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9.2.15

Vermelho Amargo [Bartolomeu Campos de Queirós]

Ed. Cosac Naify, 2011 - 75 páginas:
       Vermelho Amargo procura revelar uma face diferente do escritor Bartolomeu Campos de Queirós. Um narrador em primeira pessoa revisita a dolorosa infância, marcada pela ausência da mãe substituída por uma madrasta indiferente. Há os irmãos, filhos de um pai que não larga o álcool e de uma madrasta que serve em todas as refeições fatia cada vez mais finas de tomate. Eles desenvolvem diversas anomalias para tentar suprir a ausência de afeto e a saudade da mãe - um come vidro, a outra não larga as agulhas e o ponto cruz. Numa espécie de contagem regressiva, o narrador observa seus irmãos mais velhos irem embora de casa.  



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“Toda saudade é a presença da ausência de alguém” (Gilberto Gil)

Último livro de Bartolomeu Campos de Queirós (1944-2012), vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura na categoria Melhor Livro do Ano de 2012, Vermelho Amargo (Cosac Naify, 75 páginas) é um relato autobiográfico, cujo narrador é um menino atormentado pela saudade. Nas palavras do autor: “Cada frase que eu escrevia estava passando um pouco a minha vida a limpo. É quase uma reflexão sobre o que está presente na minha memória ainda hoje e que eu não consegui esquecer.”

Ao lado dos irmãos e de um pai cada vez mais ausente, a chegada da madrasta: ‘O pai, que suportava o peso das caixas de manteiga, agora andava leve, manso, tropeçando em penumbras e suspiros. O amor encarnou em todo o seu destemido corpo e afrouxou até seus pesares. Amava em dobro: o amor que sobra aos viúvos e mais o amor reinventado, e capaz de camuflar o luto.’

Uma criança narrando suas memórias imprime sinceridade ao texto e mostra que as palavras são poucas para tamanho padecimento: ‘Eu possuía, oculto em mim, também o que eu não sabia dizer. (...) Cobiçava conhecer mais palavras para nomear o incômodo perpétuo instalado pela dor.’ É difícil assimilar a perda, o garoto não tem o amparo necessário para este momento decisivo. Precisa aprender a conviver com muitas lembranças e a imensa dor, que permaneceram tão vivas e latejantes por toda a vida do autor, como ele mesmo diz no vídeo (link no final da resenha).

O tomate é uma referência importante ao longo do livro. O menino observa o ritual da madrasta: um único tomate é fatiado para a família. Para que sirva a todos, as fatias são finas, impregnadas de raiva, ciúme e indiferença, que ela distribui para cada um junto com uma quota de dor. Uma dor viva em vermelho, bocado amargo experimentado todos os dias. Tão difícil engolir o tomate envenenado pelo ódio quanto digerir o imenso pesar da alma cravada de angústia.

Nenhum filho sobrevive ao luto sem seqüelas: um irmão come vidro, a outra borda obsessivamente em pontos de cruz (metáfora da cruz que carrega), uma irmã menor passa a miar ao criar um gato mudo. Não há uma linha reta nesta narrativa de memórias, o referencial de tempo é dado pela partida dos irmãos, um a um. Cada parente a menos na mesa garante um pedaço mais grosso do fruto: ‘Cada despedida se anunciava dando mais sustância às fatias do tomate. O que antes era apenas transparência — hóstia maculada de ameaça — agora se fazia corpo e decretava abandono. As mãos matemáticas da mulher registravam com a faca e a força, e sobre a pele do tomate, suas premeditadas vitórias.’

A morte de uma mãe é algo avassalador, uma tragédia pessoal que gera inconformismo, uma lancinante saudade que nunca ameniza, a falta de quem olhe, cuide, zele. Parece faltar o elo que nos liga à vida. ‘A mãe partiu cedo — manhã seca e fria de maio — sem levar o amor que diziam eu ter por ela. Daí, veio me sobrar amor e sem ter a quem amar. Nas manhãs de maio o ar é frio e seco, assim como retruca o coração nos abandonos. (...) Eu pronunciava, seguidamente, a palavra amor, amor, sem ter a presença amada.’

Não pude deixar de refletir sobre o duelo mãe x madrasta e o impacto para a criança – e aqui me coloco inteira, porque sou madrasta de um órfão, e também mãe. Para o pequeno narrador, a mãe era maravilhosa, perfeita: ‘Se a chuva chovia mansa o dia inteiro, o amor da mãe se revelava com mais delicadeza. O tempo definia as receitas. Na beira do fogão ela refogava o arroz. O cheiro do alho frito acordava o ar e impacientava o apetite. A couve, ela cortava mais fina que a ponta da agulha que borda mares em ponto cheio. Depois, mexia o angu para casar com a carne moída, salpicada de salsinha, conversando com o caldo do feijão. Tudo denunciava o seu amor. Nós, meninos, comíamos devagar, tomando sentido para cada gosto. Ela desconfiava que matar nossa fome era como nos pedir para viver.’ E sem discordar do gosto popular, a madrasta é má: ‘Afiando a faca no cimento frio da pia, ela cortava o tomate vermelho, sanguíneo, maduro, como se degolasse cada um de nós.’

Para lidar com o insuportável, o menino, assim como os irmãos, não dá voz ao sofrimento. Há muita dor escondida por trás da ausência do choro, que só encontra vazão na leitura e, mais tarde, na escrita. As memórias afetivas se multiplicam, o narrador derrama seu pranto em cada página: ‘Sobre os dias, a ausência da mãe ganhava corpo. O tempo — capaz de trocar a roupa do mundo — não consumia sua lembrança. Quando se ama, em cada dia o morto nasce mais. Em tudo, sua ausência estava presente. Sobre a fruteira da mesa da sala de jantar, na janela em que se debruçava nas tardes, na gota de água que pingava da torneira, no anil que clareava os lençóis, ela se anunciava. No silêncio obrigatório para bem escutar os pássaros, ela se emanava.’

O livro é inteiramente poético, cheio de metáforas que nos conduzem à intimidade da tristeza. Apesar de fininho, guarda potencial para o arrebatamento: ‘Na morte, a ausência ganha mais presença. É substantivo e concreto tudo aquilo que permanece. Daí, os mortos passearem entre nós.’ Para os fãs de ação e diálogos pode soar monocórdico. Para os apreciadores do encantamento proporcionado por construções lapidadas pela sensibilidade e metáforas profundas, um deleite!

Impossível escrever minhas impressões sobre esta leitura estupenda sem a quase onipresença do vermelho. Vermelho da alma em carne viva, da sangria abundante que não leva embora o amargo do luto. Amargura pungente, ruminada. O vermelho amargo dos tomates servidos para matar a fome (de afeto) que jamais será saciada. ‘Não se desata com delicadeza o nó que nos amarra à mãe.’



Cearense, fisioterapeuta e mãe. “Eu não tenho o hábito da leitura. Eu tenho a paixão da leitura. O livro sempre foi para mim uma fonte de encantamento. Eu leio com prazer. Leio com alegria.” Ariano Suassuna.

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comentários pelo facebook:

35 comentários em "Vermelho Amargo [Bartolomeu Campos de Queirós]"

  1. Sensibilidade parece uma boa palavra para descrever esse livro. Assim como você, também gosto muito de histórias nesse estilo, cheias de reflexões e conteúdo que nos faz pensar sobre a vida.
    O luto é algo complexo, cruel muitas vezes. Mas a perda de um dos pais, ainda mais quando criança, deve ser algo avassalador.
    bjs

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  2. A resenha está fantástica, mas esse não é o tipo de livro que me atrai. Não duvido que seja uma excelente leitura e com certeza irá agradar a quem curte o gênero.
    Beijos.

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  3. um livro como estes teria um lugar de honra na minha estante por ter ganhado um prêmio.
    Mas neste momento não teria nenhuma vontade de lê-lo

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  4. um livro como estes teria um lugar de honra na minha estante por ter ganhado um prêmio.
    Mas neste momento não teria nenhuma vontade de lê-lo

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  5. Este livro me parece ser surpreendente, pois a sensibilidade de uma criança é algo fantástico, algo que nós adultos dificilmente conseguimos compreender, e a autora descrever tal sensibilidade, deve ser realmente um show a parte, estou curiosíssima para ler este livro.

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  6. A Ana Paula Barreto disse tudo, sensibilidade é uma ótima palavra para descrever este livro. Além de que, perder um dos pais para uma criança, é algo muito complexo.

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  7. Adoro esses livros repletos de sensibilidade, principalmente quando reflete o universo infantil. Afinal, o universo das crianças é o mais complexo, maravilhoso e incrível que existe.
    Quero muito conferir esse livro.

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  8. Oi Manu!
    Primeira vez te visitando. =D
    Nunca li nada do autor e nem conhecia o livro, mas gostei da sua análise e das quotes. Parece bem profundo.
    Beijos,

    Priscilla
    http://infinitasvidas.wordpress.com

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  9. querida Manuh, confesso que me vi neste garoto, tenho algo deste garoto, então sua resenha atingiu-me de forma diferente, profunda, amarga também. a frase citada da canção de gil é de tristão de ataíde, uma das que guardo comigo sempre, é maravilhosa - toda saudade é dolorida, é muitas vezes covarde, é uma presença fantasma. a dor da perda é lacuna, mas a dor da perda de alguém presente, vivo, é ainda mais dilacerante. um pai que apenas se arrasta, sem oferecer amor, sem oferecer abrigo é uma faca que corta. os sobreviventes do luto sofrem, somatizam e expelem tristeza através de seus distúrbios. pior ainda ter que conviver com o ódio da madrasta e entendo muito bem o que é alimentar-se de algo feito por alguém ruim assim, é como sentar à mesa pra comer "cabelo com jornal", não desce, vira uma bola, um grude na boca e na garganta, arranha, enoja. é fácil sentir o clima, a aura é escura, quem sofreu isso na pele sabe bem o que é. não sofri isso, mas outras modalidades de dor, cada um sabe de suas dores. você falou tudo, um livro cinco estrelas, uma resenha cinco estrelas. é bom poder ler suas palavras, é um dom que me alegra o dia. parabéns!

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  10. Parece muito bom, embora seja uma história triste. Vai entrar para minha lista de leitura.

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  11. Mais uma maravilhosa resenha!
    Eu me emocionei só de ler sua resenha, que você soube costurar muito bem com os quotes do livro.
    Já coloquei na lista.
    Bjus
    Lia Christo
    www.docesletras.com.br

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  12. Manu, sua resenha está tão perfeita e poética quanto o livro.
    "Vermelho Amargo",posso dizer , sem nenhuma dúvida, que é um dos melhores livros que li .O autor, em poucas páginas,conseguiu transmitir de forma poética e terna a dor da perda que o acompanhou por toda vida. Parabéns pela excelente resenha , transmitiu exatamente a essência do livro . Beijos!

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  13. Seria cruel dizer que não sou grande fã de biografias né? Porém essa narrativa parece ser sensível e cheia de metáforas, o que ao meu ver torna um livro substancial. Mas mesmo assim não faz meu genêro, gosto d agitação, ficção e realidade em livros me assusta.

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  14. Nunca li livros desse estilo e confesso que não tinha a mínima vontade, mas lendo a resenha fiquei bem curiosa e propensa a mudar isso. Lerei com certeza e espero que esse seja o primeiro de muitos.

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  15. Oi Manu. Nossa, que história forte! Gosto de leituras assim quando quero variar um pouco o estilo de leituras que estou lendo. O livo parece ser bastante sentimental e melancólico, só pelas citações, já dá pra perceber o clima.
    Beijos

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  16. Manu!
    O mais triste é ver tanta dor em uma única criança e ainda assim o autor ter coragem de exprimir esse sofrimento e compartilhá-lo com os leitores. É a magia da autobiografia que nos proporciona tamanha apreciação em um texto mais que poético e carregado de sofrimento...
    Fascinante!
    Sou madrasta também, entretanto de mãe viva e com convivência até amigável, o que não trouxe sofrimento as meninas... e que bom.
    Parabéns pelos 'tomates' da resenha, amei!
    cheirinhos
    Rudy

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  17. O Rodolfo Euflauzino, expressou muito bem, uma história muito triste, porem realidade de muitas pessoas. O titulo já é algo que nos remete a pensar : Vermelho amargo",

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  18. RUDYNALVA, vc expressou muito bem, porque não é porque é madrasta que se pode ser má, a convivência amigável é essencial em qualquer circunstância.

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  19. Adorei a quote “Toda saudade é a presença da ausência de alguém”.
    Super fofa!!
    Nossa!! Parece ser um livro muito profundo e triste.
    Não conhecia a obra, mas, fiquei muito interessada em ler.
    Adorei a sua resenha, cheia de quotes. O que deixou-a ainda mais bela e bem escrita.
    Parabéns!
    Beijos!!

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  20. Gosto muito de livros reflexivos. Esse parece bom e gostei das quotes. E gosto de monólogos.

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  21. Oi Manu,
    Não é o gênero literário que eu mais aprecio, MAS a forma como ele foi escrito, as metáforas, me fizeram querer lê-lo, embora não agora.
    Beijocas ^^

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  22. Gostei muito do livro, não conhecia ainda. Mas adoro esses livros reflexivos...

    Beijos
    albumdeleitura.blogspot.com.br

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  23. Olá Manu
    Que resenha intensa. Tão intensa que está me matando de vontade de ler o livro e me deliciar com essa escrita tão poética. Gosto de livros onde haja muita ação, mas também adoro livros que tem que ser lido de forma mais lenta, refletindo. Já entrou pra minha listinha.
    Beijos

    Vidas em Preto e Branco 

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  24. Oi Manu!
    Vim agradecer pelo comentário lá no blog! :3
    Tem post novo: resenha de Arrow, a nova série queridinha do meu coração. <3
    Te espero!
    Beijos,

    Priscilla
    http://infinitasvidas.wordpress.com

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  25. Nossa! Que livro é esse, hein, Manuh?!?! Apesar de ser autobiográfico, a impressão que me passou é que ele tem um "Q" de ficção. Então essa característica já me deixa um pouco mais aberto à leitura. Uma coisa que me chamou a atenção foi que ele é cheio de metáforas. O próprio título já é uma. Enfim, mesmo não fazendo meu estilo, me arriscaria a lê-lo.

    @_Dom_Dom

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  26. Puxa vida, Manu. Que belo livro. Triste, mas belo.
    A madrasta me deixou intrigada. O pai a amava tanto, como podia ela ser assim, tão má?
    Imagino que toda refeição deixasse um gosto amargo. Comer algo feito com ódio e raiva, só pode fazer mal...
    mas mais mal para quem sente coisas ruins, né?
    Fiquei curiosa para saber o que aconteceu com a madrasta.
    Imagino o quão dolorido é perder uma mãe, eu nem gosto de ler algo sobre porque confesso, que desde que minha mãe esteve doente (hoje ela está ótima, graças a Deus) eu morro de medo de perdê-la e entrei em depressão logo que ela ficou bem. O alívio e o medo...
    mas, voltando a resenha, eu achei excelente, a cor vermelha destacando os quotes deram um ar denso, mas não tirou o encantamento.
    Um livro tão curto, mas que parece trazer uma mensagem profunda.
    Parabéns. Adorei, Manu.
    Bjs.

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  27. Eu vi este livro ontem em promoção e deixei passar. Dá pra imaginar o tamanho do meu arrependimentos agora. Adoro os livros da Cosac, e comprei quatro, mas esse não. Vai ficar pra próxima compra.

    Que resenha emocionada. Deu pra perceber que você não só gostou, como sentiu na pele cada palavra.

    Amei!!!!


    Bjks

    Lelê - http://topensandoemler.blogspot.com.br/

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  28. Muitas são assim né Edna Dias, não ligam para o sentimento dos outros. A criança precisava de afeto, carinho e foi o que ela menos teve. Muito triste mesmo.

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  29. Saudade misturada com Tristeza e Raiva né Priscila Gatti?!

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  30. O livro parece abordar um assunto muito complexo e intenso, mas não me interesso muito por esse estilo de livro. Ainda mais por se tratar de uma autobiografia. Mas é um tipo de livro que tem muito a acrescentar, então se um dia tiver oportunidade e paciência para lê-lo, farei isso.

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  31. Gostei muito, principalmente da forma como você escreveu a resenha, passando toda a sensibilidade que o livro com certeza carrega. Vou querer lê-lo um dia, com certeza.

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  32. Que historia triste, parece ser muito intensa e mostra os sentimentos do menino de uma forma tocante.
    Me interessei muito por esse livro, aborda coisas tão fortes.
    A saudade da mãe, o pai distante e chegada da madrasta, tudo isso o menino enfrenta "sozinho".
    É muito triste, ainda por ser o menino contando tudo isso.

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  33. Achei a historia do livro muito tocante não e o meu estilo literários mas quero dar uma olhada a historia me conquistou !!!

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  34. Nunca tinha ouvido falar desse livro antes, nem que tinha ganhado esse prêmio. Eu gostei da sua resenha, mas não fiquei com vontade de lê-lo.

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  35. Manu
    lendo a resenha fiquei admirada com a escrita do autor, deve ser muito difícil resenhar um livro desta magnitude, mas você como sempre consegue nos surpreender. Imagino também que a leitura foi bastante tocante para você e pelo pouco que te conheço não te coloco na categoria das madrastas más, acredito até que existem mais boas madrastas do que as más, mas o podre sempre chama mais a atenção. Fiquei muito interessada em ler o livro.
    Abraços,
    Gisela
    @lerparadivertir
    Ler para Divertir

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