acompanhe o blog
nas redes sociais

24.6.15

Pretérito Imperfeito [Gustavo Araujo]

Ed. Caligo, 2015 - 286 páginas:
      "Gustavo Araujo procura, com êxito, combinar numa só pancada a sobriedade do realismo barretiano com a habilidosa e visionária vocação dos autores contemporâneos. Em meio a isso tudo, Toninho, o menino de gênio doce, conduz o leitor pelas memórias mais ternas da infância. Que cheiram a café melado e pão com manteiga, com textura de muro áspero que esfola o joelho, deliciosas como o primeiro amor. E do tamanho da dor - a mais pura e sincera dor. Pretérito Imperfeito é a prova de que a alma dos clássicos não envelhece.


Onde comprar:



A reconstrução do tempo 

Podemos dizer que uma das personagens deste livro é o próprio tempo, na voz de Caetano:
    “E quando eu tiver saído / Para fora do teu círculo / Tempo, tempo, tempo, tempo /
    Não serei nem terás sido / Tempo, tempo, tempo, tempo
    Ainda assim acredito / Ser possível reunirmo-nos / Tempo, tempo, tempo, tempo /
    Num outro nível de vínculo / Tempo, tempo, tempo, tempo”
No Brasil, o realismo fantástico ou realismo mágico é quase uma lacuna, tem em Murilo Rubião e José J.Veiga seus maiores expoentes, hoje em dia pouco divulgados. Seríamos nós um povo de memória curta? É necessário um mea-culpa nacional, com urgência.

Enquanto lançamos nossos autores no esquecimento, nossos vizinhos hermanos provocam com o genial Jorge Luís Borges, os colombianos conclamam Gabriel Garcia Márquez, os peruanos alardeiam Mario Vargas Llosa. Isto só para ficar entre os mais badalados.

O que dizer então da literatura nacional contemporânea, em que os gêneros nem são assim tão estanques? Tudo se mistura numa fusão de cores vibrantes, estilos e ritmos dissonantes. Nesta nova vertente fantástico-realista é que vislumbro Gustavo Araujo, possuidor de palavras tão simples e belas que nos remete a recordações e memórias afetivas que nos são muito caras.

Pretérito imperfeito (Caligo, 286 páginas) já entrou para meu rol de livros inesquecíveis. Um início de leitura despretensioso, sem frases bombásticas, dessas que me deixariam congelado, foi me tomando de assalto em sua simplicidade e me encheu de algo semelhante ao deslumbramento, estou encantado.

O livro conta a história do garoto Toninho e sua amiga Cecília, do desdobramento desta amizade em algo mais consistente. Entre os dois, Pedro Vieira, pai de Toninho, personalidade controversa, torturador arrependido purgando seus pecados.

O passado de Pedro, ou melhor, Sgt.Vieira, insiste em retornar para assombrá-lo, imiscuindo-se no presente de tal maneira que o tempo é fatalmente desorientado, o que redunda na reconstrução do tempo, um novo tempo, um tempo mágico, fantástico. Passado e presente encontram-se em um “lugar especial”, ponto de encontro de Toninho e Cecília.

Como diria Rubem Alves: “Todo mundo gostaria de se mudar para um lugar mágico. Mas são poucos os que têm coragem de tentar”. A coragem e a inconsequência de Toninho consegue transportá-lo para lá, a impetuosidade e a inteligência de Cecília também. Pedro precisará encontrar o seu caminho, superar a perda de seu amor e os fantasmas de suas vítimas, sob pena de perder-se de seu filho. Mas como fugir de si mesmo e do passado que o persegue? Haverá alternativas, rotas de fuga?

Toninho é um garoto ridicularizado por seus colegas de escola. A cada leitura em sala de aula, o vexame e a vergonha que o fazem gaguejar:
    “... Toninho fechou o livro e se sentou. Sentiu vontade de quebrar a cara daquele garoto idiota. De dizer umas verdades à professora. Queria gritar na cara dela, perguntar-lhe se sentia prazer em fazê-lo passar por aquele sofrimento toda santa aula... ele apenas abaixou a cabeça e apoiou a testa com uma das mãos...”
Volta para casa e não encontra em seu pai, Pedro, um ponto de apoio. Não há um abraço amigo, um consolo paternal. O silêncio é o inferno, uma barreira intransponível feita de concreto e amargura. A relação entre eles é calcada na falta de contato, de tato, de carinho.

Seu único prazer é sair de casa com sua bicicleta rumo a seu “lugar especial”, observar passarinhos. E é neste lugar que um belo dia Cecília aparece, ou seria Mariana? O nome importa menos, o que realmente importa é que deste encontro surge a amizade, o desejo de estar juntos.
    “... era voluntariosa, espevitada, petulante – parecia sempre pronta a provocá-lo. E às vezes fazia isso de modo evidentemente manipulador, difícil de resistir. Talvez fosse por causa daqueles olhos castanhos enormes que ao mesmo tempo o assustavam e desafiavam... Estar com ela era experimentar a serenidade, mas também era sujeitar-se ao desconforto, às exigências que ela fazia para que ele vencesse suas dificuldades.”
Ali há a descoberta da satisfação que o ato de ler traz. A felicidade de aprender ou de se observar inserido no enredo. Para descobrir o que somos, é preciso descobrir aquilo que não somos. A leitura nos propicia tal inferência sem que nos machuquemos de verdade. Isso aconteceu comigo lendo Pretérito imperfeito, era como se estivesse olhando fixamente o espelho, mirando-me, descobrindo minhas imperfeições, sendo que esta visão especular se mostra a serviço de algo maior, que vamos reconhecendo lentamente:
    “Pensando agora, percebo a obviedade dessa receita. O que faz da leitura algo tão prazeroso é justamente imaginar a cena, as pessoas, as vontades, enfim, enxergar a si mesmo, identificar-se com as situações descritas...”
É engraçado como a literatura é feita de ciclos e retomadas. E é neste contexto que percebemos o quão próximos estão Marguerite Duras e José Saramago (em épocas totalmente distintas) de Gustavo Araujo. Não no conteúdo ou mesmo na forma, ambos herméticos naqueles, mas na similaridade de uma escrita emocional e catártica. Sentimo-nos desnudados.

Como se não bastasse, o passado de Pedro Vieira está repleto de personalidades históricas que se fundem à trama ficcional, algo que me apetece e sempre me faz mergulhar desvairadamente na busca de dados pelo Google.

Uma foto revela um sr.Pedro desconhecido para Toninho, que na verdade jamais conheceu o pai. No caso, uma foto de “Sgt.Vieira”, ao lado de Filinto Müller, o temido chefe da Delegacia Especial de Segurança Política e Social e seus asseclas – Cap.Teixeira, Cap.Miranda, Ten.Romano, Tem.Kruel – , definidos pelo repórter David Nasser, no livro “Falta alguém em Nuremberg”, como recrutados do Exército, indivíduos cujo servilismo ao governo e brutalidade com os presos contribuíram para as violações dos direitos humanos ocorridas na época.

Todos estes existiram realmente, com Filinto Müller à frente da chefia de polícia. Por diversas vezes foi acusado de promover prisões arbitrárias e utilizar-se da tortura no trato aos prisioneiros. Ganhou repercussão internacional o caso da judia alemã Olga Benário, militante comunista e mulher de Luís Carlos Prestes, que por sua ordem foi deportada para um campo de concentração nazista na Alemanha, onde foi executada em 1942.

O livro é repleto de mensagens subliminares querendo tocar meu passado, jogando com o menino que fui ou ainda sou, não sei. Afinal, somos frutos das escolhas que fazemos desde a infância, vamos nos moldando com cada acontecimento, cada estrada escolhida, cada caminho tomado.

Toninho, elo de ligação entre os três, deverá descobrir quem é Cecília. Esta, quem e onde está seu pai. E Pedro, quem de fato é ele próprio. E todos terão que encontrar, em si mesmos, força para tal revelação.

Este é um dos livros mais lindos que li neste ano, além de emotivo, romântico e poético. Grata surpresa! Gustavo Araujo, seja bem-vindo ao universo literário, bem-vindo ao meu mundo que parecia tão somente meu e que você tão bem soube despir. Como é bom ler um livro e se sentir redimido, redivivo, rejuvenescido. Por tudo isso e tantas outras coisas mais, agradeço de coração à Bia Machado, coração e mente da Editora Caligo, por me presentear com um livro tão “especial” (desculpem-me a redundância). Então segure minhas mãos e vamos saltar:
    “Com um leve impulso saltaram. Um salto que durou para sempre.”
Frases como esta são imortais, atemporais. Livro altamente recomendado!


Ciumento por natureza, descobri-me por amor aos livros, então os tenho em alta conta. Revelam aquilo que está soterrado em meu subconsciente e por isso o escorpiano em mim vive em constante penitência, sem jamais se dar por vencido. Culpa dos livros!

comentários pelo facebook:

16 comentários em "Pretérito Imperfeito [Gustavo Araujo]"

  1. Rodolfo!
    Sinceramente? Se fosse você começaria a escrever...sério!
    Deu uma verdadeira aula em vários aspectos, mas o principal, foi se expor, expor a identificação que teve com o protagonista e como foi sua própria vida no passado(?).
    E que saudade da Bia... faz tempo que não falo com amiga tão querida... até isso conseguiu extrair de mim...saudade!! Obrigada amigo!
    Suas análises são preciosas.
    “A amizade não se busca, não se sonha, não se deseja; ela exerce-se (é uma virtude).”(Simone Weil)
    cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
    Participe no nosso Top Comentarista!

    ResponderExcluir
  2. Querido Rodolfo! Me senti tocada com sua resenha tão carinhosa e cheia de sentimentos sobre Preterito Imperfeito. Adoro ler livros que me tocam e pelas suas palavras o livro parece ser maravilhoso daqueles que mexem com a gente e nos renova. Parabens pela resenha linda e ja me convenceu....quero ler esse livro sim! Um grande abraço! P.s.: concordo com a Rudynalva... você deveria escrever um livro....

    ResponderExcluir
  3. Depois de ler sua resenha, Rodolfo querido, só posso dizer Fantásticos! Resenha e livro, estou aqui babando, parabéns! E parabéns ao autor por obra tão tocante (Rodolfo disse, eu acredito!) e a talentosa escritora e editora Bia Machado por abraçar uma obra literária desse nível.

    bj da angel ;)

    ResponderExcluir
  4. Ah, meu amigo Rodolfo... esta indicação é tiro certeiro no meu coração. Parece um daqueles livros necessários, que são os que ardentemente busco e, graças a resenhas como esta, tenho encontrado.
    Essa mescla de encantamento poético e um olhar para dentro, que proporcionam um encontro com a menina que fui e a mulher que sou (que maternalmente - ou de forma neurótica? - acalenta a menina) é um deleite, o que de mais precioso um autor pode me ofertar. Quando isso se dá... é amor eterno, indicação aos amigos mais sensíveis, releitura obrigatória.
    Que bom saber que Gustavo, que ainda não conhecia, vem com tanto potencial para estar na minha estante ao lado de grandes autores (que lá estão não pela badalação, mas pela emoção que me causaram).
    Obrigada pela indicação nesta belíssima resenha, que posso dizer foi a mais doce e terna de todas as maravilhosas que você escreveu. Obrigada pela recomendação inbox também, honrada por ter sido lembrada durante sua leitura.
    Salto com você.
    Bj

    ResponderExcluir
  5. Olá Rodolfo, é tão bom quando nos identificamos com uma obra. sentimos que ela foi escrita em nossa homenagem! Deu pra perceber como este livro te emocionou e tocou fundo seu ser. Suas palavres estavam repletas de carinho e paixão. Até contagiou!!
    Concordo com a Rudy, está na hora de escrever sua obra e nos agraciar com suas palavras no formato físico!
    Parabéns pelo autor que te conquistou e para você que sempre nos faz apaixonar!!
    bjoca
    Ni
    Cia do Leitor

    ResponderExcluir
  6. Oi, Rodolfo! Ser apresentada ao livro, através da sua resenha, foi algo maravilhoso! Quanto sentimento bonito você conseguiu absorver e nos transmitir também, né; afinal, deu para perceber que suas palavras nos tocaram em cheio aqui rs. Esse fato me fez ter a certeza de que o livro é realmente especial. Quero muito ler! Parabéns pela resenha!

    ResponderExcluir
  7. Não faz muito o meu estilho, mas depois dessa resenha vai começar a fazer.
    Parabéns, eu realmente amei!
    Bjs.

    ResponderExcluir
  8. A resenha foi surpreendente, mas o livro não faz muito meu estilo. Talvez futuramente dê uma chance.

    ResponderExcluir
  9. Resenha maravilhosa, tocante e hipnotizadora. Se a resenha deste livro é dotada de tanta delicadeza e ternura, acredito que o livro deve ser maravilhoso.
    Pretérito Imperfeito vai para a minha lista e espero me emocionar tanto quanto você.
    Abraços

    ResponderExcluir
  10. Esse livro parece ser uma daquelas histórias inesquecíveis, com personagens simples mas ao mesmo tempo marcantes. Fiquei cativada pelo Toninho. Amei sua resenha e sua indicação! Pretérito Imperfeito parece ser uma linda história que eu continuaria não sabendo de sua existência se não fosse você. Obrigada!
    Bjos!

    ResponderExcluir
  11. Rodolfo
    Mais uma linda resenha, que transmite ao leitor todas as emoções contidas na obra, isso por si só já é um presente. Eu gostei de todo o contexto do livro e sendo uma obra nacional fico mais animada ainda. Estou precisando sair um pouco do mundo da fantasia e entrar na realizada crua e nua (acabo fugindo deste tipo de leitura pois ela me toca fundo e sou um pouco covarde para o sofrimento), então dica anotada.
    Abraços,
    Gisela
    @lerparadivertir
    Ler para Divertir

    ResponderExcluir
  12. Que resenha Top, hein, amigo?!?! Fez jus ao que o livro deve ser. Essas obras catárticas, assim como a característica já diz, sempre lavam nossa alma mesmo. Quando leio algo assim, sempre acabo entrando em uma "ressaca literária" daquelas. Afinal, depois de ler algo que mexeu tanto comigo, preciso de um tempo pra colocar as coisas no lugar... digerir tudo o que aquela história me passou. A dica está anotada aqui.
    E só pra responder sua pergunta... Sim! O brasileiro tem memória curta, infelizmente.

    @_Dom_Dom

    ResponderExcluir
  13. Nossa Rodolfo, dá para perceber como esse livro te tocou lenda cada uma das frases da sua resenha. É tão bom quando lemos um livro de maneira despretensiosa e ele nos surpreende de uma maneira marcante e nos leva a refletir. Ótima indicação. Espero poder ler Pretérito Imperfeito em breve.

    ResponderExcluir
  14. Obrigado, Rodolfo!

    Como autor do livro, fiquei comovido com a sua leitura dedicada e, mais do que isso, com o fato de você ter captado cada nuance que tentei passar. Não há nada melhor para quem escreve do que encontrar um leitor que mergulha lá no fundo da história, que consegue ir além do que está impresso nas folhas. E, melhor ainda, que consegue passar com tanta sensibilidade a emoção sentida com a leitura. Obrigado pela resenha! Eu não podia querer nada melhor!

    Também queria agradecer os comentários do pessoal aqui neste post. Fantástico perceber como esta resenha conseguiu multiplicar a sensação de enlevo que tentei passar com a história de Toninho e Cecília. Fico contente por perceber que tanta gente pode se identificar com o que escrevi.

    Queria, por isso, convidar o pessoal a curtir a página do Pretérito Imperfeito lá no facebook (https://www.facebook.com/preterito.imperfeito.livro), para conferir um pouco mais do que há sobre o romance :-)

    Mais uma vez, obrigado!

    Ah, e fazendo coro com a galera, também acho que o Rodolfo deveria escrever um romance.

    ResponderExcluir
  15. Caro Gustavo Araujo, há vezes em que meus amigos me perguntam: "Rodolfo, por que ficar escrevendo resenhas? Dá uma preguiça danada ficar lendo aquilo tudo, ainda mais as suas que são enormes". E a cada vez respondo de uma forma, todas verdadeiras: porque preciso colocar pra fora o que estou sentindo senão acabarei explodindo as janelas; porque se alguém já se interessar pelo livro de um autor que gostamos (este é seu caso) é sinal de que poderemos sentar em um boteco e conversarmos a tarde toda prazerosamente; porque vaidosamente gostamos de ser lidos por um número grande de pessoas. Claro que há dias em que ficamos desanimados, desolados, isso costuma nos colocar pra baixo. Mas quando nos deparamos com as palavras do próprio autor, aí as respostas que todos esperam de mim nem precisam ser transformadas em palavras. Vale à pena jogar no mundo o que sentimos na leitura, vale à pena pesquisar sobre a história, vale à pena os embates com os amigos críticos. Porque o que provamos ao escrever sobre uma obra que nos tocou é que autor e nós, leitores, estamos em sintonia fina, e isso faz toda a diferença. Obrigado Gustavo, você me encantou por sua escrita, a qual tem em mim um fã e mais ainda pela humildade de vir até aqui e encher-nos de poesia.

    ResponderExcluir
  16. Olá Rodolfo!!
    O livro parece ser show de bola hein!!
    Gosto de livros assim que nos conquistam pela simplicidade.
    Anotado aqui!!Ah,sabe que Toninho com sua bicicleta me lembrou uma certa Victória que também ia pra outros lugares com sua bike eheheh..Nosferatu lembra?
    E o bom é que o autor é coisa nossa,é Brasil..só por isso já vale a pena dar uma chance à esse livro!Grande abraço!!Resenha supimpa!!

    ResponderExcluir

Qual sua opinião sobre o livro? Compartilhe!

Tecnologia do Blogger.
siga no instagram @lerparadivertir