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7.10.19

MaddAddão, Vol. 03 - Trilogia MaddAddão [Margaret Atwood]

Margaret Atwood
Cortesia da Editora Rocco

A reconstrução do mundo

Toda vez que me deparo com a escrita de Margaret Atwood percebo a importância da palavra, a potência da comunicação na criação da vida. Como diz a Bíblia: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus..."

Em MaddAddão (Rocco, 448 páginas) Atwood nos dá uma aula de como se encerrar com chave de ouro uma trilogia que foi se intensificando a cada volume, ampliando horizontes, sobrepondo situações factíveis e assustadoras. Não vejo onde a palavra poderia ter sido tão bem empregada como o foi aqui.

MaddAddão
Título: MaddAddão
Autor: Margaret Atwood
Tradutor: Márcia Frazão
Série: MaddAddão
Editora: Rocco
Gênero: Distópico, Ficção científica
Páginas: 448
Edição:
Ano: 2019
Favorito
Onde comprar: Amazon

No primeiro volume "Orix e Crake" o mundo é vítima de uma pandemia, pensada e criada pelo genial Crake, que também cria humanoides gentis, imunes a vicissitudes próprias do ser humano e possuem envelhecimento retardado. O objetivo era o de que o mundo fosse reiniciado e repovoado apenas por estes seres perfeitos.

“Eles são extraordinariamente bonitos, pensa Toby. Ao contrário de nós. Eles devem achar que somos subumanos com nossas segundas peles a balançar, nossos rostos envelhecidos e nossos corpos deformados, muito magros, muito gordos, muito peludos e encaroçados. A perfeição tem um preço, mas quem paga é o imperfeito.”

Em "O ano do dilúvio", segundo volume da série, Atwood retroage a um período anterior ao da pandemia para explicar o funcionamento da sociedade - o monopólio exercido pela Corps (megaempresa que abarca todos os segmentos, desde alimentos a experiências genéticas) e a luta dos Jardineiros de Deus, uma seita que prega a união entre natureza e religiosidade, contra o status quo.

“(...) O perdão deve ser oferecido, a bondade deve ser praticada, os círculos não devem ser rompidos. Todas as almas significam realmente todas, a despeito do que possam ter feito. Pelo menos do instante em que a lua nasce ao instante em que ela se vai.”

Enfim chegamos a "MaddAddão" que no original é o palíndromo "MaddAddam", outra sacada genial: Adão deu nome aos animais vivos, MaddAddão, o doido Adão, dá nome aos mortos.

Muitas personagens dos romances anteriores são retomadas com destaque para Toby, Zeb e Jimmy, o Homem das Neves. Todos têm seu caminho doloroso a percorrer. Alguns buscam o perdão, outros o amor e há aqueles que buscam apenas não enlouquecer em meio ao caos.

“Um dia Toby e Ren haviam dispensado a segurança da cabana de MaddAddão que abrigava os poucos sobreviventes da pandemia global que dizimara a humanidade. As duas rastrearam Amanda, a melhor amiga de Ren, e a encontraram a tempo porque os dois painballers abusaram tanto dela que já tinham quase acabado com a garota. Toby conhecia a maneira de agir daqueles homens; ela mesma tinha sido quase morta por uns dias antes de se juntar aos jardineiros de Deus. Qualquer um que tivesse sobrevivido mais de uma vez à Painball acabava reduzido a um cérebro reptiliano. Sexo até o esgotamento e você virar um caroço, esse era o método; depois você era o jantar. Eles gostavam dos rins.”

Um trecho como este pode nos remeter à violência desmedida e de certa forma o é. Painballers são ex-prisioneiros das corporações (Corps no centro de tudo) que ganharam o direito de viver após luta sangrenta com outros prisioneiros, como gladiadores modernos. Atingiram o status de lenda e perderam a empatia com a humanidade. Não sentem remorso e não têm nenhum sentimento a não ser a vontade de satisfazer seus instintos mais primitivos.

Reunidos, os poucos sobreviventes têm que se precaver destes monstros em forma humana, dos animais geneticamente modificados e inteligentes que os ameaçam e da falta de alimentos. E é aí que a genialidade de Atwood fala mais alto. Em meio a este turbilhão insensato de catástrofes e perigos, estes abnegados terão que cuidar da nova raça, os Crakers, e domar os sentimentos que têm um pelo outro.

Jimmy se sente culpado pela morte de sua amada e a culpa é como uma bala no tambor de uma arma. A arma é potencialmente letal e pode ser disparada para aliviar o sofrimento. Toby, sempre dura e forte, aparentemente amarga e insensível, vive o sentimento aniquilador do ciúme que a fragiliza e Zeb guarda um segredo (sua ligação com Adão Um, líder do Jardineiros de Deus), carrega as dores do mundo e a esperança de encontrar seu irmão. A violência é colocada em segundo plano e a palavra de ordem é "amor", somente o amor pode salvar. O amor de Jimmy por quem já não existe, o amor de Toby por Zeb e de Zeb por seu irmão desaparecido. O amor das criaturas puras e inocentes, Crakers, que nada sabem e que veneram mitos como Crake e Oryx.

Enfim, este livro trata da reconstrução do mundo, do quanto as pessoas podem suportar o sofrimento e de que a luta pode nos levar a um lugar melhor do que a inércia nos levaria. É preciso ter esperança, é preciso lutar por ela. Como diria o velho Jagger: "Você não pode ter sempre o que quer, mas se você tentar pode descobrir que consegue o que precisa!"

O final é de encher os olhos e por ele dei 5 estrelas com louvor por falta de mais estrelas. O mundo ideal não existe, mas ele pode se tornar um lugar aprazível, basta olhar ao redor e tomar para si improváveis aliados. A crítica mordaz e ferrenha de Atwood é um alerta a todos. Que tenhamos mais seres pensantes como Atwood e que mais e mais leitores a conheçam.

Propositalmente evitei falar do enredo porque não quero tirar de ninguém o prazer deste final.

Se você quiser conhecer um pouco sobre os livros anteriores desta trilogia, clique nas capas para ler as resenhas:


comentários pelo facebook:

11 comentários em "MaddAddão, Vol. 03 - Trilogia MaddAddão [Margaret Atwood]"

  1. Margareth é fantástica não é?
    Só ela para encerrar essa trilogia com chave de ouro.
    Ela consegue escrever sobre tecnologia, genética, humanidade e maldade de maneira ímpar.
    Ela nunca decepciona

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  2. Sou uma fã incondicional do trabalho de Margareth e não vejo a hora de conferir essa trilogia desta mulher que não só apresenta uma realidade infelizmente, mas que também mostra um universo distante e tão perto de cada uma de nós..rs
    E pelo que entendi este livro é como uma redenção não da personagem, mas de todos ali no enredo desde o início.
    O mundo tem salvação, só precisamos acreditar e também fazer nossa parte!
    Beijo

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  3. Rodolfo!
    Impactante, né?
    Não conhecia a série, mas já gostei de ver que mesmo prevendo um futuro (que já é o nosso presente, concorda?) tão cheio de agrura, tem pontos bem interessantes, porque as distopias são sempre muito criativa, cheias de personagens e de alguma forma, trazem críticas aos governos.
    cheirinhos
    Rudy

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  4. Preciso conhecer a escrita da Margaret o quanto antes.
    Pretendo iniciar através de O conto da aia, mas sabendo melhor dessa trilogia, acredito que vou querer ler também.
    Sinto que ela tem uma escrita forte, marcante e com temas necessários sendo discutidos.

    Beijos

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  5. Oi Rodolfo,
    Essa união do real, o fictício e as possibilidades fizeram dessa trilogia algo diferente e muito interessante. Recomeçar algo já faz parte da vida de todo ser humano e não seria tão absurdo pensar em quantas coisas no mundo precisam de um novo começo. Serei honesta contigo e dizer que acho um pouco confuso se inteirar da história só com as resenhas, pois é aquele tipo de trama que precisa ser vivenciada, mas tudo o que descreveu aqui só me deixou mais curiosa. Margaret Atwood é das autoras, que ainda não conheço a escrita, mas que já admiro pela genialidade.

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  6. Olá! Estou bem empolgada para começar a ler essa trilogia, o enredo parece ser daqueles que nos prendem do início ao fim, que nos trará muitas reflexões sobre nossas atitudes, e tenho certeza que será maravilhoso, finalmente, conhecer a escrita dessa autora extraordinária.

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  7. Eu ainda preciso começar a ler esa trilogia, que me parece ser sensacional. Só conheço a escrita da Atwood por O Conto da Aia. E ela é realmente um ser pensante maravilhoso.
    Por tudo o que você falou dos livros, sei que vou me prender muito nessa leitura e mal posso esperar para começar.

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  8. Olá,
    A Margaret é uma escritora maravilhosa. Ela consegue criar universos que nós achamos tão absurdos, mas que estão tão próximos da nossa realidade que chega a ser chocante.
    Ainda não li essa trilogia, mas quero muito, porque essa mulher é incrível.

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  9. Não conhecia a autora, mas o título e o enredo me chamaram a atenção, com certeza irei ler!

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  10. já li O conto da aia, de Margaret Atwood e aprendi que política e religião pode ser uma mistura perigosa,já quero muito ler esse livro e a nova edição do conto da Aia em edição graphic Novel.

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  11. Olá! ♡ Ainda não tive a oportunidade de conhecer a escrita da Margaret Atwood, mas morro de vontade, pois sempre a elogiam por suas críticas muito bem feitas e sua genialidade. A premissa dos livros dela sempre chamam minha atenção.
    A autora parece ter dado um final digno para a história, um final muito bem construído e que agradou os fãs. Acho que a Margaret poderia dar uma aula de como terminar com louvor uma trilogia para certos escritores, que ao contrario dela, estragaram o final de suas trilogias, eu conheço vários kkkk.
    Eu achei muito interessante que o livro trata da reconstrução do mundo, estou bem ansiosa para ver como a autora trabalhou isso na trama.
    Muito obrigada pela indicação, sinto que preciso conhecer a escrita da autora o mais rápido possível! Estou muito curiosa para conhecer o mundo que ela criou nessa tão aclamada trilogia.
    Beijos! ♡

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