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13.2.19

A Entrega [Dennis Lehane]


O demônio que nos habita

Mais uma vez mergulho de cabeça no universo marginal que Dennis Lehane conhece tão bem. O submundo é um mundo paralelo ao nosso, parece não existir, coabita sem que tenhamos acesso. Mas é aí que o autor mostra a excelência de suas palavras, de seus diálogos cortantes, malandros e perfeitos.

Em A entrega (Companhia das Letras, 182 páginas) Lehane nos brinda com personagens verossímeis que carregam seus fantasmas como se arrastassem pesadas correntes atrás de si. Como se isso não bastasse há mistérios a serem resolvidos que torna a leitura muito saborosa.

Título: A Entrega
Autor: Dennis Lehane
Tradutor: Luciano Vieira Machado
Editora: Companhia Das Letras
Gênero: Policial, Suspense e Mistério
Páginas: 182
Edição:
Ano: 2015
Onde comprar: Amazon

Bob é um cara bom, ponto. Compassivo, tímido e solitário. Isso fica bem claro nas primeiras linhas deste livro. Frequentador da igreja, vai à missa religiosamente, à mesma paróquia que seu pai frequentou, mas nunca comunga. Como alguém tão religioso não haveria de comungar? Isso é que também se pergunta o detetive de polícia Torres.

“Você tem tanto amor em seu coração”, disse padre Regan a Bob quando ele desandou a chorar durante a confissão... Como falar a um homem de Deus sobre o mundo de um homem? Bob sabia que o padre tinha boas intenções, sabia que, em teoria, ele estava certo. Mas a experiência mostrara a Bob que mulheres viam o amor em seu coração, certo, mas simplesmente preferiam um coração com um estojo mais atraente à sua volta...

Cena do filme "O golpe" - Bob (Tom Hardy), Nadia (Noomi Rapace) e o cãozinho
Bob é um cara simples, comum, praticamente invisível como um bom bartender deve ser. Trabalha em um bar pra lá de suspeito seguindo ao pé da letra o lema: “mantenha a porra da boca fechada”, isso conserva os dentes e a vida. É um bar de fachada, que já teve seus dias de sucesso, mas que agora não passa de mais um lugar para lavar dinheiro sujo para a máfia chechena.

Certa manhã sua atenção é despertada por um barulho diferente e ele sai em busca do tal som. Depara-se com um cão jogado dentro da lata de lixo e sua vida a partir de então começa a tomar um rumo inusitado, pois neste mesmo dia conhece Nadia e unidos passam a tomar conta do cãozinho.

“Bob teve que remover algumas coisas para chegar a ele – um micro-ondas sem porta e cinco grossas Páginas Amarelas, a última de 2005, empilhadas em cima de roupas de cama manchadas e travesseiros mofados. O cão – ou muito pequeno ou então um filhote – estava no fundo, e enfiou a cabeça no torso quando a luz o atingiu. Ele emitiu um leve som de lamento e contraiu o corpo ainda mais, os olhos tão fechados que davam a impressão de linhas. Uma coisa esquelética. Bob via suas costelas. Viu também uma grande crosta de sangue seco próximo ao ouvido (...)”

Tudo parece caminhar perfeitamente bem, com Bob e Nadia cada vez mais ligados, mesmo com a implicância de seu primo Marv que não entende seu apego ao cão. Mas o destino traz de volta Eric Deeds, ex-namorado de Nadia, sujeito estranho que se diz dono do cão e o quer de volta. A frase do encontro entre Deeds e o cão é de encher os olhos: “Alguma coisa na estrutura do mundo acabava de ser danificada”. Recém saído da prisão com pitadas de psicopatia de alguém que sofreu horrores enclausurado, carrega a suspeição de um assassinato que não se preocupa em negar. Mas Bob não irá entregar o cão assim tão facilmente.

“Quando alguém toma alguma coisa de você, e você permite, não fica grato, simplesmente acha que você lhe deve algo mais.” Ele umedeceu o pano no balde, torceu-o um pouco e jogou-o sobre a poça de sangue maior. “Não faz sentido, certo? Mas é assim que eles sentem. Cheios dos direitos. E depois disso você nunca mais vai conseguir fazê-los mudar de ideia.”

Cena do filme "O golpe" - encontro de Bob (Tom Hardy) e Deeds (Matthias Schoenaerts)
Como o que é ruim pode piorar ainda mais, é o que acontece. Certa noite há um assalto no bar e o dinheiro que deveria ser entregue aos chechenos é roubado (um dinheiro que não pertence ao bar, mas à máfia, que fique bem claro). Agora Bob entra em rota de colisão com Deeds, seu primo Marv e a máfia, sem contar que seu coração começa a bater descompassado por Nadia.

Os mafiosos começam a caçar os suspeitos do assalto e desconfiam que houve ajuda de dentro do bar. A violência é naturalmente explorada para atemorizar e servir de exemplo a quem os contraria

“Dois chechenos corpulentos feito geladeiras dotadas de pés humanos, de ambos os lados de um sujeito suado e magro. O magro estava vestido como um operário da construção civil – camisa xadrez por cima de calça térmica acastanhada. Eles o tinham amordaçado com uma tira de algodão e enfiado um pino de metal de umas seis polegadas em seu pé direito, descalço, a bota caída ao seu lado, a meia apontando da bota. A cabeça do cara tombou, mas um dos chechenos puxou-lhe os cabelos e encostou um frasquinho cor de âmbar sob seu nariz. O cara inspirou um bocado, seus olhos se abriram, e ele ficou totalmente desperto enquanto o outro checheno usava uma chave de mandril para apertar melhor a broca numa furadeira.”

Cena do filme "O golpe" - Bob (Tom Hardy) e seu primo Marv (James Gandolfini)
E é neste enredo vertiginoso que Bob é arremessado. Várias são as frentes de combate. E ele terá que enfrentar também a desconfiança cada vez maior do detetive Torres (que considera seu novo caso a única chance de se redimir por um erro do passado) de que o assassinato de um frequentador do bar pode não ter sido obra de Deeds, mas de um cara pacato que gosta de rezar, mas não de comungar.

O lado oculto de uma cidade esconde segredos que só os iniciados têm acesso. É sempre assim, a aura de paz que a envolve não passa de uma cortina de fumaça para não afastar os incautos. Toda cidade é governada pelo submundo.

“As cidades”, disse certa vez se pai a Bob, “não são governadas do edifício do Capitólio. Elas são governadas do porão. Sabe qual a Primeira Cidade? Aquela que você vê? São as roupas que eles põem por cima do corpo para lhe dar uma aparência melhor. Mas a Segunda Cidade é o corpo. É onde eles fazem as apostas, vendem mulheres, drogas e coisas, tipo TVs, sofás, que os trabalhadores podem comprar. O trabalhador só ouve falar da Primeira Cidade quando ela está fodendo com ele. Mas a segunda cidade está à sua volta em todos os dias de sua vida.”

Lehane conhece o submundo como ninguém, já trabalhou com isso antes de se tornar escritor. Ele pode ter problemas com os contos (ou seria eu que os tenho, não sei), mas no romance ele é o cara, mesmo em romances curtos como este, quase uma novela. Seus romances são tão densos que seria difícil cortá-los com faca.

“(...) As pessoas... não sei, fazem um monte de bobagens e fazem mais outras tentando apagar as primeiras. Depois de algum tempo, a vida delas se resume a isso.”

Este me parece ser o resumo de uma vida. Quanto mais bobagens fazemos, mais nos enrolamos. Este não é tão bom quanto “Sobre meninos e lobos” (seu ponto mais alto como escritor), mas é um bom começo para quem ainda não conhece sua escrita. As imagens são do filme baseado neste livro bastante elogiado pelas atuações de Hardy e Gandolfini.

Vida longa a Lehane!

comentários pelo facebook:

22 comentários em "A Entrega [Dennis Lehane]"

  1. Sobre Meninos e Lobos é um ícone tanto no cinema, quanto na literatura! E digo sem nem precisar me questionar, considero ambos maravilhosos e sem sombra de dúvidas, estão ali,bem na frente como os melhores!
    Ainda não li este trabalho do autor e confesso que nem vi este filme também baseado na obra,mas como fã do gênero, gostei demais de tudo que li acima.
    Certamente vou procurar o filme e se tiver oportunidade, conferir o livro também.
    Esse submundo muito me interessa!
    Beijo

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    1. cara Flor, "sobre meninos e lobos" é um de meus queridinhos, livro maravilhoso, uma escola para quem quer escrever um bom policial. leio tudo que vejo de Lehane, poucos me decepcionaram. se o submundo lhe interessa, então este é o autor. bjos

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  2. Não é um gênero que me deixa entusiasmada, mas eu achei muito interessante como o autor conseguiu transmitir tanto em tão poucas páginas.
    Me parece que tem uma mensagem belíssima.

    Beijos

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    1. cara Ludyanne, que bom que o enredo chamou sua atenção. não diria que a mensagem é bela porque no mundo cão não tem muita coisa para se trazer alegria, mas é sim uma história saborosa. bjos

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  3. Oi Rodolfo,
    Nunca imaginaria que um livro tão curto apresentasse uma história tão completa. Trabalhar com o submundo, mas especificamente a máfia requer muito conhecimento e descrição de detalhes que tornem a história crível e envolvente. Bob é o tipo de personagem certinho demais, e que por um golpe do destino se vê envolvido em uma grande confusão. O detetive Torres tem suas teorias, mas sua motivação é pessoal demais para permitir que ele aja com clareza. Já vi esse tipo de atitude antes e nunca termina bem, nem para o suspeito e nem para o responsável pela investigação. Não conheço a escrita de Dennis Lehane, mas já assisti Sobre Meninos e Lobos e é uma história incrível e por isso, acredito que vale a pena dar uma chance ao autor.

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    1. cara Gislaine, também pensei que seria apenas uma noveleta dessas pra gente passar o tempo. mas Lehane nunca nos deixa na mão - Bob "parece" todo certinho, mas por que não comunga na igreja? ahaaaa não vou abrir o jogo aqui. vale muuuuito a pena ler este livro e se você conhece "sobre meninos e lobos", sabe muito bem o que estou dizendo.

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  4. "Sobre meninos e lobos" está na lista a hora e como assisti o filme a algum tempo, sei que o livro será mais impactante, ou seja, há um tempo certo para ler. Quanto "A entrega" realmente fiquei confusa, o que antes parecia um livro denso, sombrio devido ao ambiente do submundo, passou a ser "fofinho" ver dois personagens se unirem para o bem estar de um cachorro ahahahahha, confuso ne? Mas como não conheço a escrita do autor, vou me basear nos teus comentários. Gostei da trama do cara pacato e boa gente que vive num mundo paralelo, já assisti filmes assim, livro ainda não, e geralmente o suspense é de tirar o folego. Espero que tenha um fundamento na desconfiança do detetive Torres, dando uma reviravolta na historia e como sou péssima em desvendar finais, vou ficar na expectativa até o final. Gostei de dica.

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    1. cara Fabiana, tanto o filme quanto o livro são geniais, o filme traz a visão do diretor, o livro exige que criemos o nosso mundo, então é sim mais impactante.
      adorei o "fofinho" rsrsr, mas de fofinho este livro não tem nada, basta dar uma olhadinha nos "quotes" que deixei na resenha, é sangue, porrada e bomba, rs. assim como você sou meio tapado, não consigo adivinhar nada, obtuso é a palavra que me traduz. mas vá por mim, leia Lehane, o cara é muito bom.

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  5. Oi Rodolfo,
    Gostei da resenha trazer fotos do filme [own, olha o cachorrinho..não acontece nada com ele, né??rs], não conhecia a obra.
    182 páginas parece uma leitura rápida, mas é interessante ver que é uma trama densa independente do número de páginas.

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    1. cara Helen, que legal ter gostado das fotos, rs. o cãozinho sofre um tiquinho sim, mas ganha uma família legal. não digo mais nada, leia também é volte pra gente prosear.

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  6. Olá Rodolfo!
    O tema abordado no livro sem dúvidas rende muito assunto para um escritor, e o trabalho de Lehane não decepciona ao entregar ao leitor uma trama com ritmo frenético e que não abre mão dos clichés envolvendo a máfia. Cabe ressaltar também que a caracterização dos personagens também está muito bem feita, sendo que é possível para o leitor associar rapidamente as características de cada um, de modo a criar teorias acerca dos próximos acontecimentos.
    Beijos.

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    1. cara Alison, Lehane traz em sua escrita o velho clichê mafioso, mesmo em sua famosa série Kenzie-Gennaro, mas ele ainda assim consegue certa originalidade, provavelmente por sua vivência antes da escrita. obrigado por suas palavras. bjos

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  7. Olá! Esse parece ser uma daqueles livros, que mesmo com poucas páginas, tem muito acontecimentos hein... e aí você não consegue largar o livro enquanto não chega ao final. Bob apesar de querer ser um cara tranquilo, vai atrair a atenção de muitas pessoas de índole questionável, fiquei curiosa para conferir o filme também.

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    1. cara Elizete, o ritmo é vertiginoso sim, poucas páginas para tanta informação, rs. e só pra te deixar mais curiosa - um cara que vive em meio à sujeira, acaba se sujando, rs.

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  8. Olá Rodolfo!
    Não conheço o autor mas pude perceber que ele sabe criar um ambiente verossímel no qual o leitor consegue visualizar os personagens claramente. Dizem que os mais "santinhos" são aqueles que têm mais segredos a esconder, o que justifica o detetive ficar com pé atrás quanto a inocência de Bob. Vou conferir o filme para ter um panorama geral e se gostar leio o livro.
    Beijos

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    1. cara Aline, corra pra ler Lehane, não deixe nenhuma oportunidade passar. adorei sua posição sobre os "santinhos", ou melhor, santarrões né. assista ao filme, leia o livro, você irá se apaixonar. se possível comece com "sobre meninos e lobos", maravilhoso! bjos

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  9. Não conhecia o livro. Fiquei bastante interessado, e já com o coração apertado pelo cão, torcendo para que tenha tido um final feliz. Sobre meninos e lobos eu já vi o filme, e gostei bastante, então é mais um motivo para eu conhecer a obra. Também me interessei pela adaptação. Ótima resnha.

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    1. caro Evandro, se você já conhece Lehane pelo filme então fica mais fácil, nem é preciso explicar muito, o cara manda muito bem. leia também e volte pra gente prosear um pouco mais.

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  10. Não conhecia o livro e nem o autor. Mas, achei que tem muita coisa acontecendo, muitas tramas ao mesmo tempo para poucas páginas. Essa leitura não ficou corrida? Estou tento a impressão de que muitas pontas podem ter ficado soltas.
    Mas parece um livro bem eletrizante. Se o autor conseguiu fechar tudo nessas 182 páginas então ficou perfeito. Gosto de livros assim, que não nos dão tempo de respirar.

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    1. cara Nil, não é demérito não conhecer Lehane, mas não deixe passar um livro dele, vá por mim, ele é muito bom. não ficaram pontas soltas não, é uma noveleta com começo, meio e fim. leia também!!!

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  11. Oi, Rodolfo!
    Eu amo romances mas não curto romances densos, e confesso que a trama de A Entrega não me chamou a atenção, mas nossa, quanta confusão o Bob se meteu, hein?! Coitado...

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    1. cara Any, não é demérito algum não gostar de determinado tema ou mesmo de algo mais denso, há um universo inteiro pra gente beber, então boas leituras!

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