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3.7.15

Uma Casa no Meio do Caminho [Barry Martin]

Ed. Sextante, 2014 - 240 páginas:
      Um enorme shopping estava prestes a ser construído na cidade americana de Seattle, mas no meio do terreno havia a casinha de Edith Wilson Macefield, uma velhinha durona que estava decidida a não arredar pé dali. Quando o responsável pela obra, Barry Martin, foi conversar com ela, todos acreditaram que iria convencê-la a mudar de ideia. Mas estavam redondamente enganados. Nesta emocionante e singela história real, Barry conta como nasceu a inusitada amizade entre ele e Edith, e as lições de vida que aprendeu com ela. 

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Uma história que resgata o valor das lembranças e a importância de manter-se fiel aos sentimentos. Que fala de altruísmo. Esta é a premissa do livro Uma Casa no Meio do Caminho (Sextante, 240 páginas): um apanhado de lições que o autor, Barry Martin, oferta ao leitor a partir de sua convivência com a octogenária Edith.

A dependência de um idoso, nos últimos anos da vida, envolve todos os familiares. Enquanto vivencia a decadência física, também as pessoas que o cercam são abaladas e levadas a pensar na própria vida, na inevitável finitude, além dos aspectos mais práticos que a perda da autonomia impõe.

Barry é um engenheiro, supervisor encarregado da obra de um shopping center em um antigo bairro de Seattle. Em meio à demolição de antigas propriedades uma casinha resiste bravamente. Edith Wilson Macefield, 85 anos, não vai sair, não vai. A casa tem um valor sentimental importante demais para ela. Edith não se desfaz dos objetos que contam sua trajetória: vinis dos músicos que conheceu, livros que supostamente escrevera, quadros e souvenirs de viagens, bibelôs que acumulou durante uma vida intensa e cheia de aventuras. Teria mesmo sido uma espiã infiltrada entre os nazistas na segunda guerra? Teria vivido em um castelo e cuidado de crianças? Barry não sabe se acredita nas histórias que a velhinha conta aos poucos e sem detalhes. Cabe a ele costurar as informações que recebe para reconstruir uma personagem curiosa, corajosa e muito, muito ranzinza.

"A forma como ela vive e a escolha que fez de não sair de casa parecem despertar sentimentos muito fortes em desconhecidos. (...) Acho que é porque ela é genuína, autêntica. Está vivendo a própria vida sem pedir ajuda, piedade ou dinheiro. O fato de considerarmos isso tão surpreendente revela muito sobre nós."

Como seu trailer fica pertinho da casa de Edith, Barry passa a visitá-la diariamente, para saber se precisa de alguma coisa. Toda a área circunvizinha será do shopping, que envolverá a casinha antiga de Edith, porque ela não quer vender, não aceita os altos valores que são oferecidos. Não precisa de dinheiro, precisa ficar onde esteve durante boa parte de seus últimos anos. E onde está o seu coração.

Percebendo as dificuldades que ela enfrenta, começa a ajudá-la em pequenas tarefas diárias e, quando percebe, está fazendo as refeições de Edith, levando-a ao médico e preocupando-se tanto, como se fosse alguém da família... Um lindo laço de amizade e afeto os une, mas é Barry quem luta para que a harmonia predomine. Edith não é fácil, não é mesmo!

"Ela relatava as coisas de um jeito que não parecia ser para me impressionar. E sempre mudava de assunto se você insistisse em saber mais. Será que ela estava inventando as histórias e tinha medo de ser pega em alguma mentira? Ou os acontecimentos de seu passado eram reais demais e lhe causavam muita emoção? Eu não tinha a menor ideia."

A leitura é reflexiva, especialmente para o leitor que convive com um idoso. Mostra como Edith vai perdendo a capacidade de fazer coisas simples, mas não aceita ajuda e não quer reconhecer que não pode mais permanecer sem auxílio.

"Quando não sabia o que tinha, ela havia perdido o controle da própria vida; agora, ela estava no comando novamente. (...) Ao menos a partir desse momento ela podia tomar as grandes e importantíssimas decisões. Isso é algo que fazemos bem menos ao envelhecer - e a coisa mais importante que nós, ao ajudarmos um idoso, devemos lembrar. Eles passaram a vida inteira tomando grandes decisões sobre o próprio destino e o de outros."

Há momentos divertidos, especialmente quando Barry tenta manter a calma diante da impertinência, teimosia e até grosseria de Edith. E há também passagens onde sentimos uma compaixão imensa pelo homem que se dedica incansavelmente ao bem-estar da velhinha que só reclama. Barry passa, aos poucos, a cozinhar para Edith, a cuidar dos pormenores que a mantêm saudável e confortável. Cada vez mais ela exige a presença dele, que, enquanto dirige a grandiosa obra no entorno da casa, fica de olho nas necessidades da velha senhora. A coisa vai tomando dimensões sufocantes: Barry deixa de jantar com a família e, às vezes, até dorme na casa de Edith... Uma relação um tanto mal conduzida, mas que trará preciosas lições sobre a liberdade e os limites de cada um, dentre outras tantas, além de fazê-lo experimentar uma melhor relação com o pai, que adoece e precisa dele.

"Acho que ninguém está preparado para o momento em que os pais começam a envelhecer. Eu pelo menos não estava. Fiquei em estado de negação. Não é que eu não soubesse o que estava acontecendo com meu pai. Eu só não queria saber."

Tenho a forte impressão de que seria difícil suportar a carga que Barry carregou. Ele se dispôs a fazer coisas por Edith que poucos filhos fariam pela própria mãe! Nesse ponto, o autor merece o meu aplauso: não dispensou as revelações de suas dificuldades e compartilhou os sentimentos de raiva que experimentou, foi sincero com o leitor.

Ainda que a leitura mostre um lado mais triste da velhice, esta não deve ser vista como essencialmente um momento de perdas, afinal é no ocaso da vida que muitas pessoas se veem livres de obrigações e com tempo para realizar projetos engavetados e ousar aprender coisas novas. É assim que se mantêm ativas, produtivas e aproveitando o que antes era, de alguma forma, limitado. E Edith fez isso muito bem: resolvia todos os seus problemas, dirigia seu velho automóvel e aproveitava seus dias. Quando conhece Barry, infelizmente, já está nos últimos anos de sua magnífica caminhada e só por isso o peso do tempo a abate, deixando-a impossibilitada de cuidar de si.

Confesso que senti raiva de Edith em muitos momentos e tive vontade de sacudir Barry por aguentar tantos abusos... Ao mesmo tempo, Edith seduz o leitor, é inteligente, engraçada, uma mulher forte e notável. Enquanto descreve a relação de ambos, Barry se revela, reavalia a própria vida. Tudo o que aprendeu com Edith parece ter sido um estágio para agora encarar a nova condição de seu pai:

"Acho que meu desejo era termos uma última memória bonita e marcante juntos. Além disso, eu não gostava de ver meu pai ali, sentado no sofá o dia inteiro. É uma tendência que as pessoas têm quando alguém próximo fica muito doente: deixá-lo o tempo todo num quarto, em silêncio, para tentar preservar sua força e sua energia e evitar que passe por algum perigo. Para alguns doentes isso não é problema, mas para outros é uma sentença de morte (...)."

A leitura é interessante, apesar dos pontos repetitivos, exatamente como é a rotina de cuidados com um idoso tão dependente, mas que tem uma história tão bonita para contar. Me fez enxergar coisas que antes escapavam, perceber pessoas queridas que começam a apresentar fragilidades quando antes eram fortes e decididas. Mostrou o quanto ficaremos vulneráveis e um tanto carentes. Gabriel García Marquez disse que: “O segredo de uma velhice agradável consiste apenas na assinatura de um honroso pacto com a solidão.” Doloroso, não? O livro mostra – embora sem esta intenção - que precisamos dar mais amor e atenção aos mais velhos. Fatalmente vai mudar sua maneira de lidar com eles. E como estamos vivendo cada vez mais – e melhor -, fica a reflexão sobre nossos dias futuros.

Lembrei da doce e inesquecível convivência que tive com minha avó, que dizia: “não sou idosa, sou velha, não gosto de amenizar a decrepitude, aceito-a”. Sábia vovó.

A história de Edith inspirou a divulgação do filme Up: Altas Aventuras.

Link do livro no Skoob: http://www.skoob.com.br/livro/425713ED482151


Cortesia da Editora Arqueiro

Cearense, fisioterapeuta e mãe. “Eu não tenho o hábito da leitura. Eu tenho a paixão da leitura. O livro sempre foi para mim uma fonte de encantamento. Eu leio com prazer. Leio com alegria.” Ariano Suassuna.

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comentários pelo facebook:

16 comentários em "Uma Casa no Meio do Caminho [Barry Martin]"

  1. Esse livro parece contar uma história emocionante sobre altruísmo e companheirismo, nos levando a questionar e rever diversos pontos da nossa vida e a de outros que vivem a nossa volta.
    Edith e Barry formam uma dupla estranha, mas que tinham muito a ensinar e a aprender sobre o tempo finito que é nossa vida e apesar de todo e qualquer ponto negativo, parece-me ser uma leitura agradável e reflexiva. Até porque, é algo real. Tudo ocorreu em algum dia, em algum ano que para nós pode ter sido comum e entediante, mas certamente foi marcante para esses dois.
    Darei uma chance para Uma Casa no Meio do Caminho, espero aproveitar a leitura.

    Abraços

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  2. Manu!
    Apenas quem passa pela experiência é que pode dizer o quanto é doloroso, ao mesmo tempo, gratificante, porque são tantas experiências...
    Mainha está com 80 anos, Alzheimer, Parkison, diabétes, já teve 3 avcs e vive numa cama e cadeira de rodas. Passamos o último ano ao lado dela e tem horas que perdemos mesmo a cabeça de tão angustiados que ficamos, ao mesmo tempo, tem tantos momentos de ternura, diálogos e carinho que compensam... Mês passado passamos uns dias por lá e a saudade só fez crescer, dá vontade de largar tudo e ir ficar com ela pelo resto de tempo que tem...
    Gostaria de ler a experiência do autor.
    “Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.”(Clarice Lispector)
    cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
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  3. Parece ser um livro maravilhoso. Gosto muito de ler livros que ensinam uma lição e inspiram certas mudanças no ser humano. Vou adicionar a lista e espero ter a chance de ler.

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  4. Já vi falar desta história, parece ser emocionante, mas eu não sabia que tinha livro e tal, deve ser bem interessante, a história deve ser muito bonita e fiquei curiosa demais para ler, deve passar uma lição, vou adicioná-lo em minha lista de leitura.

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  5. Oi Manu!
    Linda resenha amiga, acredito que essa história real tenha trazido muito aprendizado para o Barry, e consequentemente, ao leitor, com quem ele compartilha esse pedaço de sua vida.
    Beijos... Elis Culceag. * Arquivo Passional *

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  6. Oi, Manu! Que história bonita e emocionante e saber que é algo real, me deixou ainda mais encantada e com muita vontade de ler. Já me emocionei aqui só de ler os quotes rs. Não deve ter sido nada fácil para Barry, né? Doar tanto amor e cuidado por alguém que nem conhecia, abrir mão de estar com a família... Uma história inspiradora e que eu quero ler, com certeza.

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  7. querida Manuh, não sei bem ao certo, mas fiquei tremendamente emocionado, sabe? engasgado. ao contrário de sua vozinha, minha mãe vive repetindo: "envelhecer é uma m...", ela não tolera isso. também não gosta de auxílio e prefere viver sozinha a ter que morar com o filho que vive preocupado (só pra constar: queria ter conhecido sua avó). por causa disso não vou ma ater na parte ruim da velhice, mas no que ela pode trazer de bom. tenho por mim que as pessoas devem casar-se com alguém que converse, fale pelos cotovelos, porque na velhice o abismo será o silêncio, não quero isso pra mim não, meeeeeeeedo!
    este livro é pura reflexão, e de forma alguma diferente de sua resenha maravilhosa. tenho uma vontade enorme de abraçá-la quando leio suas palavras, e mais ainda quando elas me tocam, guardada as devidas proporções, lembrou e muito um conto de Stephen King (por isso vivo insistindo para que leia a mestre), sob o pseudônimo Richard Bachman, chamado Roadwork (Autoestrada), em que um homem, em meio a inquietação política, do início dos anos 70, nos EUA, recusa-se a vender sua casa, que será demolida, por onde passará uma autoestrada. O homem se mostra incapaz de separar-se do imóvel, ligado afetivamente à sua infância e à memória do filho. Assim como o livro que você tão bem resenhou, o livro trata da finitude, da transitoriedade da vida.
    então, o que nos resta é viver: "carpe diem". obrigado por mais uma resenha demolidora. adorei!

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  8. Manuh,
    Adorei o tema e assim como o Rodolfo, fiquei emocionada. Lembrei da minha mãe, que sempre procurou encarar a velhice numa boa e nunca deixou de se divertir e estudar. Somente no final, quando já não conseguia andar direito, por conta da osteoporose e foi proibida de dirigir, se declarou cansada da vida.
    Sem dúvida, é um tema que me interessa. Obrigada por mais essa bela dica! Adorei!

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  9. Up nas ALturas é ótimo, mas não sei se leria este livro. Quando ele foi lançado achei interessante, mas acabei não lendo, e mesmo ainda tendo a mesma opinião, não seria um livro que eu leria no momento.
    Bjs, Rose.

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  10. Tive a chance de assistir Up na Alturas e foi um filme adorável, principalmente por ser uma história divertida para as crianças, e para mim, claro, que não sou mais criança mas amo animações. E esse livro mostra ser maravilhoso e emocionante por contar a vida de pessoas mais vividas. Adorei! Bjs

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  11. Up é uma animação fofa, umas das que mais gosto. Gostei da indicação.
    Quando vc menciona as histórias (ou estórias) que Edith conta e se são verdadeiras ou não lembrei do meu avô que adora contar uma história (e estórias tb, haha).
    Achei o livro interessante, mas não deu vontade de ler.
    Espero que a casinha da Edith tenha sobrevivido.

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  12. Lembro desse caso na época em que passou no jornal, e gostei de saber que escreveram um livro. Torci pela Edith na época e entendi sua atitude, devemos lutar por aquilo que queremos. A amizade inusitada que surgiu entre a velhinha ranzinza e o responsável pela obra parece linda, emocionante, assim como o livro. Me fez lembrar da época em que vi meu avô se definhando aos poucos, e agradeço a Deus até hoje por ter podido cuidar dele até o fim... Muito emocionante sua resenha. Parabéns!
    Bjos!

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  13. Olha só, melhor que a resenha é essa frase da sua avó. Juro que amei sua avó por isso!!
    Quando eu soube do livro me disseram que ele havia inspirado o filme UP, e justamente por isso eu não quis ler, já me imaginei chorando horrores... Eu choro até hoje com o filme.
    Mas não imaginava o quanto de vida ele tinha... não sabia que envolvia uma Edith turrona e um garoto com tanto amor no coração! Adorei!!!

    Com certeza, agora eu quero ler!!

    Bjks

    Lelê - http://topensandoemler.blogspot.com.br/

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  14. Oi Manuh, tudo bem?
    Sabe que adoro seu jeito de resenhar os livros, e mais uma vez você me deixou sensibilizada e curiosa sobre esta história. Uma história que tem todo o jeito de ser sensível, emocionante, e de nos deixar boas lições.
    Achei muito interessante saber que o filme Up: Altas Aventuras tenha sido baseado neste livro. Eu amei o filme, é muito lindo!
    Bjus
    Lia Christo
    www.docesletras.com.br

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  15. Já ouvi falar nessa história, e de cara ela já tinha me chamado atenção, gosto de livros assim , eles me tocam bastante

    Mil beijocas
    ⋙ ♥ Blog Livros com café

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  16. Oi Manu.
    Estou com os olhos brilhando de uma felicidade gostosa e querendo começar a chorar. Amei a história, só com a resenha já estou querendo rever minha vida, imaginar quando lê-lo?????
    Eu assisti ao filme e ameiiiii, ele é muitooo fofo, recomendo.

    Bjsss

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