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27.7.16

Só Garotos [Patti Smith]

Patti Smith
Ed. Companhia das Letras, 2010 - 260 páginas:
      Crescida numa família modesta de Nova Jersey, Patti trabalhou em uma fábrica e entregou seu primeiro filho para adoção, antes de se mandar para Nova York, com vinte anos, um livro de Rimbaud na mala e nada no bolso. Era o final dos anos 1960, e Patti teve de se virar como pôde: morou nas ruas de Manhattan, dividiu comida com um mendigo, trabalhou e dormiu em livrarias e até roubou os colegas de trabalho, enquanto conhecia boa parte dos aspirantes a artistas que partilhavam a atmosfera contestadora do famoso “verão do amor”. Foi então que conheceu o rapaz de cachos bastos que seria sua primeira grande paixão: o futuro fotógrafo Robert Mapplethorpe, para quem Patti prometeu escrever este livro, antes que ele morresse de AIDS, em 1989.

Onde comprar:

Vivendo a mil, com a morte nos calcanhares

Um livro não ficcional tende a ser de leitura mais lenta, geralmente sem muitos ganchos. A leitura fica ainda mais lenta se o biografado não for alguém conhecido ou que você não seja fã. É o caso deste livro. Patti Smith me era uma completa desconhecida, que a princípio confundi com a herdeira Patty Hearst, neta de um famoso magnata da imprensa, que se apaixonou por seu sequestrador (síndrome de Estocolmo).

Passada a fase da confusão e do estranhamento, me vi diante de um livro belíssimo, uma história de cumplicidade, de amor carnal e de amor à arte – Só garotos ( Companhia das Letras, 280 páginas ) é poesia em prosa, ou seria prosa poética, não sei ao certo, mas o que importa é que é puro sentimento, com uma capa de encher os olhos.

A narrativa, algumas vezes melancólica, lembra uma elegia, testemunha a vida improvável de um casal ligado pela arte e pelas almas, um corte exposto sem sofrimento. O livro é de Patti Smith , sobre ela e o fotógrafo Robert Mapplethorpe, uma homenagem póstuma ao artista que lhe abriu o mundo artístico e lhe ensinou sobre ele. Um tributo, uma declaração de amor.

“Foi o verão em que Coltrane morreu. O verão de “The Crystal ship”. Crianças com flores erguiam as mãos vazias e a China lançava sua bomba H. Jimi Hendrix punha fogo na guitarra em Monterey. A rádio AM tocava “Ode to Billie Joe”. Havia rebeliões em Newark, Milwaukee e Detroit. Foi o verão de Elvira Madigan, o verão do amor. E nessa atmosfera mutante, inóspita, um encontro casual alterou o rumo de minha vida. Foi o verão em que conheci Robert Mappelthorpe.”

Este encontro aconteceu logo após Patti se mandar para uma Nova York fervilhante, apenas com um livro de Rimbaud na mala e sem dinheiro no bolso. Era a coragem de alguém que busca incessantemente pelo sonho, sem planos, sem destino, sem juízo, só inocência.

“Como se fosse a coisa mais natural do mundo, ficamos juntos, só saindo do lado um do outro para trabalhar. Nada foi dito; apenas mutuamente compreendido.”

A arte estava sempre em primeiro lugar, mesmo que isso custasse o pouco que tinham ou que não tinham, já que o furto era justificado e praticado em nome da arte:

“Nosso primeiro inverno juntos foi duro. Mesmo com meu salário melhor... tínhamos muito pouco dinheiro. Tantas vezes parávamos na esquina gelada da St.James Place com um olho no restaurante grego e outro na loja de materiais de arte do Jake, decidindo como iríamos gastar nossos últimos dólares – tirando na moeda dois sanduíches de queijo quente ou material de pintura. Às vezes, incapaz de ver que a fome era maior, Robert ficava olhando nervoso para o restaurante, enquanto eu, tomada pelo espírito de Genet, embolsava o necessário apontador de latão ou lápis de cor. Eu tinha uma visão mais romântica a respeito da vida de artista e dos sacrifícios. Li uma vez que Lee Krasner chegou a roubar material de pintura para Jackson Pollock. Não sei se isso é verdade, mas me serviu de inspiração. Robert se corroía por não ser capaz de nos sustentar. Eu dizia para ele não se preocupar, que o compromisso com a grande arte é a própria recompensa.”

O mundo artístico girava em torno de Andy Warhol e todos queriam ser e estar com ele. Robert não era diferente, invejava a arte de Warhol e achava que tinha qualidades superiores. A todo momento, Patti e Robert trombavam com mitos ou pessoas que se tornariam mitos:

“Pensava em como aquele saguão era um portal mágico quando a pesada porta de vidro se abriu, como que escancarada pelo vento, dando passagem a uma figura familiar com uma capa preta e escarlate. Era Salvador Dalí. Seus olhos percorreram o saguão nervosamente... Botou a mão elegante e ossuda no topo da minha cabeça e disse: “Você parece um corvo, um corvo gótico.”

Tudo isso impressionava Patti, mas não a deslumbrava. Ela era forjada para negar o status quo, uma ovelha negra pronta a explorar o mundo criado pelas imagens de Robert:

“Lembro de passar com minha mãe olhando vitrines e perguntar por que as pessoas não chutavam e quebravam aquilo. Ela disse que existiam regras implícitas de comportamento social, e que era assim que as pessoas conviviam. Lembro que na hora me senti confinada diante da ideia de que nascemos em um mundo onde tudo já foi mapeado pelos outros antes. Lutei para reprimir impulsos destrutivos e, em vez disso, trabalhei impulsos criativos. Ainda assim, a pequena inimiga das regras dentro de mim não morreu.”

Você pode não conhecer Patti Smith , como eu não a conhecia, mas ela conviveu e compartilhou da vida de quem realmente “aconteceu” nos anos 60 e 70, artistas que influenciaram e influenciam corações e mentes, seja na prosa, poesia, música, pintura, fotografia: Morrisson, Janis, Hendrix, Lou Reed, Warhol, Dalí, entre tantos outros. É o arquivo vivo de uma geração. Viveu intensamente e sentiu a tristeza de perder um pedaço de si para a AIDS:

“Partir é sempre lancinante. Eu vivia assombrada pela ideia de que se eu ficasse por perto ele sobreviveria. Mas, ao mesmo tempo, às voltas com uma resignação cada vez maior. Senti vergonha por isso, pois o próprio Robert vinha lutando com se pudesse sarar só com sua força de vontade. Tentara de tudo, de ciência a vodu, tudo menos rezar. Isso, pelo menos, eu poderia lhe fornecer em abundância. Rezei por ele incessantemente, uma oração desesperada. Não por sua vida, ninguém podia livrá-lo desse destino, mas para que ele tivesse força de suportar o insuportável.”

É um livro imprescindível a todos aqueles que cavam sua felicidade em meio a intempéries, solidificando sonhos, vivendo plenamente o amor. Patti construiu seu caminho e tem propriedade para falar sobre tudo isso. Leiam o livro, ouçam “Because the night”, parceria com Bruce Springsteen. Deleitem-se! Como diria Chico César: “o carneiro sacrificado morre, o amor morre, só a arte não”.

 Cortesia da Editora Companhia das Letras
Rodolfo Luiz Euflauzino
Ciumento por natureza, descobri-me por amor aos livros, então os tenho em alta conta. Revelam aquilo que está soterrado em meu subconsciente e por isso o escorpiano em mim vive em constante penitência, sem jamais se dar por vencido. Culpa dos livros!
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24 comentários em "Só Garotos [Patti Smith]"

  1. Confesso que não costumo ler esse tipo de livro. Não curto muito biografias e esse tipo de enredo não me cativa. Contudo, achei muito interessante a sua resenha. E me vi, ligeiramente curiosa com esse livro.
    Só Garotos parece ter uma incrível aura artística.
    Nunca tinha ouvido falar em Patti Smith e sou totalmente leiga sobre os artistas que influenciaram nos anos 60 e 70. Talvez seja uma ótima oportunidade de saber um pouco mais sobre eles.
    Abraço!

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  2. Nossa Rodolfo que livro lindo! Nunca tinha ouvido flar dle, fiquei morrendo d vontade de ler e saber mais sobre a história de Patti! História tão triste mas que me cativou por ser tão real...Adorei a resenha!
    Bjs!

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  3. Caro amigo, começo confessando que nunca li biografia alguma, apesar de ter muita curiosidade. Esse género ainda é muito novo pra mim e fico preocupado por esse mesmo motivo citado na resenha. Não sei se eu saberia apreciar algo escrito sobre alguém se eu não conhecesse esse alguém. Mas minha curiosidade não me deixa em paz. Ainda quero me aventurar. Esse livro em questão já li muita coisa e até já fui atrás de informações mais profundas sobre a vida da Patti. Curioso fiquei, mas incentivado mesmo, acredito que ainda não tinha ficado. Depois de algumas resenhas e mais ainda depois dessa sua, me vejo de mãos atadas e só tendo que aceitar que realmente preciso ler.
    Uma coisa interessante é que se pararmos para observar com mais atenção o enredo, até achamos algo irônico, não sei se vc concorda. Não desrespeitando os fãs, mas acho que esse foi o ponto crucial para acender meu desejo pelo livro. Veja bem. Isso de o marido dela morrer de aids e que durante o relacionamento de ambos ele descobrir ser homossexual, não são algo como fictício? Isso aguçou minha curiosidade, quero mergulhar nesse livro e saber muito mais. Já falei que amo livros assim mais fortes, maduros e realístico, esse me chama o tempo todo. Uma pergunta amigo. Vc acompanha booktubers? Bom, tô muito viciado nesses canais que conheci a pouco, e vi uma resenha da Tati Feltrin sobre esse livro alguns meses atrás e ele também adorou o livro. Seria muito bom se vc assistisse a resenha dela. Bom, belissima resenha amigo, mais um pra minha conta aumentar, kkkk. Abraços.

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  4. Adorei a resenha e realmente me deu vontade de ler, parabéns, Rodolfo. Vou procurar o livro!

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  5. Não fiquei muito empolgada para ler esse livro, mas possa ser que eu dê uma chance.

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  6. Rodolfo, sou chegada a uma biografia, me entrego e confio no autor. Ainda que aqui seja uma visão unilateral, ainda é algo novo para mim, outra vida recheada de emoções e coragem de colocar tudo no papel. Palmas! Sinto-me ainda mais tentada quando a personalidade é bem oposta - ou bem distinta - à minha. Eis um caso, "a pequena inimiga das regras" me fisgou - logo eu, a amiga número um delas (não sem protestar contra essa minha inclinação passiva). O fato é que a ousadia me encanta. Sair e ganhar o mundo, perdendo alguma coisa todo dia (privações) para ganhar outras (liberdade, seja bem-vinda) é mesmo um passo grandioso. Há uma idade para isso, ainda creio, quando estamos começando a tomar as rédeas da vida e esta, a vida, se apresenta tão sem fim nesse comecinho que posso ouvir Renato Russo fazendo a trilha sonora: "temos todo o tempo do mundo". Depois as responsabilidades vão cobrando o preço de sermos adultos e fazermos escolhas, então... Gostaria de ter colocado uma mochila nas costas e me aventurado mais, mas não é o momento de cantar outro refrão aqui, haha (ouço "Epitáfio" agora).
    Como Patti se saiu bem! Como circulou em ambientes interessantes, conheceu pessoas incríveis, viveu seu amor! Perguntemos a ela se valeu a pena... o livro faz esse balanço no final? Com todas as dores e as alegrias, posso apostar que ela faria tudo outra vez.
    Adorei sua resenha! Como sempre, plantou uma vontade enorme de correr pro livro e uma curiosidade gigante pela personagem. Belas palavras, mais um que vou dedicar toda a atenção.

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  7. Olá Rodolfo!!
    As vezes me pergunto onde você "cava"esses livros!!Há vários livros que eu acabei conhecendo através das suas resenhas.Esse livro é um deles.Nunca tinha visto um comentário sequer sobre o mesmo.Não costumo ler biografias(exceto a do King e a Agatha Christie né ehehe)mas ainda assim achei bem interessante esse livro.
    A resenha está "supimpa"como todas as outras que você faz!
    Grande abraço!

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  8. Você já me conhece bem sabes que não sou fã de livros não-ficção, mas não significa que fico de fora de noticias sobre tudo e todos no mundo, a curiosidade fala mais alto. Assim como você, nunca ouvi falar de Patti Smith, e foi através de sua resenha que tomei conhecimento dessa historia de vida um tanto trágica e cheia de exemplos.
    Como sempre, ótima resenha meu amigo.
    Bjo no coração
    Ni

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  9. Oi Rodolfo!
    Que resenha maravilhosa! Quero muito ler esse livro. Lembro que eu tinha 17 anos, quando ouvi a música People Have the Power da Patti Smith. Fui correndo comprar o disco e desde então, não parei mais de ouvir as músicas dela.
    Esse é um livro que faço questão de ler.

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  10. Não conhecia Patti Smith,mas só pela resenha dá pra ver a vida agitada dela,as pessoas do mundo artístico que ela teve contato..não consigo nem imaginar!

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  11. Tb nunca tinha ouvido falar na moça, rsrs. Mas a sua resenha nos pinta uma moça tão cheia de vida e que época maravilhosa para se viver!!! *-*
    Também não sou chegada em biografias mas vai para a lista de leitura.

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  12. Olá, Rodolfo.
    Não conheço a Smith, mas a sua resenha me fez despertar o interesse pela obra. Gosto de uma prosa mais poética e a história de vida dessa mulher, e seu envolvimento amoroso, parecem ser belíssimos. Sem dúvidas, vale a pena ler um pouco mais sobre ela.
    Darei uma chance.

    Desbravador de Mundos - Participe do top comentarista de julho. Serão quatro livros e dois vencedores!

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  13. Olá!
    Ótima resenha, muito bem elaborada e clara com as palavras a respeito da obra. Não conhecia Patti Smith e para ser sincera, não tenho interesse no livro, apesar de ver, por suas palavras, que é uma obra bem interessante. Mas deixo passar a dica. Obrigada. Abraços.

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  14. Nunca tinha ouvido falar de Patti Smith e sinceramente Só Garotos não faz meu estilo de leitura, não curto biografias.

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  15. Nossa Rodolfo, acho que você se superou nessa resenha. Linda. Os quotes do livro aqui apresentados nos deixam com água na boca. Gosto muito deste tipo de leitura biográfica, apesar de quase não ler. Ela retrata uma época mágica, que para mim foi a responsável pela liberdade de expressão. Eu só fiquei curiosa com o nome do título e como ele pegou aids.
    abraços
    Gisela

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    1. Verdade, Gi. Por que Só Garotos, Rodolfo?

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  16. Oiiii
    Amei a resenha apesar de não gostar de biografias.
    Bjs

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  17. Tenho lido biografias e gostado bastante, sempre consigo retirar algo bom da leitura. Pelos quotes tenho certeza que adoraria a leitura, principalmente por retratar uma época que tenho muita curiosidade. Belíssima resenha.

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  18. Adorei a resenha! Normalmente não leio biografias, acho chato mesmo, mas sua resenha me deixou com muita vontade de ler Só Garotos. Imagino que seja um ótimo livro e pretendo ler assim que puder, mesmo não conhecendo Patti Smith.

    Abraços :)

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  19. eu não sou muito fã de biografias e por mais que vc diga que é poesia não me deu vontade de ler o livro.
    mas, deu vontade de conhecer um pouco do trabalho da Patti Smith
    que dando uma olhada rápida parece que tem um monte de coisa que eu já conhecia, mas não sabia que era dela

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  20. Oiiee, tudo bom?
    Confesso que eu não gosto de biografias hahaha, elas como você disse no inicio da resenha são uma leitura mais lenta, sem muitos ganchos, e sem contar que eu não sou fã de ninguém a ponto de ler uma biografia sobre ele, mas só garotos parece ser algo poético, ainda mais para quem é apaixonada por arte, ainda estou na dúvida se dou uma chance ou não kkkkkkkk.
    Beijos *-*

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  21. Não costumo ler esse tipo de livro, mas sua resenha me deixou animada em dar uma chance. Talvez mais para frente eu leia.

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  22. Confesso que também não leio muitas obras não ficcionais por achar sempre a leitura lenta e por alguns não serem conhecidos, mas essa obra parece ser excelente e encantar logo o leitor, achei a história bacana e tive curiosidade de conhecer bem mais sobre seus membros, uma verdadeira obra de arte

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  23. Não conhecia o livro, mas amoooo biografias, ainda mais as de pessoas que viveram nos anos 60, 70, 80.
    Esse que é voltado pra arte, amor, pareceu-me ser bem emocionante, gostoso de ler, e traz informações sobre outros artistas o que é bem interessante e curioso.
    To aqui me perguntando se o Elvis será citado kkkkk
    Gostei muito, anotado aqui!
    Abraços.

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