos diversos, ao estilo dos antigos jardins parisienses. É incrível, ela sente que está mesmo lá. Olha em volta, vê a única construção, localizada no centro do hexágono, é o acesso ao elevador.


Bel corre até o pequeno prédio. Vê o painel de controle, ele está exatamente como ela se lembra. Aperta o botão que chama o elevador mas nada acontece, o led indicativo não acende. Tenta de novo, novamente nada, nenhuma engrenagem se ativa, nenhum ruído se faz ouvir, apenas o barulho do mar, ao longe. “Droga!”.


Sim, era muito melhor estar ali do que naquele corredor maldito. Mas como iria sair? Se aquilo tudo era um sonho, a única saída era acordar, talvez se arrancasse de uma vez por todas o cabo óptico?


Ela se senta apoiando as costas na parede do pequeno prédio. Mais uma vez segura forte na extremidade do fio, respira fundo e então o puxa com toda sua força. Um estalo, um choque, a visão rapidamente some e uma dor terrível atinge todo o seu corpo, como se ela tivesse sido surrada por uma multidão; perde a consciência.


Minutos depois Bel acorda. Está deitada na pequena faixa de concreto que rodeia o edifício do elevador, ao lado da parede. A idéia não deu certo, era mesmo impossível remover aquele cabo esquisito. Sente o sol mais forte; olha para o céu e descobre que é meio-dia. A cabeça dói, mas sua mente está inquieta, indiferente a dor, tentando encontrar uma explicação para aquilo tudo.


- Devo estar drogada, só posso estar! Ou então é alguma experiência macabra que estão fazendo. Mas por que comigo? O que eu fiz para merecer isso?


O cérebro de Bel tenta encontrar respostas, porém só encontra mais perguntas. Ela se levanta e começa a andar em volta do pequeno prédio, procurando por qualquer coisa que não se encaixe naquele cenário, tem que ter alguma coisa. Então começa a ouvir vozes, ouve passos na grama, muitos deles. Volta rapidamente para o lugar em que estava e não acredita no que vê: crianças, dezenas delas, correndo e brincando umas com as outras, perseguindo pequenos animais que se escondem nas moitas.


- Não pode ser! - ela arregala os olhos.


Após olhar para a cena por um bom tempo, repara em um grupo de meninas que brincam sentadas na grama, bem perto . Resolve se aproximar, tentar falar com elas.


As garotinhas estão entretidas e parecem não notar a presença de Bel. Ela observa cada uma delas, procurando por detalhes, reparando em seus gestos, em suas roupas, então, subitamente, reconhece uma das meninas. “Aquela ali é a Cármen!” Filha de uma vizinha do andar em que seus pais moravam, Cármen ficou amiga Bel anos mais tarde, quando as duas foram para o segundo nível educacional. “Deuses, é a Cármen com 11 anos de idade!”


Bel se aproxima da antiga amiga, abaixa-se perto dela. A garota permanece entretida, brincando com uma boneca.  


- Oi?  - pergunta, olhando atentamente para a menininha de cabelos loiros cacheados e com  grandes olhos azuis.


Mas ela não responde, na verdade, nenhuma delas responde. As meninas continuam brincando como se Bel não estivesse ali. Resolve tentar de novo, mas dessa vez de forma mais inquisitiva:


- Cármen!? - Bel grita, mas novamente nada acontece.


É impossível aquelas crianças não perceberem sua presença. Ela resolve tocar em Cármen, porém, assim que estende a mão para pegar no ombro da amiga, algo muito estranho acontece: sua mão atravessa por completo o corpo da menina!


Ela remove o braço rapidamente e se afasta do grupo, incrédula, começa a pensar em todas as opções. “Isso só pode ser uma projeção ciberneural, um experimento! Estão hackeando meu CND!”


Olha em volta, e como um flash ela começa a se lembrar daquele momento. Não era uma projeção gerada pelo tal experimento, aquilo era uma memória de sua infância! Os detalhes começam a aparecer em sua mente: era um sábado, os pais participavam de algum evento e as crianças foram autorizadas a brincar na cobertura. Ela também deveria estar ali, se lembra que naquela manhã queria apenas ficar em casa, mas foi forçada a se juntar as outras crianças.


Começa a procurar por si mesma, sua versão criança, olhando em volta para cada lado do hexágono. Então finalmente vê: a alguns metros de distância uma garotinha brinca sozinha  sentada na grama. Cabelos castanhos ondulados, pele morena e traços orientais, uma expressão emburrada no rosto, não queria mesmo estar ali. “Aquela lá é Bel Yagami com 10 anos de idade! Aquela lá sou eu!”,  surpreendida, Bel ri, maravilhada.


Ela sabia que haviam pesquisas em andamento que visavam exatamente aquilo: a exploração do passado de uma pessoa através de suas próprias memórias, mas não existia nada tão avançado, não havia nenhum programa bioneural capaz de gerar tal experiência. Ela resolve ir até a garotinha, ir até...ela mesma! “Isso é incrível, eu tenho que admitir”.


Dois meninos passam correndo pelo corpo de Bel, eles estão brincando de polícia e ladrão, ela se lembra, reconhece ambos, eram dois chatos que nunca a deixavam brincar também. Por um breve momento acha graça daquilo tudo. Cedo ou tarde uma explicação viria. Então sente um calafrio, uma possibilidade vem a tona em sua mente: um “overdrive”. Seu CND poderia ter sido corrompido por alguma coisa e agora ela estava presa em suas próprias memórias, sim! Já havia lido sobre isso, defeitos em programas ou descargas eletromagnéticas podem provocar falhas sérias no sistema operativo do CND. Naquele exato momento ela poderia estar em um hospital, Davi estaria ao seu lado, segurando sua mão enquanto os médicos trabalhavam arduamente para salva-lá. De alguma forma esse pensamento a fez ficar mais aliviada.


Ela se aproxima da pequena, “da belzinha”, então uma coisa esquisita acontece, a menina parece olhar para ela, parece perceber que sua versão adulta está ali! Um sorriso se forma no rosto da pequenina.


Então um forte estrondo se faz ouvir, uma explosão. Em seguida o chão treme. As crianças, assustadas, param suas brincadeiras e começam a chorar. Bel vira o rosto e vê o pequeno prédio do elevador desmoronando, uma nuvem de poeira sobe ao céus bem em cima de onde a estrutura ficava. Instintivamente, ela corre para sua versão criança, tentando proteger a menininha que está paralisada de medo.


Dos escombros da estrutura recém destruída surgem estanhas criaturas: aranhas de metal, robóticas, prateadas, cheias de olhos eletrônicos e do tamanho de pequenos carros de passeio. As criaturas avançam velozes na direção das crianças. Ao mesmo tempo, nuvens negras, sobrenaturai, aparecem no céu escondendo o sol. Bel experimenta um misto de raiva e medo, ela está impotente, só pode ver o desespero dos pequenos.


O caos toma conta da cobertura. As crianças correm em pânico para todos os lados, e quando uma aranha toca em uma delas, uma luz amarela aparece como um clarão e em seguida a criança desaparece.


Uma uma aranha se aproxima, as pernas robóticas movem-se rapidamente, os olhos eletrônicos parecem focar na garotinha.


A executiva consegue sentir o pânico, o medo dominando cada centímetro do seu corpo, inexplicávelmente, ela não consegue mais se mover. Então percebe que algo incrível aconteceu: a Bel adulta não estava mais ali!  Agora só havia uma única Bel naquele lugar, uma com dez anos de idade.


A aranha robótica fica ainda mais assustadora a medida que fica mais perto. Na perspectiva de uma criança, aquilo é um verdadeiro demônio. O monstro ataca. Bel, em sua forma de criança, grita. Dor, náuseas, pânico. Tudo desmorona. A escuridão assume o controle.  


***


Na pequena enfermaria da nave da VNR, o doutor Felipe Pavlos explode em alegria.


- Conseguimos! Dentro de instantes você terá o seu precioso KDCode, senhorita Amanda!


Amanda ainda está desconfiada da lealdade do homem, então checa um dos monitores, conferindo as informações atualizadas na tela. O velho estava certo, o bioprograma fora extraído com sucesso, aquele objetivo estava concluído. Excelente.


Ao sair da sala, ela olha de relance para Bel, que ainda está profundamente dopada e encharcada em suor. Reparando com atenção, Amanda vê lágrimas descendo pelo rosto da jovem mulher.

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Aspirante a escritor, inquieto por natureza, ainda tenho vontade de mudar o mundo ou pelo menos colocar um monte de gente para pensar. Viciado em livros, games, idéias loucas e sempre procurando coisas que desafiem minha imaginação.

comentários pelo facebook:

32 comentários em "[Bookserie] Engenharia Reversa: Parte V - Sonhos Artificiais"

  1. André!
    Ficção de verdade, ôba!
    Diálogos coerentes e enredo bem criativo, gostei!
    Parabéns!
    Vou ler os capítulos anteriores e aguardar o próximo.
    Uma semana tranquila, carregada de luz e paz!
    Cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/

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  2. @RUDYNALVA
    Olá, Rudynalva. Muita luz e paz para você também! Obrigado pelo comentário e fique à vontade para dizer tudo que achou do texto! Abraços!

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  3. Como sou nova no blog, ainda não conhecia essa bookserie. Adoro ficção, então é claro que vou ler os capítulos anteriores. Não quero começar logo nesse para ir na ordem e evitar uma surpresa na hora errada. Logo mais comentarei o que achei.

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  4. @Cecília Vieira
    Bem vinda, Cecília!Fico no aguardo dos seus comentários, boa leitura!

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  5. Olá, sou nova tbm no Blog e não conhecia esta série. Amei gostei de verdade. Amo ficção e leitura tbm, logo, posso dizer que estou apaixonada por esta série, já até dei uma olhadinha nas edições anteriores e estou apaixonada, hehe.
    Ansiosa pelo próximo.

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  6. @Denise Gouveia
    Seja bem vinda você também, Denise! Apaixonada?! Sensacional saber disso! Fico verdadeiramente feliz por você estar gostando! Abraços!

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  7. Não conhecia esta série, mas toda série brasileira de livros é bem-vinda
    Diálogos bem escritos e capa perfeita *-----------------*
    Muito sucesso para o autor

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  8. @Lissandro Lima
    Obrigado, Lissandro. É ainda um trabalho em andamento, por isso a opinião de vocês é dá maior importância. Valeu pelos votos de sucesso!

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  9. Que evolução! Os textos estão a cada dia melhores. A linguagem melhorou absurdamente e estou gostando demais desse clima constante de tensão e mistério. Parabéns!
    Deixo minha observação da vez (rs). Encontrei alguns errinhos gramaticais, mas creio que são de digitação mesmo. Ex: "passa de mágica", "Solte me" e mais alguns que não consigo achar agora (rs).
    bjs

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  10. @Ana Paula Barreto
    Perfeito, Ana Paula! Obrigado por apontar esses erros, vamos corrigi-los o mais rápido possível. E que bom que está gostando!
    Abraços!

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  11. A cada parte que leio gosto mais de Engenharia Reversa, mal posso esperar pela continuação, estou super ansiosa.

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  12. Oi André. Vou precisar ler o começo pra entender, é claro. Mas achei super legal a ideia de publicar os capítulos aqui.
    Abraços

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  13. @Wanessa Ramos
    Ei, Wanessa! Está sendo um prazer escrever também! E como sempre digo, fique sempre livre para criticar ou sugeri idéias! Abraços!

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  14. @Cristiane Oliveira
    Seja bem vinda à BookSerie, Cristiane. Depois de ler, se quiser deixe um comentário dizendo o que achou! Para a gente é muito importante! Abraços.

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  15. Oi!
    Só nova aqui então não conhecia essa bookserie comecei ler os primeiro capítulos e gostei muito, adoro uma boa ficção e achei o enrendo bem legal e criativo espero pelos novos capítulos !!!

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  16. @suzana cariri
    Oi Suzana, que bom que gostou! :) E seja bem-vinda!

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  17. Estou adorando acompanhar a bookserie e ver como sua escrita tem evoluído. Desejo muita sorte e inspiração e espero ter oportunidade de acompanhar as outras partes.

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  18. @Gislaine SilvaMuito grato, Gislaine. É um processo complicado escrever, pois depende de muitas coisas que precisam ser equilibradas, mas eu vou tentando porque no fundo quero isso mesmo. Mais uma vez obrigado e abraços!

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  19. Realmente, Gislaine Silva, é muito boa esta serie né, amo ela tbm

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  20. André, é um processo complicado eu ei, mas continue porque estamos amando, está valendo muito a pena.
    Parabéns!

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  21. @Denise Gouveia
    Valeu, Denise! Vou aproveitar o próximo feriado para avançar no capítulo 6, quero publicá-lo o mais rápido possível!
    Abraços!

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  22. Eita que a coisa está melhorando a cada parte lançada, hein, André! Acho que meus elogios estão ficando repetitivos demais. Então, a única coisa que posso dizer dessa vez é que adoraria ver essa trama sendo lançada em um livro físico.

    @_Dom_Dom

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  23. @NardonioIsso seria sensacional, Nardonio! Tentativas não vão faltar! Abraços!

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  24. Olá! Não conhecia essa bookserie, mas achei bem interessante. Bem legal a proposta de ficar postando as partes assim no blog. Preciso ler as outras para entender a história, mas já gostei.

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  25. @Priscila Soares Seja muito bem vinda, Priscila! Leia sim e depois diga o que você achou!Como eu sempre falo, a opinião dos leitores é fundamental!

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  26. Que ficção maravilhosa! Gostei muito da história, André.
    Adorei esse espaço que foi dado no blog para divulgação dos capítulos.

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  27. @Andreza Galvão
    Andreza, fico feliz em saber que gostou! Abraços!

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  28. @Andreza Galvão
    Andreza, fico feliz em saber que gostou! Abraços!

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  29. Estou chegando ao blog agora, tenho que acompanhar os anteriores.
    Gostei do texto, fiquei curiosa pra ver os outros capitulos.

    Ótima historia.
    Parabéns

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  30. @Thamires Menezes
    Ficamos muito felizes que você tenha gostado da história, Thamires! E seja bem vinda ao blog!

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  31. Acho que nunca li um booksérie. Achei interessante a temática. Por enquanto prefiro esperar até ter completado tudo pra ler tudo de uma vez.

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  32. @Erica Martins
    Tranquilo, Erica. Só pedimos que, ao terminar a leitura, comente dizendo o que achou da obra.
    Abraços!

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