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4.6.15

Pines [Blake Crouch]

Blake Crouch
Ed. Planeta, 2015 - 344 páginas:
      O agente secreto americano Ethan Burke chega à aparentemente pacata cidade de Wayward Pines, em Idaho, Estados Unidos, com a missão de descobrir o que ocorreu com dois de seus colegas, que sumiram sem deixar rastro. Mas, ao chegar, Burke se envolve em um violento acidente de carro e acorda, dias depois, em um hospital da cidade sem sua carteira, seu celular e a pasta que continha os papéis secretos que o levaram até a região. Sem nenhum documento, o agente não convence os moradores da cidade de que é quem diz ser. Para piorar a situação, ele não consegue contatar sua mulher e filho. Rapidamente, Burke percebe que nem tudo é o que parece ser em Wayward Pines e que o cenário bucólico do lugar esconde algo sinistro.

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Um universo lisérgico entre pinheiros

Poucos dominam a arte de iniciar bem um livro, de capturar o leitor no primeiro parágrafo. Pines (Planeta, 342 páginas) consegue isso fácil e com louvor. O agente Ethan Burke acorda todo dolorido, sem documentos e sem direção em um local estranho. Não consegue provar sua identidade e se vê em uma armadilha do destino, refém de um delegado exótico e violento, que em tese deveria ser subordinado hierarquicamente a ele:
    “... Sentiu a instabilidade do mundo muito antes de abrir os olhos, como se seu eixo estivesse oscilando como uma gangorra. Inspirou fundo pela primeira vez, e foi como se alguém estivesse golpeando entre suas costelas com uma cunha de metal, no alto do lado esquerdo... O olho esquerdo devia estar muito inchado, pois parecia que enxergava através de uma fenda.”
Pronto. Depois de ter fisgado a atenção, somos lançados num turbilhão de acontecimentos como se tivéssemos tomado ácido (não que eu já o tenha feito, mas foi a única comparação possível). Blake Crouch é escritor experimentado, domina ganchos, tem escrita veloz e explosiva.

Aos poucos Ethan vai se lembrando de que é um agente secreto a serviço do governo americano e tem a missão de encontrar dois colegas que sumiram após irem investigar algo na cidade de Wayward Pines. Na cidade ele se depara com alguém de seu passado (ela está diferente, ela já foi seu maior erro) e este encontro irá moldar seu destino, será de grande impacto para ele e certamente para os leitores. A cidade em si é uma personagem e tem dentes afiados:
    “Perfeição era algo da superfície. A epiderme. Bastava cortar algumas camadas mais abaixo para ser possível ver as tonalidades mais escuras.”
É evidente que alguma coisa muita estranha se passa nesta cidade. Algumas pessoas tentarão ajudá-lo, mesmo cientes da intensidade brutal da retaliação física que poderão sofrer. É medonho, bizarro, uma cidade sem som:
    “O cricrilar do grilo era emitido por um alto-falante.”
Já imaginaram que loucura? Existem livros e filmes que são tão alucinados que passam a ser plausíveis pelo simples fato de serem inconcebíveis. Parece um paradoxo não é mesmo? Mas não são, posso citar alguns aqui: a série Twin Peaks (citado pelo próprio autor como inspiração para este livro – quem não se lembra da pergunta “quem matou Laura Palmer?”), a série Lost, o desvairado filme Veludo Azul (que traz o mesmo diretor de Twin Peaks – David Lynch – e mesmo ator como protagonista – Kyle MacLachlan – tornei-me fã do cara que acabou sumindo mesmo tendo feito alguns trabalhos de efeito como a adaptação de Duna), que se inicia com um agente federal achando uma orelha no jardim. São exemplos de uma sociedade cheia de segredos, que respiram e defendem seu território, como se a cidade fosse um organismo vivo. Tudo beira o surreal:
    “— Era um grito. Ou um choro. Talvez algo entre os dois. E o estranho era a sensação de que eu já o tinha ouvido antes. Num sonho. Ou em outra vida. Fui tomado por terror no meu íntimo, como o uivo de um lobo. Algo intrínseco. Minha única reação foi correr. Então agora ouço você me falando sobre essa cerca elétrica, e estou aqui pensando, por que ela está lá? Para nos manter do lado de dentro? Ou manter algo do lado de fora?”
Em sua investigação, Ethan irá encontrar muito mais que seus antigos colegas, irá se deparar com cidadãos resistentes, desconfiados e de maneira alguma prontos a cooperar. Além do mais há algo impregnando o local:
    “... na varanda frontal da casa abandonada, Ethan dobrou o corpo para a frente, as mãos abraçando os joelhos, e inspirou fundo várias vezes pelo nariz para purgar o fedor. Mas ele não sumia. O cheiro da morte havia aderido a seus seios da face, e era como uma mordida amarga, pútrida, no fundo da garganta.”
Mescla-se ao presente a vida passada do agente que atuou na Guerra do Golfo como soldado, piloto de helicóptero, que cai nas mãos de um inimigo torturador e isso afeta seu psicológico irremediavelmente por uma vida inteira. Ninguém volta a ser o mesmo após a tortura.

E não é apenas um livro policial ou violento, tem muito de FC ali misturado, transbordando pelas páginas. Há amor e frases pra lá de poéticas, afinal de contas Ethan nunca foi um marido exemplar. Em Wayward Pines, ele não consegue entrar em contato com a mulher ou com o filho e se pune pelos tropeços do passado e o que causou à sua relação:
    “... Mesmo nas noites mais difíceis... Ela trazia para a relação muito mais do que ele jamais trouxera. Ela amava à velocidade da luz. Sem hesitação. Sem arrependimentos. Sem condições. Sem reservas. Enquanto ele escondia o jogo e uma parte de si mesmo, ela pulava de cabeça. Sempre. Há momentos em que é possível enxergar a pessoa amada como ela realmente é, isolada de bagagem de projeções e histórias compartilhadas... Antes das lágrimas e das fissuras. Quando ainda há a possiblidade da perfeição.”
Há um entendimento filosófico de nossa espécie exposto sem disfarces. A ciência ganha força no livro, em prol de um futuro controlado. Seria o mundo totalitário de um deus ex-machina a única alternativa?
    “Desde a Revolução Industrial, tratamos nosso mundo como se fosse um quarto de hotel, onde éramos estrelas do rock. Mas não somos estrelas do rock. No esquema das forças evolutivas, somos uma espécie fraca, frágil. Nosso genoma é corruptível, e abusamos tanto deste planeta que, no fim das contas, corrompemos o precioso mapa do DNA que faz de nós humanos.”
O que me fez decidir pelas 5 estrelas não foi o primor de enredo, que tem uma premissa até certo ponto simples (e só dou 5 para um livro quando ele me abala muito), mas sim pelas implicações que advieram dessa leitura: que lugar ocupamos no universo? O que somos? Para onde vamos? Essas não são as grandes dúvidas da humanidade? E não é aí que reside a beleza da existência? Alguém já disse que o caminhar é mais importante que o destino.

Em minha última resenha expressei o desejo de ter o livro transformado em filme dirigido por M.Night Shyamalan. Pois para este eu nem preciso, já que ele se tornou uma série de TV dirigida pelo próprio. Alguns livros nos pegam pela narrativa, outros pelo desenvolvimento das personagens, outros ainda pela atmosfera e paisagens. Mas há aqueles que chegam com o pacote completo, estes fatalmente serão chamados de clássicos ou se tornarão cult.

Livro altamente recomendado para quem quer fugir do lugar comum, quer se sentir incomodado, chacoalhado, instigado, fora da zona de conforto, com aquele frio na barriga e um gosto amargo na boca!

Eu quero e aguardo ansioso pelo restante da saga!

Cortesia da Editora Planeta

Ciumento por natureza, descobri-me por amor aos livros, então os tenho em alta conta. Revelam aquilo que está soterrado em meu subconsciente e por isso o escorpiano em mim vive em constante penitência, sem jamais se dar por vencido. Culpa dos livros!

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comentários pelo facebook:

18 comentários em "Pines [Blake Crouch]"

  1. Oi, Rodolfo.
    Sou fã de livros de suspense, e com uma escrita veloz e explosiva do autor, pronto, já me conquistou! Todo o mistério envolvendo a pequena cidade e seus habitantes parece assustador... esse livro com certeza desperta emoções intensas!
    Gostei da sua resenha, os trechos que você colocou nela foi um ótimo complemento.
    Bjos!

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  2. Rodolfo amado!
    Livros policiais já são bem atrativos aos meus olhos, adoro!
    Agora se além disso eles tem uma pegada filosófica onde podemos nos questionar sobre vários aspectos e até certo ponto quebrar alguns paradigmas pessoais, imagina se não é bom de ser lido, e ainda mais indicado por você com 5 estrelas...
    Confio demais em suas avaliações e claro que já está aqui anotadinho para leitura.
    “Só sei que nada sei.”(Sócrates)
    Cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/

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  3. Como falei, a capa é uma atração a parte. Isso já me prendeu. A história é outro atratativo que nos fisga de vez. Livros policias recheados de suspense, sempre são bem-vindos, pois suas tramas tem sempre coerência e a adrenalina está sempre no máximo. E pelo que vi em sua resenha, nada escapole do que acabei de mencionar. Como sempre você arrasou!!!!

    Bjokas
    Ni
    Cia do Leitor

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  4. Oi, Rodolfo!
    Estou mesmo à procura de livros assim, que nos instiguem logo no começo e tenham bastante suspense e mistério. E pelo que você disse dá pra perceber que ele é meio reflexivo também, o que só aumenta minha vontade de ler.
    Muito boa a resenha! Um abraço!!

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  5. Olá Rodolfo!!
    Mais um livro pra listinha hein!!
    Tem tudo que eu gosto esse livro!
    Será que acho em pdf?
    Resenha instigante,que já me levou a pesquisar na web agora!!
    Grande abraço!!

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  6. Olá Rodolfo! Otima resenha e ótima indicação! O livro é interessantissimo a começar pela capa inspiradora e tbm apavorante rs. E pelo que você pontuou é cheio de suspense, misterios, ação além de poético (achei linda a parte que você colocou na resenha sobre a esposa dele). Adorei e vai pra minha listinha! Obrigada por sempre nos apresentar livros tao bons! Um abraço!

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  7. Oi, Rodolfo! A história desse livro parece incrível. Toda essa trama, esse suspense e mistério em torno dessa cidade e de seus habitantes, são ingredientes que não deixariam o leitor sequer respirar rs. A escrita do autor, veloz e explosiva, ajuda e muito pra que a leitura fique ainda mais envolvente e seja impossível parar de ler. Ótima dica e excelente resenha!

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  8. Rodolfo
    Desde que li sua resenha quando fui publica-la no blog fiquei curiosa com a história deste livro e empolga com "sua empolgação". Com certeza já entrou na minha lista de leitura.
    Abraços,
    Gisela
    @lerparadivertir
    Ler para Divertir

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  9. Esse livro parece ser simplesmente incrível! Rodolfo, adorei sua resenha e vou acompanhar para ler outras mais. Me interessou bastante, adoro livros policiais, de suspense, mistérios, crimes :D

    Bjs, adorei o blog de vocês!!!
    Daniel

    http://blogcafecomdaniel.blogspot.com

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  10. Adoro esse tipo de livro. Não o conhecia e lendo a resenha fiquei bem animada em ler. Vou adicionar a minha lista e espero poder ler em breve.

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  11. Agora sim estamos falando de um livro que combina mais comigo, amigo!!! Li essa resenha já contando os dias para lê-lo. Pelo que você disse, é um livro para quem quer sair do lugar comum, sair da zona de conforto, mas acho que ele é bem do jeito que gosto por ter essa atmosfera bem tensa/reflexiva, e ter pegada de suspense. Essa vibe sombria e violenta é o que mais procuro em livros do gênero. Ou seja, quero muito em breve. E quero dar uma conferida nessa série também.

    @_Dom_Dom

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  12. Rodolfo, que resenha! Palmas! Arrancou desta - que tem uma queda irresistível pelos fatos verossímeis - uma incrível vontade dessa chacoalhada. Alguns autores conseguem isso de mim, eis aqui um desafio, quero ler sim! Mas conte aí qual é a série, quero ver.
    Não tenho ideia do que vou encontrar com toda essa estranheza que o livro traz, esse mistério, pessoas esquisitas, somando a isso um cara sem documentos ou acesso a ninguém querido... e essa mulher do passado? O autor colocou de tudo nessa história, tem pra todos os gostos.
    Suas indagações depois da leitura são, para mim, o de mais valioso que um livro pode proporcionar: ficar ruminando a leitura, digerindo os questionamentos. Isso pode nos levar além, para muito do que não foi dito ou nem foi intencional na trama. Bom gancho pra sentar com um amigo numa mesa de bar e filosofar, trocar ideia sem hora pra acabar, com boa música e algo bom pra beber.
    Adorei!

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  13. Excelente resenha! Esse vai para a lista "Preciso ler". Abraços!

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  14. Pela sua resenha dá para perceber que o livro realmente te impressionou. Não sou de ler livros de suspense/terror, mas sempre fico curiosa quando leio resenhas desse tipo de literatura. Sempre quero saber o que acontece no final. Dessa vez não poderia ser diferente. Já quero saber qual é o segredo que a cidade esconde e se o Ethan consegue sair de lá. Quem sabe eu dê uma chance ao livro.

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  15. Eu estava com vontade de ler esse livro, mas após a sua resenha eu já estou louca. Eu tenho certeza que irei amar essa estória.
    Parabéns pela resenha, bjs!

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  16. Grande resenha, Rodolfo !! [xará],

    Livros de suspense estão presentes em minha vida desde sempre. Sempre gostei muito de acompanhar e me surpreender com as reviravoltas de cada história. E Pines promete ser "o" livro. Tudo o que me agrada posso encontrar lá: mistério, suspense e reflexão. Já ouvi falar muito do livro e com certeza já está em minha wishlist.

    Abraços,
    Rodolfo
    Atributos de Verão

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  17. Oi Rodolfo, que resenha sensacional! Eu amo livros de suspense e fiquei com muita vontade de ler esse, sua resenha me deixou muito curiosa. Pasme, mas ainda não assisti Twin Peaks, mesmo senda fã declarada de suspense e mistérios. Gosto de livros que não nos largam depois de terminados, pois de alguma forma ficam em nossos pensamentos.
    Mais um para minha lista e esse foi par ao topo, pois é bem meu estilo.

    Bjs
    Aline Lima

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  18. Livros de suspense são minha paixão, mas este, por sua resenha, parece ter um imenso diferencial comparado aos outros. Suas intrigas, mistérios, a morte presente em cada página e os questionamentos sobre a existência humana parecem trazer a ele uma atmosfera única e perturbadora, e eu, que não sou de negar um livro como este, não posso deixa-lo fora da minha lista.
    Ótima resenha!

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