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27.12.19

Crocodilo [Javier A. Contreras]

Javier A. Contreras
Cortesia do Grupo Companhia das Letras

Em 1941, o escritor, filósofo e jornalista franco-argelino Albert Camus escreveu um ensaio sobre a Filosofia do Absurdo, que nada mais é do que a busca pelo sentido em um mundo onde tudo é passageiro e finito. Ao longo do ensaio, Camus mostra como a rotina de trabalho e vida social acabam fazendo com que a gente questione nossa própria existência, isto é, o sentido pelo qual nós fazemos tudo o que fazemos.

Desde pequeno, a gente aprende que precisa estudar muito para entrar numa boa faculdade, conseguir um bom emprego e, assim, alcançar estabilidade. Não demora muito, a gente se sente devorado pelo monstro da ansiedade, já que nada parece o suficiente. A vida está passando, e a gente não sente que está chegando a algum lugar.

Se a vida não tem um sentido, se todo o sofrimento que a gente atravessa não parece estar nos levando a algum lugar, por que continuar? Talvez tenha sido exatamente isso o que levou Pedro - um rapaz de 28 anos de idade e personagem do romance "Crocodilo" - a se jogar do décimo primeiro andar do prédio onde morava.

Crocodilo
Título: Crocodilo
Autor: Javier A. Contreras
Editora: Companhia das Letras
Gênero: Romance
Páginas: 184
Edição:
Ano: 2019
Onde comprar: Amazon

Javier Arancibia Contreras é um escritor brasileiro, filho de pais chilenos. Antes de se dedicar integralmente à escrita, ele também atuou como repórter policial. Seu primeiro romance, "Imóbile", foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura. Em 2012, Javier também foi apontado pela mídia como um dos vinte melhores entre os jovens escritores brasileiros.

Em 2019, o autor foi finalista do Prêmio Jabuti por uma narrativa poderosa e comovente, a qual ele deu o título de "Crocodilo" e que tem como ponto de partida o suicídio do jovem Pedro. A partir do dia zero, acompanhamos a trajetória de luto de seus pais, Ruy e Marta, que precisam juntar os cacos de um casamento afundado para, então, lidar com a dor da perda de um filho.

“Ninguém jamais se imaginaria mãe ou pai de um suicida. O silêncio e a covardia colaboraram para contaminar o ambiente. (...) Em nenhum momento qualquer um de nós pronunciou a palavra dura e incômoda que se tornou um tabu de proporções universais: suicídio. Preferimos dizer: tragédia.”

Achei muito interessante a escolha do foco narrativo no romance. Javier Contreras escolhe nos contar a história pelo ponto de vista de Ruy, o pai de Pedro. Em narrativas com essa temática, quase sempre nos deparamos com momentos de flashback e personagens tentando entender o que levou o protagonista a desistir da própria vida.

Em Crocodilo, não é muito diferente. Pedro era um jovem cineasta que, antes dos trinta anos, já tinha alcançado prestígio internacional com seus trabalhos. Um rapaz de sensibilidade profunda, com um olhar voltado para o que a maioria das pessoas não costuma perceber - o crocodilo, por exemplo, uma criatura enigmática com o corpo sempre submerso e os olhos à superfície, e também o animal que Pedro mais gostava de observar no zoológico, quando criança.

Ao longo da narrativa, Ruy descobre e redescobre seu filho através de seus trabalhos e interações sociais, tentando compreender em que ponto Pedro se perdeu do menino apaixonado pelo "invisível", e se achou em meio às dúvidas e questionamentos pessoais, até chegar ao suicídio. Mais do que isso, acompanhamos principalmente a rotina de Ruy e sua esposa, duas pessoas que já se amaram muito, mas que acabaram se afastando até se tornarem completos estranhos um para o outro.

Agora, eles precisam reaprender a conviver, para superar a dor causada pela perda de seu único filho. É uma história de superação, de reconstrução familiar e, acima de tudo, sobre a importância do amadurecimento.

Javier A. Contreras

Profundamente ligado a corrente reflexiva conhecida como Existencialismo, Albert Camus acreditava que "só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio". Na visão do autor, em seu ensaio intitulado "O Mito de Sísifo", o homem pode desistir de viver tanto num sentido físico quanto filosófico. No sentido físico, o indivíduo abre mão da própria vida, porque não consegue ver sentido no próprio sofrimento. Já no sentido filosófico, o homem se agarra a uma crença sobrenatural - a religião, por exemplo - para encontrar forças e continuar vivendo, apesar das lutas.

Entretanto, Camus também nos fala sobre o herói do absurdo, isto é, aquele que decide encarar o fato de que a vida - e, portanto, o sofrimento - não precisa de uma justificativa. Pelo contrário, ele escolhe continuar vivendo cada dia apesar da tristeza, apesar da rotina desgastante e da ansiedade gerada por ela. E assim, ele compreende que a vida simplesmente passa, seguindo seu ritmo, e nós não precisamos encontrar razão para sermos bons ou maus, felizes ou tristes, e se teremos ou não sucesso naquilo que escolhemos fazer. Alcançamos, então, um estado de liberdade que nos torna capazes de viver em paz com nossas escolhas, um dia de cada vez.

Nesse sentido, me parece que a metáfora com o réptil, escolhida por Javier, não poderia ter sido melhor. Afinal, o que sabemos do crocodilo? A todo o momento, somos capazes apenas de observar seus olhos, sem ter ideia do tamanho de seu corpo ou da força descomunal com a qual ele ataca sua presa. Da mesma forma é a depressão, essa doença silenciosa que, sem avisar, se apodera de nós, roubando nossa alegria de viver e o sentido na busca por nossos sonhos e objetivos.

Acredito que nunca foi tão importante estar atento a esses sinais. A depressão é tida como a doença do século, e vem afetando cada vez mais pessoas, independentemente da idade. Daí a importância de estarmos sempre em busca de equilíbrio, observando nossas emoções e procurando educá-las - não com o objetivo de eliminar a tristeza (porque ela também faz parte da vida), mas de compreender que o amadurecimento exige autoconhecimento, paciência e tolerância sobretudo com nossas limitações. É preciso compreender, também, que nós não temos que atravessar esse caminho sozinhos, e que ter amigos e pessoas queridas ao nosso redor faz com que esse desafio seja um pouquinho mais fácil.

Crocodilo

Crocodilo é um romance breve, mas poderoso. Pode ser lido em um dia, mas as reflexões que este livro desperta duram por muito tempo. Javier Contreras escreve em primeira pessoa, fazendo uso de uma linguagem moderna e mantendo um ritmo fluido. Apesar de abordar um tema sensível como o suicídio, acredito que a mensagem escolhida pelo autor seja um convite para reavaliar nossa realidade, sobretudo as pessoas que estão à nossa volta. Será que nós realmente as observamos? Será que, quando olhamos para elas, somos capazes de perceber aquilo que elas não nos dizem com palavras? Afinal, o que nos dizem os olhos do crocodilo?

Nota do resenhista: se você sentir qualquer desconforto durante a leitura, procure ajuda. O desfecho de Pedro não precisa ser o seu. Acredite, toda dificuldade possui uma solução, basta nos darmos a oportunidade de mudar de ótica. Converse com um profissional, ou mesmo com seus familiares, e procure ajuda.

Centro de Valorização da Vida (CVV): 141
www.cvv.org.br

O atendimento é gratuito e funciona 24 horas por dia.
Abraço apertado e até a próxima!

comentários pelo facebook:

15 comentários em "Crocodilo [Javier A. Contreras]"

  1. É um livro singelo e emotivo, sobre temas importantes como relação pai e filho, suicídio, luto e dor.

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  2. Antes de tudo, que resenha incrível!!! Já estava de olho neste livro curtinho, que além de trazer toda essa filosofia de Camus, aborda a depressão.
    E concordo em gênero, número e grau quanto a comparação do título ao sentimento que existe na depressão.
    Só quem tem essa doença sabe de como é viver com este monstro escondido na alma.
    Eu luto com ela há anos e hoje, depois de 03 tentativas de suicídio e tomando a medicação correta, ando até que bem. Mas sei que nunca irei me curar.
    Os dias cinzas aparecem tal como o crocodilo.
    Por isso, quero demais esta obra preciosa em mãos!
    Beijo

    Angela Cunha Gabriel/Rubro Rosa/O Vazio na Flor

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  3. Olá! Que livro hein, pequeno mas que tem muito a nos ensinar, de fato essa é uma doença gravíssima que tem o poder de destruir não só a pessoa que sofre com ela, mas também seus familiares e amigos.

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  4. Olá Thiago!
    Eu adoro esses livros subjetivos que nos enchem de questionamentos, e Crocodilo parece proporcionar ao leitor uma fonte muito interessante de reflexão, utilizando como ponto de partida o questionamento da existência.
    Com um texto sensível e direto, Javier A. Contreras aborda o suicídio por um viés trivial, mas suficientemente convincente para mostrar ao leitor a importância de ficar atento quanto aos sinais do próximo, pois muitas vezes as pessoas estão pedindo ajuda e na nossa cegueira do dia a dia não percebemos.
    Beijos.

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  5. Thiago!
    O livro parece abordar temas muito importantes e nos fazer refletir sobre diversos aspectos da nossa existência.
    A questão da analogia om um crocodilo foi excepcional.
    E as orientações que deu para quem se abalar de alguma forma com a leitura, é muito importante.
    cheirinhos
    Rudy

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  6. Olá Thiago!
    A metáfora e reflexão feita pelo autor é realmente interessante, e visto que muitas pessoas tidas como "normais" e "felizes" acabam se suicidadando podemos concluir que não prestamos atenção ao próximo. Confesso que é difícil até mesmo reconhecer os sentimentos de nós mesmos, por isso é tão importante ter alguém com quem conversar. Mal posso imaginar como é devastador para uma família viver uma situação dessas. Falar sobre o tema dessa maneira é uma boa forma de chamar a atenção para o problema e fiquei bem interessada na obra.
    Beijos

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  7. Oi, Thiago
    Não conhecia o livro, mas claro que vai para a lista de desejos.
    O autor aborda temas como o suicídio, depressão, relações familiares, tenho certeza que é uma leitura necessária e com gatilhos para algumas pessoas.
    Adorei sua resenha, seu recado ao final dela que é de grande importância. O quote é perfeito mostrando como os pais estão lidando com o fato, chamando o suicídio do filho de tragédia.
    Beijos

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  8. Vi esse livro no Instagram do blog e fiquei fascinada.
    A capa não dá pistas que seja uma história com uma carga emocional tão grande.
    Gostei dessa premissa; me deixou com vontade de ler, de conhecer esse pai e sentir tudo o que essa leitura tem a oferecer.

    Beijos

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  9. Não tem como não ficar tocada com a história, afinal, ela poderia ser facilmente a nossa história ou de alguém próximo, mesmo que com um final diferente! Definitivamente a depressão é a doença do século e se instala tão silenciosamente, que por vezes, é tarde demais para ajudarmos. Fiquei interessada e quero muito conferir toda a história e a maneira primorosa que o autor encontrou para falar de um assunto que machuca tanto e que quase ninguém está preparado para enfrentar.

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  10. Nossa acho que vou gostar muito desse livro, estou nessa fase de ansiedade, fazendo faculdade, parece ser um livro que levanta várias reflexões. Achei muito legal essa coisa de abordar o suicídio, é importante para nos deixar atentos as pessoas a nossa volta. Parece ser uma leitura indispensável nos dias de hoje, espero poder ler esse livro em breve.

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  11. Oi Thiago,
    Não conhecia esse livro, interessante a trama e o ponto de visto do pai.
    A frase de abertura do Camus é bem reflexiva, assim como essa leitura parece ser, gosto de temáticas psicológicas/filosóficas.

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  12. Oi, Thiago!
    O livro aborda um dos temas mais sérios que estamos enfrentado atualmente que é depressão e infelizmente o suicídio que sem dúvida são problemas muito reais e que muitas vezes não sabemos como ajudar alguém que tenha desordens mentais e que muitas vezes é negligenciadas entre a família e os amigos devido ao desconhecimento de tais doenças. Enfim, é um livro bem interessante e espero ter oportunidade de fazer essa leitura.
    Bjs

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  13. Olá!
    Não conhecia o livro mas gostei muito dele. Tem uma ótima premissa e um historia bem interessante. Sei que pelo mundo existe muitos Pedro por ai, pelo mundo que tem esses tipos de situações. Já anotarei para procura e ler.

    Meu blog:
    Tempos Literários

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  14. Eu me lembro de ter lido esse livro assim que eu entrei no curso de psicologia quando o encontrei entre os livros da biblioteca e fiquei apaixonada pelo fato de que então poucas páginas do livro consegue trazer uma bela carga filosófica e emotiva

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  15. Olá! ♡ Ainda não conhecia esse livro, mas é uma leitura que gostaria de fazer e que trata de assuntos muito importantes.
    Obrigada pela indicação! Beijos!

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