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17.4.15

Nosferatu [Joe Hill]

Joe Hill
Ed. Arqueiro, 2014 - 624 páginas:
      Victoria McQueen tem um misterioso dom: por meio de uma ponte no bosque perto de sua casa, ela consegue chegar de bicicleta a qualquer lugar no mundo e encontrar coisas perdidas. Vic mantém segredo sobre essa sua estranha capacidade, pois sabe que ninguém acreditaria. Charles Talent Manx também tem um dom especial. Seu Rolls-Royce lhe permite levar crianças para passear por vias ocultas que conduzem a um tenebroso parque de diversões: a Terra do Natal. E chega então, o dia em que Vic sai atrás de encrenca... e acaba encontrando Charlie. Mas isso faz muito tempo e Vic, a única criança que já conseguiu escapar, agora é uma adulta que tenta desesperadamente esquecer o que passou. Porém, Charlie Manx só vai descansar quando tiver conseguido se vingar.

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Uma má experiência natalina 

Olhei a capa do livro e ela implorava para que o lesse. E como fugir de um pedido assim? Um presente desse calibre é uma tentação, não há nada que pague. Nosferatu (Arqueiro, 624 páginas) é um livro emblemático, fruto do desenvolvimento do talento nato de Joe Hill, filho de nada mais nada menos que Stephen King.

O título tem menos de vampiresco e mais de uma brincadeira com o título real que é a placa de um automóvel - “NOS4A2”, que em inglês se aproxima bem da pronúncia de Nosferatu. O livro é sobre carros e motos e, sobretudo, sobre “perdas”. Perda da inocência, perda do abrigo, perda da proteção, perda de um ente querido, perda da sanidade.

Primeiro Hill define e caracteriza as personagens, depois diz de que lado estarão, se serão bandidos ou mocinhos. Isso é bem típico do pai maniqueísta. Mas ele vai além, as personagens não são tão lineares, são dúbias e isso me atrai na escrita deste autor.

Victoria McQueen (Vic) vive num lar que está se arruinando, com pais amorosos e severos que não se entendem. Não há como esconder os fatos de uma criança e observem o tratamento entre eles:
    “— Meu Deus. Porra, como você é monstruosa. E eu tive uma filha com você.” 
Dá pra perceber que isso na cabeça de uma criança é uma bomba-relógio, um dia isso vai explodir. Ela precisa de uma válvula de escape. E a tal válvula aparece em forma de uma bicicleta Raleigh que a faz viajar a lugares inimagináveis. Estaria ela enlouquecendo?
    “... gostaria que houvesse alguém com quem pudesse conversar para lhe dizer que ela estava bem, que não era louca. Queria encontrar alguém capaz de explicar, de dar sentido a uma ponte que só existia quando era necessária e que sempre a levava para onde ela precisava ir.” 
É isso aí. A tal “ponte” a levava onde “precisava” ir e não onde ela “queria” ir. A diferença é grande, consegui até ouvir a célebre frase dita por Mick Jagger, líder dos Stones: “Nem sempre você pode ter o que quer. Mas, se você tentar, pode conseguir o que precisa”. Genial.

E é em uma de suas andanças em busca de encrenca que ela se depara com Charlie Talent Manx, alguém que deveria ser evitado, um monstro que também possui um talento especial – ele leva crianças para passear por vias sombrias de sua mente doentia a um lugar chamado Terra do Natal, um lugar do qual ninguém volta. Ele o faz com seu carro Spectro.


O desespero toma conta daqueles que passam pelo caminho de Manx:
    “... tinha filhas e netas e ficava doente só de pensar que Marta e a mãe pudessem ter caído nas garras de algum filho da puta tipo Ted Bundy ou Charles Manson, que iria abusar delas até matar as duas. Não conseguia dormir e tinha pesadelos nos quais a menina jogava xadrez com os dedos decepados da mãe...” 
Vic consegue escapar do monstro, a única a conseguir tal feito. Não posso dizer mais nada, além de que isso terá graves consequências em sua idade adulta. Ela segue negando a existência de tudo, como um bloqueio, mas em determinada altura da vida, já com um filho, a realidade começa a se esgarçar novamente:
    “Vic fez que não com a cabeça, temporariamente incapaz de emitir qualquer som. Havia passado a maior parte dos últimos seis meses tentando se aferrar tanto à própria razão quanto à sobriedade, como uma velha que se agarra a uma sacola de compras. Ao olhar para o quintal de casa, sentiu os fundos da sacola começarem a rasgar e ceder.” 
Essa ironia em forma de eufemismos e comparações faz toda a diferença na escrita de Hill. E também seu olhar arguto sobre o que uma mãe é capaz de fazer por seu filho – sim, é mais do que pode fazer a si mesma. Vic terá de lidar com Manx, mais cedo ou mais tarde, e ele está a fim de uma revanche, quer vingança e não está sozinho.

É notório que o filho aprendeu bem o ofício com o pai. Há um dedo de King aqui, outro acolá, mas jamais uma cópia, é mais um aprendizado pela observação, pela convivência. O que importa é que há em Hill algo de valor inestimável, digno que citação – seu final não possui a qualidade intrínseca dos primeiros trabalhos de King, aqueles em que depois de percorrer 800 ou 1000 páginas de pura adrenalina nos fazia torcer o nariz e dizer: “mas é isso o final?”. O mestre amadureceu, seus finais hoje são justos, corretos. Por um bom tempo eu achava que ele não sabia como terminar um livro ou propositalmente esculhambava tudo no final. Hill não sofre desse mal e seu final é apoteótico, um sol de inverno. O filho já é fruto maduro.

Livro pra lá de recomendado, já fico até imaginando um filme aterrorizante dirigido por Shyamalan, cheio de sombras e sustos, com Charlize Theron como protagonista. Não gosto nem de pensar, mas penso, iria comprar os ingressos antes do lançamento, simplesmente sensacional!


Ahhh, não coloquei esta imagem à toa. Ela faz parte das ilustrações do livro que estão em preto e branco na edição nacional. Reparem só no Manx com gorrinho de Noel e tudo, junto a suas duas filhas. Dentes de meter medo em tubarão!


Ciumento por natureza, descobri-me por amor aos livros, então os tenho em alta conta. Revelam aquilo que está soterrado em meu subconsciente e por isso o escorpiano em mim vive em constante penitência, sem jamais se dar por vencido. Culpa dos livros!

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comentários pelo facebook:

17 comentários em "Nosferatu [Joe Hill]"

  1. Rodolfo!
    Destilando seus conhecimentos literários como sempre.
    Achei que o livro teria um terror maior, sua resenha, acredito eu, diminuiu um pouco o verdadeiro terror. (Será que foi estratégia sua para nos assustarmos mais ao ler o livro?kkkkk).
    Fato é que ter DNA do mestre nas veias, já facilita uma boa escrita e criatividade e fiquei feliz de saber que ele tem sua própria personalidade.
    Quero muito poder ler.
    Bom final de semana!
    “O segredo da felicidade é encontrar a nossa alegria na alegria dos outros.” (Alexandre Herculano).
    Cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/

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  2. Olá, Rodolfo.
    Eu estou com esse livro aqui em casa e já pretendia lê-lo, principalmente porque adoro terror. Agora, após a sua resenha, a vontade aumentou. Principalmente por causa dos seus elogios à escrita de Joe. E fico feliz porque ele soube dar um final digno à obra.
    Certamente lerei muito em breve.

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  3. Esse livro está na minha meta de leitura e estou esperando a coragem chegar para ler. A resenha me deixou bem curiosa e ouvi muito elogios sobre ele. Vou me arriscar e espero não morrer de medo.hehehe

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  4. Filho de peixe, peixinho é.... e pelo jeito MELHORADO não é mesmo? Adorei a resenha Rodolfo! Você sempre consegue nos deixar curiosos e com gostinho de quero mais....rs Pelo que nos contou é claro que o dom da escrita está no sangue...rs, parece ser um livro incrível, uma historia bem interessante e aterrorizante....mistura de realidade e fantasia. Adorei e vou adiciona-lo na minha lista! Parabéns!!!!

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  5. Suspense, terror e mistério e ainda possui ilustrações tão bonitas? Já quero! hahaha Já li um livro do autor, A Estrada da Noite, que AMEI demais, a escrita dele e a facilidade em botar medo de uma forma inteligente e estudada me conquistou. Quero demais ler Nosferatu! Tenho a impressão que irei amar.
    Adorei a resenha.

    Beijos
    http://umaleitoravoraz.blogspot.com.br/

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  6. Maravilhoso!!

    Concordo com você, o autor amadureceu. Tem sim uma semelhança com o pai, mas como não ter?? Porém, os diálogos sarcásticos e irônicos do Hill continuam super presentes. Portanto, ao meu ver, chegou no máximo da sua perfeição e espero que ele siga assim daqui pra frente.

    Eu adorei este livro!!! E amei sua resenha!!

    Que imagens lindas que você colocou aqui. Perfeitas. Essa última colorida ficou muito mais legal que a do livro, rs.

    Bjks

    Lelê - http://topensandoemler.blogspot.com.br/

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  7. Olá Rodolfo!!
    Nem preciso falar muito já que já li o livro e você sabe a minha opinião sobre ele.
    Joe Hill mostrando a que veio e conquistando seu espaço junto aos leitores.
    Agora é esperar o próximo livro dele que segundo comentários vai ser tão bom quanto esse.
    Resenha excelente que me deixou com vontade de reler de novo esse livro fantástico.
    Grande abraço amigão!!

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  8. Rodolfo, vc tem me provocado com essas últimas resenhas, me arrastado pela curiosidade para ler outras coisas, me tirando do meu mundinho fácil... Rapaz, não é pra todo mundo.
    Eu lá sabia que o Hill era filho do King? Não li o pai e já percebo que, se iniciar pelo filho, posso ficar satisfeita e até menos temerosa de me atirar no Misery (sim, porque tão cedo - talvez nunca! - não encaro um Iluminado).
    Duas coisas me fazem tremer diante de sua resenha deliciosa: 1) a maldade desse Manx com as crianças e 2) a luta dessa mãe para salvar o filho. Meus lados hipersensíveis, meus pontos mais frágeis em questão... Sem falar que o livro é bem volumoso, passarei dias e dias com o cortisol nas alturas... terei medo de fechar os olhos para dormir?
    Fui lendo e gostando das suas observações e, antes de vc citar, fiquei imaginando um filme adaptado do livro. Dá mesmo um roteiro de luxo e o Shyamalan saberia dar o tom certo ao meu desespero.
    Não vou fugir da indicação, mais um pra lista só nessa semana, a culpa é sua. Bj

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  9. Nunca li nenhum livro do Joe e nem do pai dele, mas já vi muitos comentários favoráveis a respeito dos livros de ambos.
    Fiquei com dó da Vic com seu drama familiar, sem falar no que ela passou nas mãos do maníaco! Parece ser uma narrativa intensa, cheia de emoção, e pra quem gosta do estilo é um prato cheio!
    Bjos!

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  10. Oi, Rodolfo! Adorei a resenha. Além de falar sobre a história, você também trouxe informações bem interessantes. Tipo o título do livro, adorei essa "brincadeira" com o nome. Realmente a pronúncia se assemelha bastante. Adorei! Engraçado que antes eu gostava bastante de livros com esse toque de terror, aí passei um tempo longe deles, agora já quero lê-los novamente. rs Me interessei em ler algo do Joe Hill quando foi relançado o livro O pacto, agora com o nome Amaldiçoado. Gostei muito da sinopse e quero conhecer a escrita do autor. Lendo a resenha de Nosferatu, decidi que quero lê-lo também! Fiquei curiosa para saber como são esses "passeios" à Terra do Natal.

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  11. Não sabia que Joe Hill é filho do Stephen King, e depois de ler a resenha fui pesquisar na internet um pouco sobre o autor, achei o Joe fisicamente parecido com o pai. Deve ser muito difícil ser o filho do King e também escritor, pois as comparações são invitáveis, mas cada pessoa é única. Pelo visto ele carrega algo de seu pai, mas como li pouco coisa do King não vou fazer comparações. Não leio muito este estilo de livro, mas gostei da resenha e se tiver oportunidade (leia-se aqui, ver o livro em alguma promoção) vou compra-lo.
    Abraços,
    Gisela
    @lerparadivertir
    Ler para Divertir

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  12. Olá
    Ser filho do King deve ser muito dificil, porque automaticamente as pessoas comparam e até ele mesmo deve se comparar com o pai, mas o enredo parece bom e a sua resenha ficou muito bem inscrita, me deixou com muita vontade de conhecer o final do livro!!
    Abraços
    www.estantedepapel.com

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  13. Pois é, a máxima "Filho de peixe, peixinho é", se encaixa perfeitamente nesse caso. O Stephen King é algo de extraordinário, e saber que seu filho vai seguir seus passos, só me dar uma sensação boa. E o melhor de tudo, já tem uma escrita extremamente madura, e sabe finalizar um ótimo livro. kkkkkkk Se quero ler?!?1 Claro e com certeza. E já divido desse desejo da adaptação sem nem ter lido ainda.

    @_Dom_Dom

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  14. n/ossa pai e filho maravilhosos, isso sim que é familia que tem poder com as palavras hein. Infelizmente o livro não me interessou. Sei lá, acho que não faz bem o meu tipo, até porque nem Stephen consegue me conquistar, então né. Eu passo.

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  15. Nunca li nada do King e confesso que nunca tive vontade, mas fiquei muito a fim de ler este livro, do seus filho querido, hehe.
    Principalmente pelos adjetivos que vc atribui ao final, isso me deixou com muita vontade de descobrir mais...
    Fiquei com medo pelas crianças e essa que escapou e hoje adulta e com filho, tentando protegê-lo é muito cara de filme, mas daqueles bons mesmo.
    Eu adorei a resenha e apesar do medinho que senti; nunca li nada tão aterrorizante, quero ler!
    Bj

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  16. Simplesmente DEMAIS!
    Eu li esse livro e virei os olhinhos. kkk No sentido de satisfação total.
    É fato que Joe Hill amadureceu MUITO. E acho que não teve ajuda de papis, não. O cara é um gênio mesmo, seu talento vem do berço, mas, o sangue ajudou. haha
    Eu me deliciei novamente ao ler sua resenha, deu até vontade de re-ler o livro. (coisa rara)

    Caramba, pensei como você, tem que virar filme, mas, não havia pensado numa protagonista e a sua dica foi perfeita! Charlize Theron... uhuuu!
    Parabéns meu querido, você como sempre arrancando suspiros, ansiedades e nostalgias com suas palavras.
    bjoca
    Ni
    Cia do Leitor

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  17. Primeiro a Nizete e agora você, não tem jeito, eu vou ter de ler esse livro.
    Bjs!

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