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17.1.18

Anna Kariênina [Liev Tolstoi]

Anna Kariênina
Ed. Companhia Das Letras, 2017 - 808 páginas
- "Publicado originalmente em forma de fascículos entre 1875 e 1877, antes de finalmente ganhar corpo de livro em 1877, "Anna Kariênina" continua a causar espanto. Como pode uma obra de arte se parecer tanto com a vida? Tolstói conduz o leitor por um salão repleto de música, perfumes, vestidos de renda, num ambiente de imagens vívidas e quase palpáveis que têm como pano de fundo a Rússia czarista. Nessa galeria de personagens excessivamente humanos, ninguém está inteiramente a salvo de julgamento: não há heróis, tampouco fracassados, e sim pessoas complexas, ambíguas, que não se restringem a fórmulas prontas. Religião, família, política e classe social são postas à prova no trágico percurso traçado por uma aristocrata casada que, ao se envolver em um caso extraconjugal, experimenta as virtudes e as agruras de um amor profundamente conflituoso, "feito de sombra e de luz"."

Onde comprar:

“Não se deve tomar Anna Kariênina como uma obra de arte; deve-se tomá-lo como um fragmento de vida”

Essa frase de Matthew Arnold que é citada por Janet Malcolm no posfácio do livro, pra mim, resume a obra em sua essência.

Embora a Rússia do século IXX esteja distante de nós tanto geográfica como temporalmente, é praticamente impossível não se reconhecer nos personagens criados por Tolstói em algum momento e não se identificar com seus dilemas em algum nível. Ainda que o pano de fundo seja uma Rússia czarista e alguns dos conflitos sejam próprios do lugar e da época, é nos personagens que reside o grande trunfo desta obra, ao meu ver, e são os personagens que fazem deste um livro atemporal.


Esse é o meu primeiro grande clássico russo e devo confessar que estava um tantinho receosa ao iniciar a leitura. Não só por que se trata de um calhamaço de 840 páginas, mas também porque é impossível ler Tolstói sem uma certa expectativa inicial. Todos nós que amamos os livros, no mínimo já ouvimos falar desse autor ou de qualquer uma de suas obras. Pra ser sincera, achei que ia ser um daqueles livros de difíceis de ler, cheio de palavras rebuscadas e personagens com os quais eu não conseguiria empatizar. Quando alguém te diz que que é um livro sobre a aristocracia russa, você imagina um monte de gente rica, cujos dilemas e aflições estão a anos luz de distância de qualquer coisa que a gente conheça. Mas não é assim. O autor nos entrega não só um retrato da aristocracia, mas antes uma representação de personagens extremamente humanos tentando fazer o melhor possível com suas vidas.

“Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”

Tolstói prende o leitor já na frase inicial. E que frase inicial! Esse é considerado um dos melhores começos de livros de todos os tempos. É impossível não se interessar em continuar a leitura à partir daí.


Não se deixe enganar pelo título. Anna é apenas uma das personagens principais do livro e, segundo o tradutor, o título original pensado pelo autor enquanto escrevia os rascunhos do que viria a ser o romance era algo como “Dois casais” ou “Dois Casamentos” e acabou se tornando Anna Kariênina pouco antes da publicação. Esses títulos inicias do livro, embora menos poderosos que o titulo publicado, correspondem melhor à ideia geral do livro.

Essa é a história de uma mulher infeliz, casada por conveniência com um homem muito mais velho que acaba por descobrir o amor nos braços de um jovem oficial e que vê sua vida ser destruída aos poucos por suas próprias ações, mas também é a história do romântico Liévin, um senhor de terras muito instruído e dado a perder-se em devaneios filosóficos que acredita que a felicidade e a paz chegarão até ele através do amor conjugal.

Tanto Anna, quanto Liévin, quanto todos que os cercam são personagens interessantíssimos que despertam no leitor impressões tão ou mais fortes do que se fossem pessoas reais. Lá pela metade do livro você se pega amando alguns personagens e odiando veementemente outros (tô olhando pra você, Vrónski).


No prefácio, o tradutor afirma que Tolstói trabalha com paralelismos e explora duplicidades no decorrer da obra e eu não posso deixar de concordar. Amor romântico e desejo carnal, cidade e campo, ciência e religião, Moscou e Petesburgo, famílias felizes e infelizes são apenas alguns exemplos das ideias contrapostas pelo autor de forma magistral.

Tolstói é bastante prolixo, não se pode negar. E em vários momentos eu me peguei pensando se alguma passagem tinha mesmo verdadeira importância para o avanço trama. E a resposta pra boa parte das vezes em que questionei isso foi: “não”. Mais para o fim do livro eu entendi que que tais momentos em que o autor se perde em discussões politicas ou nos devaneios de algum personagem, servem não só para contextualizar a história e dar lhe ares de realidade, como pra humanizar os personagens e fazer com que o leitor os conheça e os entenda de forma mais profunda.

O autor aborda temas como amor, religião, hipocrisia, progresso, etc. Há também a alusão frequente à algumas questões particulares da Russia czarista e existem notas de rodapé muito bem estruturadas que nos permitem entender um pouco melhor o contesto histórico e sócio cultural dos eventos citados.


Aliás, essa edição da Companhia das Letras está impecável! Além de esteticamente muito bem feita (eu simplesmente amei a diagramação das letras na capa cinza) também trás um prefácio do tradutor Rubens Figueiredo que, assim como o posfácio escrito por Janet Malcolm, funciona como material de apoio e agrega várias novas informações interessantes à leitura. Além disso, existe uma espécie de “árvore genealógica” que estabelece relação entre todos os personagens principais e uma lista de personagens que evita que você fique confuso com tantos nomes, sobrenomes, apelidos e diminutivos russos.

A história de Anna Kariênina foi adaptada pro cinema várias vezes. E quando digo várias, quero dizer muitas mesmo. A versão mais recente é de 2012 e trás Keira Knightley (Orgulho e Preconceito, A Duquesa, Piratas do Caribe) no papel principal. Esse filme tem uma estética bastante curiosa uma vez que ele inteiro parece se passar em um teatro. Muita gente implicou com o filme principalmente por causa a aparecia assumidamente teatral. Eu, particularmente, gostei bastante. Acho que vale a pena dar uma olhada. Está disponível no Amazon Prime Vídeo, que é a Netflix o serviço de streaming da Amazon.


Em Anna Kariênina, Tolstói nos entrega um relato extremamente realista da natureza humana em todas as suas falhas e hipocrisias, mas também em toda a sua singularidade e beleza. Não é difícil perceber porque esse livro continua sendo um dos grandes clássicos da literatura e porque seu autor é aclamado como um dos maiores escritores de todos os tempos. Leitura indispensável!

A gente se encontra na próxima resenha.
Abraço!


Andressa Freitas
Mineira, aspirante à escritora e estudante de cinema. Se pudesse moraria em uma biblioteca, como não posso, estou empenhada em transformar minha casa no mais próximo disso possível. Viciada em séries e filmes, adoro ler, comer e viajar. Nerd assumida, fotógrafa de profissão, amo aprender coisas novas e imaginar histórias alternativas pra absolutamente tudo.
Cortesia do Grupo Companhia das Letras
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comentários pelo facebook:

20 comentários em "Anna Kariênina [Liev Tolstoi]"

  1. Eu acho que a primeira coisa que pensamos quando nos deparamos com uma obra assim é : Vai ser difícil ler!E talvez até seja mesmo, afinal, é preciso ter a mente aberta para poder absorver tudo que Tolstói pode nos entregar. É complexo, denso, mas totalmente real. Ainda não tinha visto nada sobre este livro,mas já fui pega de cara pela capa e título. Adentrar neste mundo da Rússia é algo maravilhoso e também já vi algumas adaptações para o cinema!
    Super recomendado!
    Beijo

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  2. Oi, Andressa.

    Para a Anna não deve ter sido nada fácil larga tudo, toda a sua vida construída ao lado do marido para viver uma nova e proibida história de amor... E ser julgada e alvo de críticas, diante de uma sociedade julgadora, na época em que vivia.

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  3. Olá, estou surpreso pelo fato que a obra contar com uma escrita simples que dispensa rebusque, pois também já associo clássicos a uma escrita erudita e complexa. Mas vejo que Tolstói optou por uma abordagem mais direta para expressar sua mensagem, o que deixa a leitura ainda mais significativa. Beijos.

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Oi Andressa, escrita rebuscada é o que mais me preocupa na leitura desses livro mais antigos, mas tenho que enfrentar esses meus receios pois só saberei se irei me adaptar tentando né?! Ainda não li ou assisti a um filme que retrate essa história mas conheço algo dela, e o livro parece conter mais história do que ouvi falar já que trás as histórias de dois casais se entendi bem e isso é interessante. É uma história longa, mas é um clássico super aclamado, não sei se leria agora, mas pretendo ler mais clássicos e pode ser eu tente ler esse livro também mais a frente ;)

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  6. Me empolguei total para ler Tolstoi. Eu já ouvi falar muito deste escritor, mas ainda não li nada dele, na verdade nunca li nenhum livro russo. Assim como o livro ainda não vi o filme, apenas o trailer e gostei bastante, então acho que vou gostar tanto do filme quanto do livro. Quando li o primeiro livro da Jane Austen, achei que seria uma leitura terrivelmente difícil de se interpretar ou que os personagens tambem fossem muito diferentes, mas o que encontrei foi uma historia como qualquer outra apenas com algumas pequenas diferenças.
    Com certeza vou comprar o livro e ler. Amei a resenha tá de parabens ;)

    TC 0118

    http://garotaeraumavez.blogspot.com.br/

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  7. Ainda não li nem um livro do autor Liev Tolstói, mas acabei ficando curiosa para ler este livro após ler esta sua resenha. Que bom que os personagens são interessantíssimos e que eles despertam no leitor impressões tão ou mais fortes do que se fossem pessoas reais.
    Sem dúvidas pretendo ler o livro Anna Kariênina.

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  8. Olá!
    Sempre tive curiosidade em ler este livro, faz mto tempo que li uma resenha dle e fiquei com o pé meio atrás por conta do tema que não costumo mto ler, mas ele tá lá na listinha, assim que surgir uma oportunidade qro conhecer...
    Bjs!

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  9. Andressa!
    Acredito que tem mais de 30 anos quando fiz a leitura desse livro e as personagens são tão marcantes que nunca saiu da minha cabeça.
    Lendo sua resenha, todo enredo voltou, bem como o prazer de ler esse clássico, preciso fazer uma releitura, porque é um livro atemporal.
    E que bom que enfrentou seus medos e receios e conseguiu fazer a leitura.
    Novo Ano repleto de realizações!!
    “Meta para o Ano Novo? Ser feliz!” (Desconhecido)
    cheirinhos
    Rudy
    1º TOP COMENTARISTA do ano 3 livros + Kit de papelaria, 3 ganhadores, participem!

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  10. Oi! A sinopse não chamou muito a minha atenção,mas a sua resenha foi muito bem elaborada. E essa coisa de histórias russas como você disse: "achei que ia ser um daqueles livros de difíceis de ler, cheio de palavras rebuscadas e personagens com os quais eu não conseguiria empatizar.". Pensei do mesmo jeito,mas ao ler sua resenha fiquei muito curiosa com esse livro,o enredo parece ser bem complexo. Mesmo assim eu acho que será um desafio que irei aceitar...

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  11. Oi Andressa, eu nunca ouvi falar desse autor ou dos livros. A história da protagonista é bem a realidade de antigamente casamento por conveniência é o que mais tinha nessa época. Tem escritor que deixa a história longa mais do que o necessário e isso deixa a trama chata, mas que bom que mesmo ele fazendo isso para o livro teve importância assim para o leitor a leitura não fica cansativa e dispersa e concordo com você a capa é muito bonita. Mesmo lendo a sua resenha a historia em si do livro não me chamou a atenção mas obrigado pela dica bjs.

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  12. Oi Andressa,
    Já ouvi falar desse clássico, mas ainda não tive oportunidade de ler Tolstói ou assistir suas adaptações.
    Bela frase inicial, gostei da resenha quebrar aquela impressão de ser um romance difícil e rebuscado.

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  13. Interessante esse livro, que bom que parece que a leitura não é difícil tem até explicações no rodapé e uma lista com nomes, pois costume me perder quando tem muitos personagens fico sem saber quem é quem rs. Parece que foi muito bem trabalhado, deixando a leitura bem atraente.

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  14. eu gostei da resenha ,o que mais gosto é de triangulo amoroso,gosto de imaginar vários desfechos quem fica com quem ...

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  15. Tenho que confessa que nunca li um clássico, e as vezes penso que seja um certo receio de não entender, porque eu já fico imaginando que vai ser um livro cheio de palavras dificeis e que vou ter que estar com um dicionário ao lado pra poder entender, assim perco logo o interesse, mas fiquei feliz em ver que esse clássico trás uma romance com um triângulo amoroso, uma mulher com um casamento infeliz, e que é algo comum de se ver nos livros de hoje,porém com um contexto e época diferente, então talvez esteja na hora de começar a dar uma chance ao clássicos.

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  16. Olá!
    o livro tem uma historia interessante, ainda mais sobre a uma época da Russa que nem tinhas ideia. Gostei muito da resenha, uma premissa boa e que me deixou muito curiosa com a historia, estou bem curiosa para ler. Ah, mas que frase tem o livro em!

    Tempos Literários

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  17. Fiquei apaixonada pela literatura russa desde que li fiodor dostoievski fiquei muito tempo de ler esse livro e vi que teve adaptação para o cinema mas não me lembro muito bem se essa adaptação foi aceita ou não mas preciso de ambos então Obrigado pela sugestão

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  18. Oi Andressa!
    É fato que ao olhar para o livro o primeiro pensamento que temos é que se trata de uma leitura mais complexa, principalmente por ser uma obra considerada clássico. Até então eu não conhecia o livro e não imaginava que haviam tantas adaptações cinematográficas sobre ele, lendo sua resenha da para perceber que os personagens são bem intensos em seus dilemas e sentimentos e isso faz o leitor criar um vínculo. Confesso que o tanto de páginas me assusta assusta um pouco por medo de se tornar uma leitora cansativa, mas ainda assim fiquei extremamente curiosa pelo livro.
    Beijos

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  19. Oi, Andressa!
    Ainda não tive oportunidade de ler esse livro é também não tive nenhum contato com qualquer outra obra de literatura russa. Amei a resenha e quero muito ler essa história!
    Bjoss

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  20. Que edição linda! Quero muito ler Tolstoi! Ano passado me aventurei pela literatura russa e essa ano pretendo continuar nesse gênero <3

    Toca da Lebre

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