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22.7.16

[Bookserie] Engenharia Reversa: Parte XIX - Adeus, Vitória

André Luis Almeida Barreto


Engenharia Reversa


Parte XIX - Adeus, Vitória


- E aqui é o bar panorâmico! Não vai ter muita coisa para ver durante a viagem, mas as bebidas são ótimas!

Thiago, Marcela e Davi olham ao redor. Duas pequenas mesas de plástico, do tipo mais barato possível, com quatro cadeiras igualmente toscas em volta de cada uma; ao fundo, uma pequena bancada está à frente de três prateleiras fixadas na parede de ferro, várias garrafas estão dispostas sobre elas. Sobre a pequena bancada existe uma bandeja, e ao lado dela, um crânio humano cromado.

Janelas retangulares e um tanto sujas rodeiam todo o ambiente, exceto a parte do bar; algumas delas estão semi-abertas, deixando entrar os sons da garagem. Bem no centro, um buraco no piso é a saída da escadaria em caracol por onde eles entraram. Apesar da sujeira no vidro, a visão panorâmica é boa, e é possível ver toda a parte de cima da carcaça frontal do striker, onde duas torres de metralhadoras chamam a atenção.

Os três olham espantados para o crânio, mas Samuel se coloca na frente da bancada, encarando os jovens.

- E aí? O que acham?

- É, eu não imaginei que esse troço fosse tão grande, Samuel. - Responde Davi.

- Legal esse ambiente… - responde Davi.

- O Lobo do Deserto é um dos maiores strikers que existe! E posso lhes assegurar, garotos, é o melhor que existe em atividade! - Diz Samuel.

Marcela olha em volta, estudando o ambiente, repara que as mesas não recebem uma limpeza a muito tempo.

- Eu espero mesmo que seja - diz a engenheira - Mas eu duvido que esse bar aqui em cima existia no projeto original, estou certa?

Samuel se dirige para a estante de garrafas, pega uma delas que contém um líquido rosado e o serve em alguns copos, então os leva na bandeja para os três jovens.

- Não, lôra, não existia, você tá certa, sim! - Ele abre um sorriso largo exibindo a falta de alguns dentes. - Realmente essa parte aqui foi ideia minha. Sabe como é, as vezes as viagens demoraram muito e os passageiros ficam entediados, nem sempre passamos por postos de apoio, e vocês viram que os alojamentos só servem mesmo para dormir. Então resolvi fazer isso aqui. Mas me respondam! Ficou maneiro ou não ficou?

Marcela produz um sorriso amarelo e confirma com a cabeça, pegando um dos copos. Thiago faz o mesmo, notando que o copo está gelado.

- Ué, como essa bebida tá gelada?

- Ah, outra melhoria minha! Prateleiras magnéticas e resfriadas! Assim não preciso de geladeiras aqui em cima, essas prateleiras mantém as bebidas geladas e prendem os copos!

- Nossa, incrível! Você se preocupa com as bebidas mas deixa essas cadeiras horríveis acumularem sujeira! - Diz Davi com uma careta.

- Pois é, Samuel! Uma faxina não faria falta nenhuma! - Complementa Marcela.

- Fique à vontade, moça. Lá em baixo tem vassouras e esfregões!

Marcela franze a testa.

- Eu sou sua passageira, não sua faxineira!

Samuel ri, pronto para dizer algo, mas Thiago o interrompe notando que Marcela está olhando torto para o crânio na bancada.

- Samuel, realmente ficou bem original esse ambiente, mas me diz uma coisa, que negócio é aquele ali? - Ele aponta para o crânio.

- Isso? - O piloto volta ao bar e pega o artefato. - Bem, isso é o que sobrou do antigo dono do Lobo do Deserto, Mike Constanza, um grande piloto e meu amigo pessoal.

- Tá. Mas por que você tem o crânio dele aqui? E por que tá assim dessa cor? Não acha um tanto... mórbido? - Pergunta Davi.

- Tá assim porque eu cromei ele, para durar mais, entende? E também lustro regularmente, por isso está tão vistoso!

Os jovens se entreolham. Marcela coloca seu copo sobre uma das mesas.

- Que estranho, perdi a sede! Mas obrigada pela bebida.

Samuel dá um boa olhada nos três, então solta uma garalhada.

- Vocês da cidade são mesmo uns frescos! - ele dá de ombros, voltando pela escada em caracol.

- Ei, cara! Espera aí! Não vai nos contar mais sobre o Mike? - Questiona Davi. A voz do piloto vem abafada, ele já está no andar de baixo:

- Por enquanto, não!

Os três então descem pela escada, se movendo com cuidado pois os degraus são bem curtos e não oferecem boa sustentação.
No andar de baixo existe um compartimento retangular, não muito largo, onde em um lado a parede é repleta de monitores de video e consoles de comando, mas apenas um dos monitores está recebendo sinal, exibindo um desenho em duas dimensões do Lobo do Deserto visto de lado, com um destaque em cor mais brilhante para as rodas, sendo seis ao todo, duas na parte de frente e as outras quatro na parte de trás, bem embaixo do compartimento onde eles estão agora.

Oito cadeiras preparadas com cintos de segurança em duas filas de quatro, rente as paredes laterais, servem de assentos para os passageiros. Maestro está sentado do lado da parede dos monitores, enquanto Bel está na cadeira oposta a ele. Samuel passa apressado entre os dois.

- Estou indo para a cabine, vamos partir imediatamente.

- Até que enfim! - Responde Bel.

Antes de passar pela porta que leva ao compartimento de cargas ele se vira para o grupo:

- Vocês três aí, tomem seus lugares e coloquem os cintos de segurança, ah, e não se preocupem que não vão ficar entediados, eu sei que vocês jovens ficam entendiados muito rápido - ele faz uma negativa com a cabeça. - Vocês poderão ver tudo que se passa lá fora através das câmeras de video, já já elas vão começar a transmitir. E por favor, deixem o Mike no lugar dele! Fui!

- Mike? Quem é esse? - Bel questiona.

Os três recém chegados se entreolham, Marcela solta um risinho.

- Fica tranquila, Bel, em breve você vai saber quem ele é! - Responde Thiago, divertido.

Alguns minutos depois, um forte estrondo faz todo o veículo tremer. Os monitores então começam a transmitir várias imagens do ambiente externo, mostrando no lado esquerdo um outro striker, e no lado direito o ambiente interno da garagem, repleto de trabalhadores que observam as máquinas. Na câmera frontal eles podem ver a imensa porta da garagem se abrindo. Mais um estrondo e então o veículo começa a se mover. O som de um bate-estaca em ritmo lento preenche o ar, e, a medida que o striker ganha velocidade, o bate-estaca se acelera. Marcela olha para os monitores e reconhece o lugar, as casas destruídas, as poças de piche, mas ao invés de corpos carbonizados ela pode ver as pessoas olhando para o Lobo do Deserto, pessoas vestidas com capas negras e usando máscaras de gás; uma névoa escura impede que o sol chegue até lugar. “A nuvem tóxica! Ela se expandiu!”, pensa a engenheira, assombrada pelas lembranças.

Então a voz de Samuel sai dos alto-falantes presos no teto:

- Senhores passageiros, bem vindos ao Lobo do Deserto. Estamos deixando a Zona de Exclusão e em breve vamos entrar nas terras ermas, não se preocupem, logo logo essa fumaça vai sumir e vocês poderão apreciar a paisagem. Nossa viagem para o Brasil deve levar em torno de doze horas, pois vamos parar em Nova Esperança para descarregar. Boa viagem e que Deus nos acompanhe!

O veículo então acelera ainda mais. Num dos monitores, Thiago observa a velocidade subindo para cento e vinte quilômetros por hora.

- Aí, pessoal, tem outro striker atrás da gente! - Diz Davi apontando para o monitor que exibe as imagens da câmera traseira.

- Sim, e logo vai aparecer outro à nossa frente, é normal, eles andam em comboio, é bem mais seguro desse jeito. - Responde Maestro.

Bel mantém os olhos fixos na imagem da câmera traseira, Thiago percebe.

- Esses strikers são bem intimidadores, não acha?

- O quê? Não, não estou olhando para ele, estou esperando a gente sair da névoa.

- Mas por quê?

- Eu quero ver a cidade! - Bel se agita - Olha! Saímos da nuvem! Maestro, acho que dá para ajustar a câmera e ampliar a imagem, num angulo mais aberto, você pode ver se consegue fazer isso, por favor?

- Ora essa! E por que você não faz isso com seus “poderes”, Bel? - Questiona Davi.

- Ela não pode. Tudo aqui é analógico e de antes da revolução.Toda a tecnologia wireless foi removida para evitar o ataque de hackers. - Responde Maestro, se voltando para um console de comandos.

- Achei o controle, um minuto, Bel. Pronto, é assim que você queria?

A câmera executa um zoom de saída, ampliando em muito o ângulo da imagem. O striker que segue atrás do Lobo do Deserto fica pequeno, e por trás dele uma parede negra cresce horizontalmente, bloqueando qualquer visão dos prédios da Zona de Exclusão, é a núvem tóxica, porém, atrás dela uma parede de arranha-céus se ergue, formando uma muralha de vidro que reflete os raios de sol. Milhares de pontos negros serpenteiam pelo céu na frente dos imensos prédios, e outros aceleram em direção a estratosfera, produzindo rastros vermelhos instantâneos.

- Caramba, é Vix! Nossa, nunca tinha visto a cidade por esse angulo! - Diz Davi, impressionado.

- Ela é linda! - Afirma Marcela.

Por um momento todos vislumbram a grandiosidade da cidade, que contrasta fortemente com a nuvem negra de gases tóxicos.

- E a gente nunca mais vai poder voltar para ela. - Lamenta Thiago.

Bel suspira, seus olhos ficam um pouco vermelhos. Maestro repara, se volta para ela.

- Algum problema, Bel?

- Não, nenhum. - Ela se joga no encosto da cadeira - É que foi lá que passei toda a minha vida, pelo menos a vida que a corporação escolheu para mim. Não sei por que, mas me sinto estranha ao deixar a cidade para trás.

- Yagami, isso é normal, e acredite, é uma coisa boa! - Diz Maestro.

- Yagami?! - É esse é o seu sobrenome, Bel?

- Sim, por quê? Algum problema, Marcela?

- Ah, não, problema nenhum! Só uma curiosidade, mas depois de falo…

Davi e Maestro olham para Marcela por um segundo; o biohacker coça o queijo.

- Você tá sabendo de alguma coisa, loirinha?

- Sei de nada não, Davi. Fica na sua!

- Então depois você nos conta, certo, Marcela?

- Claro, Maestro, é só uma curiosidade...

Então o striker engata outra marcha, aumentando ainda mais a velocidade e entrando em um declive, o choque dos eixos frontais com o chão de terra produz um solavanco dentro do veículo, fazendo com que todos se segurem nos braços das poltronas. Logo a imagem da cidade-estado começa a desaparecer, sendo substituída por uma paisagem repleta de árvores mortas e terreno seco.

Ansiosa, Bel solta o seu cinto de segurança e se levanta, se aproximando do monitor e ficando ao lado de Maestro.

- Adeus, Vitória. - ela diz enquanto o striker desce ainda mais o declive e a ponta do último arranha-céu some do monitor.

https://www.facebook.com/engenhariareversalivro

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André Luis Almeida Barreto
Aspirante a escritor, inquieto por natureza, ainda tenho vontade de mudar o mundo ou pelo menos colocar um monte de gente para pensar. Viciado em livros, games, idéias loucas e sempre procurando coisas que desafiem minha imaginação.

13 comentários em "[Bookserie] Engenharia Reversa: Parte XIX - Adeus, Vitória"

  1. Nossa, comecei a ler o post, e parei, pois estava perdida, irei ler as outras partes hahahah, pelo visto é bom, espero gostar.
    Beijos *-*

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  2. Ainda não comecei a ler essa Bookserie, creio que seja legal, por este post e outros que já li, mas não tenho muito tempo e nunca li uma Bookserie. Mas assim que puder pretendo ler.

    Abraços :)

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  3. Fiquei interessada em ler tudo! Mas preciso de tempo. kkk

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  4. Oi André!
    Aaain! Ainda não consegui ler acredita!
    Tá cada vez melhor!!
    ;)

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  5. Deia uma parada na leitura dessa série, mas assim que tiver tempo começarei a ler novamente.

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  6. É a primeira vez que sou apresentada a um Bookserie. Mas vou ler os posts anteriores pra não ficar meio perdida na história. De todo caso, gostei da premissa e volto pra comentar com uma opinião já formada.
    Beijos!

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  7. Oi.
    Vou pesquisar os posts anteriores,com as outras parte, para não ficar perdida na história. Mas com certeza está incrível, parabéns. A premissa é super interessante. Abraços.

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  8. Olá,André
    Bom ver novamente o Engenharia Reversa por aqui =]
    Novo ambiente,novos rumos para a história.

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  9. Leituras dos capítulos em dia e curiosa para saber o que vai acontecer quando Bel e os outros chegarem finalmente no Basil...

    Ps: amei a cena com o crânio do Mike rsrs.

    Abraços!

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  10. eu estava sentido falta da série, estou adorando (tudo bem q eu tenho a leve impressão q eu perdi alguns cap)
    nem sei o q dizer do "mike", adorei ;)

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  11. eu estava sentido falta da série, estou adorando (tudo bem q eu tenho a leve impressão q eu perdi alguns cap)
    nem sei o q dizer do "mike", adorei ;)

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  12. Oiii
    Estou com alguns capítulos atrasados, mas assim que tiver tempo vou colocar a leitura em dia!
    Bjs

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  13. Gostei bastante, fiquei meio perdida, preciso ler a parte anterior kkkk Mas amei a escrita, muito fluida e gostosa.
    Eu amoooo livros com escritas fluidas, arrastadas não são pra mim kkkkk já vou curti a página no face!!
    bjão

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