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6.11.18

Léxico Familiar [Natalia Ginzburg]

Natalia Ginzburg
Ed. Companhia das Letras, 2018 - 219 páginas
- "Neste livro, lugares, fatos e pessoas são reais. Não inventei nada", escreve Natalia Ginzburg sobre sua obra mais célebre, Léxico familiar, de 1963. Nos anos 1930, como consequência da criação de leis raciais na Europa, inúmeras famílias foram obrigadas a deixar seu lar, tornando-se apátridas ou sendo literalmente destroçadas pela guerra que se seguiu. É nesse cenário que se inscrevem as memórias de Ginzburg. Nelas, o vocabulário afetivo de um clã de judeus antifascistas se contrapõe a um mundo sombrio, atravessado pelo autoritarismo. Trata-se de uma história de resistência, narrada em tom menor, e, sobretudo, da gênese de uma das escritoras mais poderosas do nosso tempo."

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Gosto tanto quando um livro relata histórias familiares! Todos os seus conflitos e peculiaridades, essas intimidades que imaginamos, cativam-me fácil, levam-me a pensar na história da minha família. Léxico Familiar atingiu-me ao conversar com minhas lembranças mais queridas.

“Não inventei nada (...). Não é a minha história, mas antes, mesmo com vazios e lacunas, a história da minha família”.

Um bordado de memórias (metáfora do posfácio), em linguagem carinhosa a autora escreve uma autobiografia afetiva, centrada no núcleo de uma família judaica e antifascista, percorrendo da década de 1930 ao pós-guerra na Itália. A narradora é a própria Natalia, que testemunha períodos sombrios da história mundial: o fascismo de Mussolini e a Segunda Grande Guerra.

Repleto de detalhes do cotidiano de um casal e cinco filhos (Natalia é a mais nova), ela expõe imperfeições e idiossincrasias dessa família. Há muito pouco sobre sua vida particular – a infância, o casamento com Leone Ginzburg e os filhos. O foco narrativo é a convivência com os parentes mais próximos, aqueles que não escolhemos e com quem tanto aprendemos e estreitamos (ou não) laços: pais e irmãos, e a partir deles, amigos e agregados. Frases e expressões confeccionadas no convívio íntimo – daí o Léxico do título – aparecem repetidas vezes no texto, especialmente engraçadas nas falas da mãe.

Escrever sobre a vida real e tão comum pode soar monótono ou previsível, afinal, que originalidade há nisso? Ah, nada como uma escritora sensível e atenta para saber contar uma boa história bem guardada na lembrança, com as devidas contribuições das memórias alheias e da saudade:

“Somos cinco irmãos. Moramos em cidades diferentes, alguns de nós estão no exterior (...). Quando nos encontramos, podemos ser, um com o outro, indiferentes ou distraídos. Mas, entre nós, basta uma palavra. Basta uma palavra, uma frase: uma daquelas frases antigas, ouvidas e repetidas infinitas vezes, no tempo de nossa infância (...), para restabelecer de imediato nossas antigas relações, nossa infância e juventude, ligadas indissoluvelmente a essas frases, a essas palavras."

São os pais que ganham o destaque no livro: Giuseppe Levi (Beppino) - professor universitário, intransigente, irônico, impaciente e autoritário, sempre preocupado com os filhos -, e Lidia – a mãezona tranquila e feliz, que busca ver o lado bom das coisas e cria jargões que montam o Léxico Familiar. Os outros filhos Gino, Mario, Alberto e Paola, e amigos ajudam a compor o conjunto de reminiscências. Visitas ilustres, escritores e intelectuais da esquerda italiana, sempre presentes nas reuniões íntimas, colocam em risco o emprego do pai e a liberdade dos envolvidos. Apesar do bom humor característico dos Levi, sobre todos pesam a sombra do fascismo na Itália e as perdas amargas da Segunda Guerra, com amigos e familiares levados ao exílio e à morte.

Léxico Familiar

O delicado tecido da memória é cheio de lacunas, em parte porque Natalia era ainda criança e não compreendia certas situações. O aspecto intimista torna-se um gatilho para lembranças de vida do leitor. Foi tão bom rememorar situações que vivi e há muito esquecidas, impressões e sensações que voltaram com cheiro, sabor e coração disparado, gargalhada alta ou choro, coisas tão exclusivas e espontâneas! São afetividades revisitadas enquanto a narradora percorre seu passado.

Embora abordando temas difíceis como prisão, morte, desilusão e guerra, a autora mantém uma leveza na narrativa, tornando-a verdadeiramente familiar, evidenciando sempre as pessoas e as relações construídas. Talvez pela dureza de certos assuntos, Natalia tenha preferido manter-se à distância do foco, como espectadora. Mas nos sensibiliza ao falar do desamparo sentido ao perceber que, na guerra, sua mãe não poderia protegê-la.

Um livro delicioso, comovente e engraçado em alguns momentos, mas sobretudo um relato que testemunha a necessidade de resistência e sobrevivência em tempos difíceis. E, de maneira superlativa, a importância da união entre aqueles que se amam.

Link do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/livro/101707ED749747


Manu Hitz
Cearense, fisioterapeuta e mãe. “Eu não tenho o hábito da leitura. Eu tenho a paixão da leitura. O livro sempre foi para mim uma fonte de encantamento. Eu leio com prazer. Leio com alegria.” Ariano Suassuna.

Cortesia do Grupo Companhia das Letras
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comentários pelo facebook:

23 comentários em "Léxico Familiar [Natalia Ginzburg]"

  1. Um livro que pelo qu eentendi, deveria ser muito usado por todos nós, nesta época pós eleição!
    Nunca se falou tanto sobre fascismo, nazismo e afins...e nunca se falou tão errado!rs
    Como não conhecia o livro e sou encantada também por enredos "de verdade", adorei o lque li acima, pois a autora não criou nada, ela apenas retratou o que viveu na pele e isso é fascinante!!!
    Com certeza, vai para a lista de desejados e espero ter e ler em breve!!
    Beijo

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    1. Exato, Flor, ela dá cores de ficção ao que viveu, tornando a leitura mais leve, mas não menos rica em detalhes. Quando puder, leia sim! 😘

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  2. cara Manuh, mais um daqueles livros que mexem com o emocional, que nos traga para um universo que também poderia ter sido o nosso. confesso que atualmente tenho medo de leituras assim, de me sentir retratado, invadido, desnudado. o problema é que estes livros também me atraem e o fascismo que é tema espinhoso e mais atual do que nunca torna-se obrigatório em terras tupiniquins. agora, o que realmente chama minha atenção são os dramas familiares, o cotidiano, a sujeira debaixo do tapete, aquilo que você chamou sabiamente de "imperfeições e idiossincrasias", talvez porque eu esteja passando por um momento turbulento em que acabo por perceber que todos são propensos ao erro, mesmo aqueles que mais amamos e confiamos, inclusive nós mesmos. julgar é um ato covarde, mas como se abster de fazê-lo quando estamos tão magoados?
    já estou me perdendo em meus próprios sentimentos, perdoe-me. escrever sobre a vida real pode ser monótono, mas não para quem possui um olhar sensível sobre as sutilezas familiares, sobre palavras e brincadeiras particulares (só pra não deixar passar, há um livro de Stephen King - "Love - a história de Lisey" - que retrata bem este tipo de comportamento particular e único existente entre pessoas que se amam).
    vou aguardar o momento certo para ler um livro deste calibre, não me sinto preparado, mas a curiosidade faz coisas com nossos desejos. querida, esta resenha está belíssima, sensível e direta ao coração. maravilhosa!

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    1. Ah, meu amigo, sobre evitar o julgamento, especialmente quando estamos magoados, consigo entender a extensão da sua colocação, tb estou imersa em um momento delicado, embora a tempestade forte tenha passado... Estou aqui a reparar os danos.
      Eu leio a vida real talvez procurando a cura para mim, para o que experimento e entendo sobre coisas e pessoas e momentos... Sou de debridar a ferida, entao é aquela dorzinha 'controlada' que pode ajudar a melhorar.
      Love está na minha biblioteca virtual, anda comigo no celular e Kindle, sempre que abro arquivos dou de cara com ele. Quem sabe com mais esta sugestão chegue a vez de ler King? Obrigada pela gentil presença. 😘

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  3. Oi, Manu,

    Eu não tinha muito conhecimento sobre a autora, mas eis que o livro nos dá a oportunidade de conhecer as fases da vida de sua vida e o seu seio familiar - fazendo desse um livro bem caracterizado e completo.

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    1. Daiane é como se a autora sentasse na nossa sala e falasse de sua vida. Gosto do estilo. 😘

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  4. Não conhecia esse livro, confesso que se visse em uma livraria eu deixaria de lado; mas essa resenha... uau!
    Não tenho costume de ler autobiografia, mas essa me chama atenção.
    A época em que se passa a história é muito interessante, e abordar o tema família deixa tudo mais empolgante e curioso. Acho que todos gostam de ler sobre família.

    Beijos

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    1. Ludyanne eu curto ler a vida dos outros 😂😂, especialmente para encontrar alguma semelhança com a minha, ou ainda para me apontar alguma saída ou boa ideia. 😘

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  5. Oi, Manu
    Já tinha visto a capa do livro, mas não tinha conhecimento sobre o enredo.
    Gosto muito de lembrar da minha infância, tempo muito feliz e triste depois que perdi minha avó com 8 anos.
    Já vou adicionar na lista de desejos, porque tenho certeza que vou amar a leitura. O pai de Natália parece ser uma figura e tanto.
    Beijos

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  6. Espero que vc goste, Luana, especialmente se é saudosista como eu. O pai dela é uma figuraça! 😘

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  7. Oi Manu!
    Nossa esse livro deve trazer um enredo daqueles que faz o leitor ficar preso na historia, parece ser lindo tbm.
    Quero com toda ctz conferir!
    Bjs!

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  8. É bem bonito sim, Aline. Muito íntimo. Espero que goste.😘

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  9. Olá Manu,
    As vezes é nestes estilos de livros que aprendemos mais, até mesmo sobre nós mesmos. Tantas historias existentes no mundo, algumas realmente boas para serem contadas. Acho muito legal quando um autor decide compartilhar sobre sua vida, família, historia, em forma de palavras.
    Resenha bem legal.

    Beijos, Jady
    https://garotaeraumavez.blogspot.com/

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    1. Sim, Jady, tb sou atraída para leituras assim por procurar um pouco de mim nelas. 😘

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  10. Oi Manu,
    Eu já tinha visto esse livro, mas nunca parei para saber a história dele. Fiquei com muita vontade de ler! Amo livros que falam sobre as guerras, e como as pessoas viviam na época, Obrigada pela dica <3

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    1. Theresa, fui atraída pelo titulo, além da autora italiana. Foi certeiro! 😘

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  11. Nossa, falando a verdade? Pela sinopse eu não daria muito pelo livro não. Mas o que me encantou foi a sua resenha, tão cheia de emoção. Também gosto de livros com personagens de verdade, onde a gente pode acompanhar a realidade deles. E, diga-se de passagem, enfrentar uma guerra não deve ser nada fácil. Quero ler demais esse livro agora.

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  12. Quem ia imaginar que um livro autobiográfico seria tão bom assim? São situações que acontece em toda família, relatos sobre um período marcante da nossa história onde quem narra é quem realmente viveu tudo isso.
    Pela sinopse, não achei que o livro seria isso tudo.
    E a narrativa parece ser tão leve e a leitura flui tão bem. Gostei muito da resenha.

    Bjos

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  13. Oi, Manu!
    Ainda não conhecia esse livro mais achei bem interessante, principalmente por ser uma história da vida real da Natalia Ginzburg, sem dúvida é uma história marcante por retratar a infância e juventude da escritora em uma época de guerra e perseguição aos judeus.
    Bjos

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  14. Parece ser um livro encantador. Histórias familiares com toda a força de suas relações e dramas quando bem contadas são mesmo envolventes. A época que se passa a história torna mais denso cada detalhe. A autora soube inserir muitos elementos fortes e interessantes na trama. Quero ler, com certeza.

    Evandro

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  15. Olá Manu,
    Eu normalmente digo que não curto biografias, mas aqui, vejo a beleza em cada palavra, e uma história, além de real, original, foge bem do que costumo encontrar no gênero.
    Sem dúvidas a segunda guerra foi marcante e aterrorizante, sempre gostei de livros que se passam nessa época, bom lembrar (ou relembrar) como o ser humano pode se voltar contra a própria raça por egoísmo, principalmente na época em que estamos vivendo, nessa luta diária...
    Sem dúvidas é um belíssimo livro, fico tentada a ler.
    Beijos

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  16. Manu!
    Gosto muito também quando os livros trazem um enredo baseado em história familiar, relambrando memórias passadas e as dificuldades e bondades de se ter um núcleo que nos acolhe e nos ama como somos, com nosso defeitos e virtudes.
    Mas aqui, o que mais gostei e quero poder ler essa biografia da autora, é a época em que se passa, na primeira metade do século XX, deve ser fascinante acompanhar as histórias da autora.
    Desejo uma ótima semana!
    “A ambição é louvável quando acompanhada pelo desejo e pela capacidade de fazer felizes os outros.” (Paul Holbach)
    cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA NOVEMBRO - 5 GANHADORES – BLOG ALEGRIA DE VIVER E AMAR O QUE É BOM!

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  17. Oi, Manu!
    Não curto livros de autobiografia, nem histórias que se passam antes, durante, ou depois de guerras, não gosto dos sentimentos negativos que elas causam - medo, insegurança... - por esse motivo eu não leria Léxico Familiar... Abraços!

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