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6.9.18

O Terror [Dan Simmons]

Dan Simmons
Ed. Rocco, 2017 - 752 páginas
- "A partir de uma meticulosa pesquisa, o autor recria de maneira original uma das mais fascinantes histórias da exploração marítima no século XIX, a Expedição Franklin, como ficou conhecida a trágica investida da Marinha Britânica, em 1845, à cobiçada Passagem Noroeste, que liga os oceanos Atlântico e Pacífico através do Círculo Polar Ártico. Sob a liderança do renomado sir John Franklin e mesmo contando com os equipamentos mais avançados da época, a tripulação de mais de cem homens acabou presa nas geleiras ao norte do Canadá. A luta pela sobrevivência naquele ambiente hostil é o tema da narrativa de Simmons, que adiciona uma misteriosa ameaça aos bravos marinheiros: um predador desconhecido que tenta abrir caminho através dos cascos dos navios."

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O inferno é gelado

Há quem diga que as provações no inferno são quentes, muito quentes. Mas sinto lhes informar que o inferno é gelado, tão gelado que as queimaduras são frequentes e dolorosas, já experimentou pegar um gelo com as mãos? A maior prova do que digo é o livro O terror (Rocco, 752 páginas) de Dan Simmons.

Mas antes de nos aventurarmos pela trama bem produzida por Simmons, fazem-se necessárias algumas considerações. O autor partiu de um acontecimento real – o misterioso desaparecimento dos navios HMS Terror e HMS Erebus da marinha real britânica.

Os navios HMS Erebus e HMS Terror, que integraram a expedição de Sir John Franklin ao Ártico, em gravura datada de 1845 (Illustrated London News/Getty Images)

A expedição, liderada pelo experimentado Capitão John Franklin, tinha como objetivo descobrir e mapear a “Passagem Noroeste”, reduzindo a rota entre Europa e Ásia. Só não contavam com as condições extremas que encontrariam. Os navios ficaram presos no gelo e os mais de 120 homens morreram.

Mais de 50 missões de resgate foram organizadas entre os anos 1848 e 1859, sendo que nenhuma delas obteve êxito. Coube ao governo canadense, 160 anos depois, a descoberta de um dos navios através de imagens de sonar feitas nas águas do Estreito de Victoria. Relatos de povos da região contam que os homens desesperados por comida recorreram ao canibalismo para sobreviver.

Simmons explora este acontecimento de forma ficcional e acrescenta a ele um monstro da mitologia Inuit (esquimó) – o Tuunbaq. Monstro criado pela deusa Sedna para assassinar os outros deuses. Por ter fracassado, a deusa o bane para as extensas massas de gelo do norte onde não se tornaria um perigo para a humanidade. Instruídos por Sedna, um grupo de xamãs com técnicas e feitiços conseguem mantê-lo confinado no extremo norte, isso é conseguido com um ritual chamado “cantando na garganta” em que a língua do entoador é arrancada pelo monstro, ato este que conecta homem e monstro. Aos que porventura ignoram ou tentam enfrentar o monstro são esquartejados e têm suas almas devoradas.

Agora sim, podemos iniciar esta obra – uma ficção histórica com a intromissão de um elemento fantástico. Iniciei a leitura sem muita pretensão e assim foi se passando por umas 400 páginas. Talvez isso tenha se dado devido ao título do livro que sugere uma coisa bem diferente. Só de pirraça continuei a leitura e me deparei com o início da carnificina, matadouro fértil para um predador cruel.

Os dois navios da expedição – orgulhos da marinha real britânica – com equipamentos avançados para a época e provisões para 3 anos é posta à prova quando por uma escolha equivocada do capitão Franklin (HMS Erebus), contrariando conselho e experiência do capitão Crozier (HMS Terror), acabam presos no gelo. Aprisionados aguardam o degelo.

Os marinheiros acreditam que o verdadeiro mal surge com o aparecimento da esquimó chamada de Lady Silêncio (não falava por ter tido a língua arrancada em algum momento da vida). A tripulação acredita que a mesma é uma feiticeira e deixa oferendas a ela – parte de suas rações e bebida.

"O dr.McDonald também relatara que o motivo pelo qual a garota não falara ou produzira um som – mesmo após o pai ou marido ter sido baleado e ficado à morte – era por não ter língua. Na opinião do dr.McDonald, a língua não havia sido cortada, mas arrancada a dente perto da base(...)"

Lady Silêncio chega solitária, após a morte de seu companheiro (pai ou marido, não há como saber) pelos marinheiros afoitos. Porém, há um predador à espreita e parece seguir os passos da misteriosa esquimó.

"As duas tábuas compridas do casco exterior foram esmagadas e empurradas para dentro por alguma força inconcebível, irresistível. Claramente visíveis à luz da lanterna que treme levemente, há enormes marcas de garras no carvalho estilhaçado – arcas de garras sujas com manchas congeladas de um sangue absurdamente brilhante."

Gravura datada de 1847 retrata os tripulantes da expedição de Sir John Franklin no Ártico (Hulton Archive/Getty Images)

A fera é tremendamente forte e o homem torna-se presa fácil. Como se não bastasse todo sofrimento causado pelo gelo, com temperaturas a -50⁰ C, o monstro parece possuir inteligência para ir caçando homem a homem.

"O capitão Francis Crozier não discordava da avaliação dos homens – a despeito de toda a sua conversa sem sentido regada a brandy com o capitão Fitzjames –, mas sabia algo que os homens não sabiam; especificamente que o diabo que tentava atá-los ali no Reino do Diabo não era apenas a coisa de pelos brancos os matando e comendo um a um, mas tudo ali – o frio que não cedia, o gelo que apertava, as tempestades elétricas, a assombrosa falta de focas, baleias, pássaros, morsas e animais terrestres, a interminável acumulação da banquisa, os icebergs que abriam caminho pelo ar branco sólido, não deixando atrás sequer um canal de água do tamanho de um navio, a repentina erupção de cristas de pressão como em um terremoto branco, as estrelas dançarinas, as latas de comida malfeitas agora transformadas e veneno, os verões que não chegavam, os canais que não se abriam – tudo. O monstro no gelo era apenas mais uma manifestação de um diabo que os queria mortos. E que desejava que sofressem."

O degelo não acontece, as provisões tornam-se escassas, o escorbuto toma marinheiros de assalto e a hipotermia mina toda força. Este cenário pra lá de funesto torna-se propício para uma rebelião. Novas lideranças surgem tanto para o bem quanto para o mal. Os sobreviventes terão que escolher um lado e a fuga desesperada parece ser a única saída.

"Recolocar os barcos em seus trenós antes de partir para a banquisa esteve no limite da força e das habilidades declinantes dos homens. Dedos idiotas de fadiga e escorbuto se atrapalhavam com nós simples. Um corte superficial não parava de sangrar. A batida mais leve deixava hematomas do tamanho de mãos em seus braços macios e na pele fina acima das costelas."

Mas nem só de escolhas vive um homem, é preciso mais, é preciso alimento. Em um mundo em que não há nada além de quilômetros e mais quilômetro de gelo, uma desolação branca a perder de vista, um cadáver pode significar vida.

"Francis Crozier tinha tanta fome que podia se imaginar comendo carne humana. Ele não mataria um homem para devorá-lo – ainda não –, mas uma vez morto, por que toda aquela carne devia ser deixada para apodrecer sob o sol do verão do Ártico? Ou ainda pior, deixada para ser comida por aquela coisa que ia atrás deles?"

O ser humano revela-se em situações extremas. O desejo de viver supera obstáculos que seriam intransponíveis em circunstâncias menos dramáticas. Há muitas perguntas sem resposta. O que seria Lady Silêncio? Que predador monstruoso é este que pacientemente os caça? Por que os homens – bestas mais selvagens – pensam apenas em si em detrimento do grupo?

"– Toda esta infelicidade natural – disse de repente o dr.Goodsir. – Por que vocês precisam aumentá-la? Por que nossa espécie sempre precisa pegar toda a infelicidade, o terror e a mortalidade dados por Deus e torná-los pior? Pode me responder isso, sr. Hickey?"

Gelo, fera e homem, todos parecem querer devorar. E parafraseando Thomas Hobbes, que tem sua obra “Leviatã” citada no livro: “(...) o ser humano busca satisfazer suas necessidades através do domínio sobe o outro, exercido pelo uso da força e da astúcia.”

A obra inspirou uma série dirigida por ninguém menos que Ridley Scott (o mesmo de “Alien - o 8º passageiro”, com clima e construção bem parecidos).

Imagem da série The Terror - Hickey e o Tuunbaq

Enfim, é um livro de fôlego em que cada capítulo representa a visão de uma das personagens, criando um rico painel em que ansiedade e tensão tornam-se crescentes. Muito bem escrito, porém com um final que freia toda a intensidade para explicar cansativamente sobre a mitologia esquimó. A quem como eu que gosta de mitologias pode ser prazeroso, para outros frustrante.

A leitura é válida para corroborar que “o homem é o lobo do homem”.


Rodolfo Luiz Euflauzino
Ciumento por natureza, descobri-me por amor aos livros, então os tenho em alta conta. Revelam aquilo que está soterrado em meu subconsciente e por isso o escorpiano em mim vive em constante penitência, sem jamais se dar por vencido. Culpa dos livros!

Cortesia da Editora Rocco
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comentários pelo facebook:

27 comentários em "O Terror [Dan Simmons]"

  1. Oi, Rodolfo,

    Esse misto de ficção e realidade contribue para que o livro seja extenso de informações, sendo primoroso de acompanhar o que a história e o desenvolvimento nos reserva. O gênero não me atrai muito, entretanto não posso negar que após saber do que o livro se trata, me vejo tentada em lê-lo.

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    1. cara Daiane, há tanta informação que algumas vezes nos perdemos entre nomes de personagens, patentes, nomenclaturas próprias de marinheiro. porém há também uma aventura de homens valorosos e outros nem tanto. leia também!

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  2. Caramba!!Vou confessar que vi a série num fôlego só, tirando uns dois episódios bem paradinhos, a série é maravilhosa, mas também com esta direção não poderia ser diferente!
    Não sabia da existência do livro,mas por tudo que li e vi acima, é um senhor livro!
    O medo do desconhecido aliado a alguma lenda(ou não), é sempre algo que incomoda, que nos joga a questionar nossos próprios medos internos.
    Se recomendo a série? Muito!
    Se quero ler o livro? Muito!rs
    Beijo

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    1. cara Flor, se você já conhece a série sabe o q esperar deste calhamaço. estou curioso para assistir também. bjos

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  3. Oi Rodolfo, "temperaturas a -50⁰ C" é algo inimaginável pra mim que já sofro com 17° (rsrs), só posso imaginar que esse fato que foi real, foi bem desesperador. Sobre a inserção de uma nova mitologia (ao menos pra mim que não conheço nada da mitologia Inut) pelo autor em uma história real é interessante. É um livro longo e mesmo tendo um inicio aparentemente lento, você demorou 400 páginas pra se empolgar né?!, parece valer a pena ;)

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    1. cara Lili, é frio demais não é mesmo? também não gosto de temperaturas muito baixas não, dá preguiça de sair de casa, rs. não demorei 400 páginas para me empolgar, mas a violência explícita começa neste momento, então me chamou mais a atenção. vale a pena ler sim, experimente.

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  4. Realmente parece um livro de tirar o folego, só de imaginar a situação já é desesperador. E acho que o autor acertou nessa mistura de ficção e realidade e ainda apontando o egoísmo humano em meio ao desastre que viveram. Gostei!!

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    1. cara Luana, o livro é enorme e as situações são estarrecedoras, não há descanso no frio. e as máscaras vão caindo na mesma velocidade em que o desespero vai aumentando. leia também!

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. Rodolfo, gosto quando a ficção é inserida em evento histórico e o autor cria uma narrativa que bem poderia ter sido, por que não? Imagino que o terror que esses homens passaram os desumaniza a tal ponto que um monstro ou coisa do além se torne personagem também, tão real quanto a crueldade do momento. Não sabemos do que somos capazes até que o extremo da necessidade nos confronte. Senti um pouco disso no Ensaio sobre a cegueira, incrível narrativa do mestre Saramago, que sua aventura aterrorizante me trouxe à lembrança. Você me conta de elementos dolorosos demais e tenho para mim que este painel é mesmo o inferno: a solidão, a luta pela sobrevivência, a desesperança aliada ao desespero e, não bastasse a ameaça que esta tragédia abraça, ainda tem a criatura a tornar qualquer possibilidade uma luta desgraçada.
    Livro volumoso, leitor corajoso, resenhista talentoso. Mesmo não sendo meu gênero literário de preferência, você brilha com esta resenha maravilhosa! 😘

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    1. cara Manuh, a mescla de ficção e fantasia sempre renderam ótimos livros. o desespero também, rs. e é sobre este desespero desesperançado que trata este livro. a luta pela sobrevivência em meio ao caos, fome, sede, doenças, gelo e criatura mítica. quero muito ler ensaio sobre a cegueira (há livros que não consigo explicação para não ter lido, a não ser estupidez mesmo, rs). livro enorme sim, mas com inúmeras curiosidades. obrigado pelas palavras carinhosas que sempre renovam minha vontade de escrever. bjos

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  7. Olá, Rodolfo
    Não conhecia o livro e nem a série, depois de ler sua resenha fui pesquisar sobre os 2.
    Nossa o autor foi genial em misturar a realidade com a ficção, só de imaginar o que esses homens passaram antes de morrer dá agonia.
    Fiquei muito interessada em ler esse calhamaço, espero ter oportunidade.
    Beijos

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    1. cara Luana, que legal, fico feliz que a resenha tenha despertado sua curiosidade, este é o objetivo. leia também e me diga o que achou. bjos

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  8. Adorei a dica, Rodolfo.
    Sem dúvidas faz a gente ficar ansioso para ler e conhecer mais, inclusive acompanhar a série.

    Abraços,
    Naty
    http://www.revelandosentimentos.com.br

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    1. cara Naty, leia, assista e volte pra gente prosear mais. bjos

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  9. Esse livro me fez lembrar do filme sobreviventes dos andes

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    1. cara Paola, e não é que o mesmo ocorreu comigo. tenho uma vontade enorme de ler o livro deste acidente. estamos conectados. rs

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  10. Oi Rodolfo,
    Nunca ouvi falar sobre o desaparecimento desse navio, mas achei muito interessante o autor ter usado o acontecimento como ponto de partida de sua trama. A história real já é bem chocante, mas ao trazer elementos ficcionais e de mitologia, Dan Simmons conseguiu fazer com que a premissa do livro despertasse certo interesse. Mas todo esse enredo criado é só uma parte de toda a trama, pois a história gira em torno da sobrevivência e das extremas situações que com ela surgem e é aí que somos capazes de entender a verdadeira natureza humana. Uma pena o final não ter sido tão encorajador, mas ainda assim O Terror me parece ser um livro onde a leitura vale muito a pena.

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    1. cara Gislaine, este não é um privilégio seu, eu também nunca tinha ouvido falar a respeito desta viagem triste e inusitada rumo ao frio. de qualquer forma é uma leitura interessante e desperta a curiosidade para uma cultura hermética (esquimó) cheia de mitos e lendas. gostei bastante.

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  11. Oi Rodolfo,
    Adorei a mistura de mitologia Inuit com acontecimentos reais, sua resenha trouxe pontos muito bons, senti o fôlego em suas palavras.
    Que imagem é essa da série The Terror =O já tinha visto um poster dela com um navio, mas não me atentei sobre o que ela abordava.

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    1. cara Helen, se gostou da premissa do livro então ficará doida pra lê-lo. quanto à série a gente acaba passando batido, mas quando pára pra saber do que realmente ela trata ficamos extasiados. leia também, depois me diga o que achou.

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  12. Rodolfo!
    Td bem?
    Estou aqui me perguntando como ainda não conhecia esse livro e a série que já vou procurar aqui pra ver.
    Eu amo o gênero e te confesso que a história me deixou bastante interessada em ler.
    Já vai para os desejados!
    Bjs!!

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    1. cara Aline, que notícia boa menina. espero que goste. o livro tem trechos que se arrastam, mas no todo é um livro muito interessante. e pra quem é curioso acaba adentrando um universo todo particular onde o frio é uma constante infernal. bora ler também. bjos

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  13. Olá! Embora não goste muito de livros de terror, acredito que todo o mistério que cerca a história é o suficiente para embarcar nessa leitura, gosto que o autor utilize um acontecimento real para dar início a uma história cheia de eventos misteriosos, e é claro, terror, uma pena que no final teremos algumas questões que não serão respondidas.

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    1. cara Elizete... diria que é mais um livro de fantasia que verdadeiramente de terror. além de envolver uma parte rica da história. gostei bastante, espero que goste também.

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  14. RODOLFO!
    Gosto dessas leituras meis densa, intensas que nos tiram o fôlego ao ler.
    Não conhecia e como sempre, adoro suas resenhas.
    “O prazer dos grandes homens consiste em poder tornar os outros felizes.” (Blaise Pascal)
    cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA SETEMBRO - 5 GANHADORES - BLOG ALEGRIA DE VIVER E AMAR O QUE É BOM!

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    1. cara Rudynha, que legal quando você assa por aqui e deixa suas frases sempre inspiradas. este livro é mesmo muito legal, leia também! bjos

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