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2.12.16

K. Relato de uma Busca [Bernardo Kucinski]

Bernardo Kucinski
Ed. Companhia das Letras, 2016 - 176 páginas:
      K. foi lançado originalmente em 2011, pela editora Expressão Popular. Em 2013, ganhou nova edição, pela CosacNaify, e finalmente, em 2016, chegou à Companhia das Letras. Ao longo desses anos, só fez reforçar sua condição de clássico contemporâneo. Em 1974, a irmã do autor, professora de Química na Universidade de São Paulo, foi presa pelos militares ao lado do marido. Desapareceu sem deixar rastros – foram anos até que a família pudesse aceitar que tinha sido executada. K. é a história do pai do autor em busca do paradeiro da filha. Dono de uma loja no Bom Retiro, judeu imigrante que na juventude fora preso por suas atividades políticas, ele se depara com a muralha de silêncio em torno do desaparecimento dos presos políticos. O livro é a história dessa busca.

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“A saudade é o revés de um parto, saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu”

O luto é um período doloroso de assimilação de uma perda, tem suas fases e carrega muitos sentimentos densos e necessários. É algo real, quase palpável. Já o desaparecimento de alguém querido gera uma angústia sem prazo para acabar, enlouquecedora e cruel demais para os familiares. É um luto permanente. Este é o sentimento que predomina durante a leitura de K. Relato de uma busca, do jornalista e professor Bernardo Kucinski. Portanto, caro leitor, devo avisar: este livro dói.

Por mesclar elementos ficcionais e reais, a história é contundente. O autor baseou-se no desaparecimento de sua irmã na década de 70, durante a ditadura militar no Brasil. E preencheu as muitas lacunas do vazio de respostas criando diálogos prováveis, situações tão possíveis quanto indesejáveis. Para tanto, adianta: “Caro leitor: tudo neste livro é invenção, mas quase tudo aconteceu.”

O livro compartilha com o leitor o drama vivido por K., um senhor judeu, poeta dedicado ao iídiche, sobrevivente do ódio genocida, que buscou refúgio no Brasil. E aqui vive o desespero pela segunda vez: a filha, professora de Química da USP, desaparece. As 176 páginas são uma queda livre, um buraco que não sabemos onde vai dar, sombrio, cheio de fantasmas na descida.

"Desconhecidos andaram perguntando por ela, sabe? Há gente estranha no campus. Anotam chapas de carros. Eles estão dentro da reitoria."

O formato do texto, em recortes das informações que K. vai juntando, aproxima o leitor da angústia dessa busca. Também ficamos sufocados pela ausência de respostas, pela revolta. Só um fiozinho de esperança une o pai à filha sumida. É uma dor legítima e tão profunda que após algum tempo ele só quer saber onde estão os restos mortais para enterrar essa agonia. E colocar uma lápide sobre esse fim.

“A falta da lápide equivale a dizer que ela não existiu e isso não era verdade: ela existiu, tornou-se adulta, desenvolveu uma personalidade, criou o seu mundo, formou-se na universidade, casou-se. Sofre a falta dessa lápide como um desastre a mais, uma punição adicional por seu alheamento diante do que estava acontecendo com a filha bem debaixo de seus olhos."

Como um quebra-cabeça, as peças desse jogo são os relatos, os telefonemas, as cartas, as fotografias. Uma narração do temido delegado Fleury e de sua amante, uma consulta da faxineira da Casa da Morte com a psicóloga, a amiga mais próxima, o subordinado que distribui inúmeras pistas falsas. A tortura não tem fim nos porões da ditadura, não tem fim nos corações estraçalhados dos pais.

"(...) esse médico dispusera-se a reconhecer desaparecidos políticos observados por ele em sessões de tortura. Sua função era impedir que o supliciado morresse antes de revelar o que os algozes queriam saber."

Há ainda a culpa desse pai, outro instrumento de tortura que ele não consegue afastar. Como deixou passar os sinais da filha, como esteve ausente aos fatos tão importantes de sua vida?

"Os presos ouviam em silêncio, de olhos fixos no rosto afogueado de K., como que hipnotizados pelas órbitas intumescidas de seus olhos vermelhos e úmidos. Muitos nunca mais esqueceriam aquele momento. O sofrimento do velho os impressionava. Alguns conheceram sua filha e o marido, eram da mesma organização clandestina; todos conheciam a história, inclusive quem os havia delatado."

A estruturação do livro segue o mesmo caráter fragmentário da memória, avançando e recuando no tempo e interpondo informações que exigem atenção do leitor. O diferencial do texto de Kucinski está na abordagem do desespero do pai. Não prende pelo relato da crueldade das torturas, não ilustra a dor do preso político. Faz o leitor andar passo a passo nessa pesquisa que não dará em nada, já sabemos desde o começo. Eu quis sacudir este homem, contar a ele que não. Que não. Que não. Tive que suportar o suplício diário de K., suas perguntas sem resposta, noites de insônia, inquietação e, por fim, um tremendo cansaço. Uma devastação emocional e psicológica inimaginável.

"Lá no andar de baixo, além das celas, também tinha uma parte fechada, onde interrogavam os presos, era coisa ruim os gritos, até hoje escuto os gritos, tem muito grito nos meus pesadelos."

Fiz uma releitura deste livro nesta edição da Companhia das Letras. Senti falta do posfácio e dos dois contos extras presentes na edição anterior, da Cosac Naify, que não acrescentam um assunto novo à trama, mas são interessantes.

A busca de que trata o título é a busca de K., o pai. É ainda a busca de uma nação que precisa se reencontrar, depois de perdidos direitos civis e liberdade. Não posso deixar de mencionar o choque, durante as manifestações recentes pelas ruas deste país, ao ver alguns pedidos de intervenção militar. Pensei em como as lições dolorosas deixadas pelos Anos de Chumbo parecem esquecidas, nos livros de História que não contam dos bastidores. Justiça que não se fez aos torturadores e chefes da violência perpetrada nas esquinas.

Além da indignação inevitável após a leitura, fica a sensação de cair sem fim, o chão faltando sob os pés, que é a dor que acompanha os pais e familiares dos desaparecidos: a dor eterna de não saber.

"(...) os filhos é que deveriam enterrar os pais e não os pais enterrarem os filhos, pior que nem isso, nem enterrar podemos."

Se o leitor se interessa pelo tema, deixo um link logo abaixo com um jogo interativo, rápido e interessante, onde poderá sentir como era viver em 1964, com escolhas que levarão a caminhos diferentes.

Jogo Interativo: Você sobreviveria na época da ditadura?
http://educacao.uol.com.br/infograficos/2014/cinquenta-anos-do-golpe-de-64/

Link do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/k-207967ed607142.html

 Cortesia da Editora Companhia das Letras
Manu Hitz
Cearense, fisioterapeuta e mãe. “Eu não tenho o hábito da leitura. Eu tenho a paixão da leitura. O livro sempre foi para mim uma fonte de encantamento. Eu leio com prazer. Leio com alegria.” Ariano Suassuna.
*Sua compra através dos links deste post geram comissão ao blog!

24 comentários em "K. Relato de uma Busca [Bernardo Kucinski]"

  1. Resenha boa, porém não gostei desse livro.
    Nunca li, mas a sinopse dele não me agradou!
    Não gosto muito desse tipo de livro!

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  2. Manu!
    Só quem passou pela época da ditadura e viveu a perda de entes queridos ou por morte ou por sumirem é que sabem a dor que o pai de K. sente...
    Nasci em 65 e não passei por essa época, mas lembro de meus pais comentando que foi uma fase bem complicada de perseguições para quem não tinha os pensamentos dos governantes. Nada podia ser falado ou escrito, tinha censura, um horror!
    Posso nem imaginar o tamanho da dor do protagonista, mas com toda certeza, quero ler esse livro.
    “Que os sinos natalícios anunciem as boas novas e te tragam um natal abençoado. Boas Festas!”
    (Priscilla Rodighiero)
    cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
    TOP Comentarista de DEZEMBRO ESPECIAL livros + BRINDES e 4 ganhadores, participem!

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  3. Manuh,
    Fui acompanhando a sua leitura através do seu histórico no Skoob e fiquei super curiosa com relação a esse livro. Além de abordar um tema que me agrada em cheio, suas anotações, durante a leitura, despertaram a minha atenção. Com certeza vou ler! Obrigada por mais essa preciosa dica!

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  4. Que resenha ótima, Manu! Fiquei com muita vontade de ler o livro, apesar de achar que choraria do começo ao fim, já que nem consigo imaginar a dor que deve ser não saber onde alguém que você tanto ama está (nem mesmo os restos mortais). Beijinhos, Beatriz.

    www.odiariodeumaescritorainiciante.blogspot.com.br

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    1. Pois é Beatriz, como mãe me senti bem angustiada. Há outros livros com o mesmo tema da ditadura que me fizeram chorar litros. Bj

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  5. Adorei o formato da história, essa junção de fragmentos da memória dá a sensação de pensar junto com o personagem. Bem interessante e também gosto de ler livros que envolvam o tema dessa época tão marcante de repressão, infelizmente.

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    1. Exatamente, Andreza. A escrita de Kucinski é forte e impactante, caminhamos junto o tempo todo. Obrigada pelo comentário. *-*

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  6. Gostei do formato do livro, fiquei curiosa quanto a maneira que o luto foi tratado, sem delicadeza e papas de linguá, fazendo o leitor realmente sofrer e se colocar no lugar de alguém com um conhecido desaparecido, adoro leituras envolvente e que doem no fundo da alma, pois são as que mais me ensinam, quero muito ler

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    1. Oi, Maria, eu tb gosto de leituras que me coloquem sob a pele do personagem. E aqui temos um plus, que é uma história baseada na realidade.
      Obrigada pelo comentário! *-*

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  7. Oi Manu, tudo bem?

    Realmente o luto é algo importante para a aceitação, o desaparecimento é uma preocupação constante. não conhecia o livro, mas adorei saber dele por usa resenha, que está excelente. Parabéns!!

    Bjs, Mi

    O que tem na nossa estante

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    1. Sim, Mi. É uma dor sem fim.
      O autor escreveu outros dois na mesma linha.
      Obrigada pela presença.

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  8. Cara Manuh, inúmeros são os livros que temos vontade de ler em conjunto para depois travarmos diálogos interessantes e, sem dúvida alguma, os que trabalham na linha do inconformismo em razão da estupidez humana são os que mais nos atraem.
    A frase acachapante que inicia sua resenha já nos deixa cautelosos sobre em quais pedras iremos pisar na travessia sobre a dor: “A saudade é o revés de um parto, saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu”. Respondo ainda sob o efeito da comoção do luto coletivo originado do violento passamento de tantos atletas chapecoenses ceifados, supostamente, pela imperícia, negligência, fatalidade, irresponsabilidade, ganância ou um conjunto delas todas.
    Neste caso, dá pra perceber o quanto estou sensível e receptivo a casos como o que Bernardo Kucinski nos revela. Ao contrário do acidente, aonde os corpos chegam para serem velados pelos entes queridos, o desaparecimento não coloca fim à procura, nem à dor. A felicidade é um estado de iluminação que em algum momento da vida faz a pessoa brilhar, mas é a dor que nos torna humanos, dependentes, carentes. Cada um sabe de sua dor, o grau, o teor, a maneira como ela cria morada dentro da gente.
    Logo depois da dor, a culpa vem desgovernada, como se um sexto sentido qualquer fosse capaz de salvar quem mais amamos de sua própria dor, como se pudéssemos passar esta dor para nós ou para algo extracorpo. Não podemos, logo afirmo: cada um tem que viver a sua dor.
    A dor é aprendizado, é corte exposto, mas é também a cura para aqueles que sem passar incólumes por ela, conseguem superá-la. Nem todos têm este privilégio, principalmente aqueles perdidos em porões escuros e sujos, torturados para revelar verdades que nem sequer imaginam. Confessam o que não fizeram, imploram por uma luz que não se acende.
    Assim como você, fico indignado com pedidos de intervenção militar. Não quero julgar ninguém, mas há muito de ignorância, de desconhecimento das barbáries e mais ainda de carência de um povo que percebe a nação saindo dos trilhos. É aí que surgem os “salvadores da pátria”, que se aproveitam do descontrole das massas e criam personagens bizarros e extremistas. O perigo está batendo à nossa porta mais uma vez, infelizmente.
    Através de suas palavras, que também machucam, transparece a dor da memória de um pai, que por si só já valeria leitura apurada. Só que não é só algo metafísico ou filosófico, é real, é brutal e quero acreditar que não seja cíclico. Nunca mais!
    É leitura imprescindível porque não podemos apagar manchas rubras da história e nem devemos deixá-las cair no esquecimento. Evoluir é aprender com os erros, é aprender com a dor. Sua resenha tocou fundo em algo que ainda não tem nome, mas que sabemos estar nos rondando há tempos. Cuidemos de nós e dos nossos. Amém!

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  9. Nossa Manuh que resenha arrebatadora. Como bem falou o Rodolfo acima, só essa frase inicial no a deixa de mãos atadas e obrigados a ler um livro tão bem profundo e angustiante como esse. Adoro ler livros bem reais assim, de mergulhar no âmago das coisas. Belíssima resenha. Se já fiquei angustiado só em ler sua resenha, imagina ler esse livro? Dica muito bem anotada.

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  10. Ótima resenha! Gostei bastante dos seus comentários, e mais ainda do enredo da história. Outra coisa que achei legal foi o fato de parecer mesmo uma memória fragmentada, avançando e recuando nos fatos. Imagino o quanto deve doer uma leitura dessa, principalmente por alguns fatos serem mesmo reais. Gostei demais de conhecer o livro.
    Um abraço!

    http://paragrafosetravessoes.blogspot.com.br/
    Participe dos SORTEIOS de Natal que estão rolando lá no blog!

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  11. Olá Manu!
    Amei a história desse livro! Eu não conhecia, fiquei super interessada em conhecer mais de perto!
    Parabéns pela resenha!
    Bjs!

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  12. Olá, Manu.
    O livro parece angustiante, difícil de ser vivido, lido. Por isso mesmo, quero para mim. Gosto dessas obras que nos desequilibram psicologicamente, que nos fazem sentir a dor do protagonista.
    Por se passar no período militar, quero ainda mais.
    Excelente resenha.

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  13. Olá Manu!
    Uau a resenha já me abalou, imagino o quão densa seja essa leitura. Quando li "Olga" do Fernando Morais, me impactou muito, fiquei por cerca de duas semanas abalada, revoltada, não sei bem explicar. E desde então não consigo mais ler nada sobre a Ditadura, nem mesmo distopias, sou uma leitora covardona. Anotei sua dica, mas ainda não me recuperei da ressaca literária que "Olga" me causou, talvez um dia eu amadureça minhas escolhas literárias e consiga encarar um livro assim, mas por enquanto sei que não vou dar conta. Parabéns pela resenha, como sempre excelente. Obrigada por compartilhar. Um beijão

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  14. K. Relato de uma Busca não faz meu estilo de leitura, e depois de ler "este livro dói" em sua resenha percebi que esse livro não é pra mim, prefiro livros de romance, sem carga emocional pesada...

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  15. Não conhecia esse livro, mas a história parece ser bem emocionante, sua resenha está muito boa, este tipo de história não faz muito meu estilo de leituras, mas quem sabe futuramente eu venha a ler esse livro.

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  16. Oi Manu, tudo bom?
    Amei a resenha e a vontade de ler o livro foi aumentando a cada paragrafo. É claro que o livro me parece pesado por tanto sofrimento existente nele, me peguei perguntando quantas famílias estão sofrendo nesse momento por não saberem o paradeiro de alguém querido. Espero ter a oportunidade de mergulhar no livro, mesmo sabendo que ele nos deixa sem chão.
    Beijos *-*

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  17. Oi, Manu!
    Gostei bastante da resenha mas acho que não leria esse livro, por se tratar de um livro que fala principalmente do desaparecimento e depois a confirmação da morte no tempo da Ditadura. Gosto muito de história mas e o momento que estou que faz que a leitura desse livro não me atrai.
    Beijos

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  18. Olá...
    Que resenha incrível!!!! Com certeza é um livro que quero ler em breve... Acho super interessante histórias que trazem a tona a época da ditadura e um pouco do que as pessoas viveram e sofreram naquela época... Vi o jogo interativo... e realmente, o Brasil era muito pior naquela época...
    Beijinhos...

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  19. Não conhecia o livro.
    É uma tema pertinente para a situação atual,infelizmente muitas famílias passaram por essa situação no Brasil e as pessoas parecem não lembrar disso,é preciso refletir para que isso não ocorra novamente

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  20. Oi!
    Ainda não conhecia esse livro, mas gostei muito dessa historia, já tinha lido alguns livros sobre o período da ditadura no qual os personagens tinham perdidos parentes e o pior não sabia o que tinha acontecido com eles, mas ainda não tinha visto um livro que foca totalmente nessa perde e na falta de noticias e de certeza me deixando muito curiosa para poder ler !!

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