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10.2.20

Ascensão [Stephen King]

Stephen King
Cortesia do Grupo Companhia das Letras

A insuportável leveza do ser

Mais uma vez cá estamos nós para uma nova aventura criada pela mente privilegiada do mestre Stephen King. Já não é de hoje que comento minha grande dificuldade com os contos deste escritor, porém nas novelas, ahhh nas novelas, onde temos um microcosmo, um núcleo reduzido de personagens, King é imbatível. Já foi assim com "Rita Hayworth e a redenção de Shawshank" mais conhecido nos cinemas como Um sonho de liberdade; "O corpo" que também foi pra telona como Conta comigo; "Fúria" proibido pelo próprio autor após o massacre de Columbine; "A longa marcha", só pra citar as que me vêm rápidas à mente.

Ascensão
Título: Ascensão
Autor: Stephen King
Tradutor: Regiane Winarski
Editora: Suma
Gênero: Psicológicos Mistério, Thriller e Suspense
Páginas: 128
Edição:
Ano: 2019
Onde comprar: Amazon, Submarino

Em Ascensão (Suma, 128 páginas) voltamos à mística e nada pacata cidade caipira de Castle Rock, palco de "A zona morta", "Cujo", "Trocas macabras" (tida como a última história da cidade), dentre outros. O velho mestre continua fiel ao seu universo e volta e meia retorna a suas cidades prediletas. Nos outros romances temos histórias pesadas, ao contrário deste que nos dá a sensação de leveza, de esperança, por isso é tão diferente do autor que conhecemos e pode causar desconforto aos mais xiitas.

Com um argumento simples, este livro traz Scott Carey, um pacato cidadão solitário (separado de sua mulher) às voltas com um novo projeto de trabalho. Inexplicavelmente começa a ficar mais leve, perder peso. Só que subvertendo à física ele não perde massa. O tema é parecido com "A maldição", outro livro do mestre sob pseudônimo Richard Bachman, que trata da perda de peso, mas aqui o caminho é outro, é político (quanto mais tempo passa mais admiro King em seu envolvimento, sua voz sempre superlativa, seu posicionamento em defesa de minorias marginalizadas e contra o governo Trump, a quem critica abertamente). Intrigado com sua situação Scott busca ajuda de seu amigo médico dr. Bob Ellis, que não é nada animador em seu diagnóstico.

“(...) — Isso não está apenas fora do escopo da minha experiência. Eu diria que está fora do escopo da experiência humana. Ora, tenho vontade de dizer que é impossível. Isso, claro, se as nossas balanças estiverem pesando direito, e não tenho motivo pra achar que não estão. O que aconteceu com você, Scott? Qual a origem disso tudo?”

Embora esta seja uma das principais preocupações de Scott, tem também seu problema com as vizinhas lésbicas que passeiam matinalmente com seus cães que emporcalham seu quintal. Ele procura por elas para resolver a questão, mas é recebido por uma delas de forma agressiva e irônica e não entende o porquê. Até que certo dia ele ouve uma conversa enquanto degusta uma refeição na Lanchonete da Patsy.

“(...) Scott ouviu alguém atrás dele, em uma das mesas, falar alguma coisa sobre "aquele restaurante sapatão". Risadas seguiram o comentário. Scott olhou para o pedaço de torta de maçã pela metade com uma bola de sorvete de baunilha derretendo em volta. Parecia apetitosa quando Patsy a serviu, mas agora ele não queria mais. Será que já tinha ouvido comentários desse tipo e os filtrou, como fazia com a maior parte das conversas que ouvia sem querer e que não eram importantes (ao menos para ele)? Não gostava de pensar que sim, mas era possível.”

Scott começa a se questionar sobre o quanto estaria sofrendo este casal de mulheres numa cidade provinciana e preconceituosa como Castle Rock. A hostilidade da população do qual ele faz parte não é diferente da de muitas que conhecemos e que têm como lema frases tais quais: "Não é comigo, então não vou me envolver", "Em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher", "Em briga de irmão, não se dá opinião".

É preciso se envolver sim, não podemos nos calar diante da homofobia ou qualquer outro tipo de preconceito. E é isso que Scott faz, não sem sofrer consequências. A questão da intolerância é levantada numa conversa despretensiosa que Scott tem com um conhecido. A hipocrisia do julgamento de alguém apenas por ele ser diferente não escapa aos ouvidos do personagem.

“— Nada para se orgulhar. Ela é lésbica. Não haveria problema nenhum se ela ficasse na dela, ninguém se importa com o que acontece por trás de portas fechadas, mas ela tem que apresentar a mulher que cozinha no Frijole como esposa. Muita gente daqui vê isso como um grande "vai todo mundo se ferrar".”

Scott toma a decisão de ajudá-las de alguma forma. O único problema é que o casal é refratário e evita qualquer aproximação. Este obstáculo ele terá que vencer. Sem contar seu problema maior: a perda cada vez mais veloz de peso.
“(...) Estava com medo, seria um idiota se não estivesse. Mas também estava curioso. E alguma outra coisa. Feliz? Era isso? sim. Devia ser loucura, mas era isso. Ele se sentia único. O dr. Bob podia achar que isso era loucura, mas Scott achava que fazia sentido. Por que se sentir mal sobre algo impossível de mudar? Por que não apenas aceitar?”

Não espere explicações para o que ocorre com Scott, porque isso é apenas um mote para a discussão que virá que é sobre a perda da capacidade de se indignar, sobre relações humanas e o quanto podemos ser cruéis com nossos semelhantes apenas por perpetuarmos visões retrógradas. Atualmente, os EUA vivem uma onda de intolerância que não dá sinais de arrefecer e o escritor não é imune ao que ocorre nas ruas e tem o dever de tomar partido, de levantar a voz. King faz isso e faz bem.

Mas é claro que o mestre não se restringiria a uma questão apenas, ele consegue trazer outra que começa a fazer parte de seu dia-a-dia e consequentemente de seus livros: a reflexão sobre a finitude da vida. Na pele de Scott o mestre parece querer resolver pendências antes de partir. Ele quer se tornar um ser humano melhor, mais elevado, quer ascender, afinal a única coisa certa nesta vida é a morte.

“Tudo leva a isso, pensou ele. A essa ascensão. Se é assim que é morrer, todo mundo deveria ficar feliz de partir. ”

Mas não vejamos a morte como algo triste. E não é através da morte que purgaremos nossos pecados. É através de gestos de gentileza, de amor e de humanidade. É preciso exercer tudo isso e não ficar apenas no discurso. Aí sim, passaremos para a outra vida limpos e felizes.

Vocês já se depararam com uma história linda e alegre e ao mesmo tempo triste? Pois aqui vocês encontrarão. É leitura leve com temas pesados. O que posso dizer é que no final me tornei mais "esperançoso" e isso não é pouco em dias de violência, bestialidade, estupidez e ignorância. Vida longa ao mestre King!

comentários pelo facebook:

13 comentários em "Ascensão [Stephen King]"

  1. Vida longa ao Mestre King!!!Cada livro lançado por ele, a gente já fica na expectativa de saber se mais uma vez, ele acertará a mão ou não.
    Este livro foge a tudo que ele já escreveu. Digo não somente por extremamente curto, mas por trazer o ser humano,a alma humana assim, bondosa.
    Claro, tem aquela pitadinha de sobrenatural que ele tanto adora nos jogar na cara, mas resumindo, é uma obra totalmente oposta a tudo que ele nos entrega.
    Já está na listinha de desejados e espero ler o quanto antes!
    Beijo

    Angela Cunha Gabriel/Rubro Rosa/O Vazio na Flor

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  2. Olá! Eita que é muito bom me deparar com um livro do autor que não me fará correr para as colinas (risos)! Não é segredo para ninguém que eu fujo um pouco das letras do King, mas acredito que essa dica possa ser o livro que eu estava procurando para dar início a minha jornada com a escrita do autor (aleluia)! Vai ser bem interessante acompanhar essa história e principalmente as mensagens bacanas que ela passa!

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  3. Como esse livro se passa em Castle Rock já achei super interessante. Eu amo os livros de suspense dele, são os melhores, mas gosto ainda mais quando ele escreve sobre outros temas e propõe uma reflexão e isso é um ponto, sempre, bem positivo para mim em uma história. Gostei muito da dica, não vejo a hora de poder ler!

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  4. Rodolfo!
    Gosto de contos, embora alguns sejam bem curtinho mesmo.
    Bom que o livro parece mais um conta de tão pequeno.
    Realmente a diversidade de King é evidente. Minha obra favorita é À espera de um milagre.
    Fico bem feliz que ele fala sobre o preconceito e diversidade, tolerância, amor em fazer o bem, é o mais importante na vida ter empatia e solidariedade.
    Um novo ano carregado de esperança e amor no coração!
    cheirinhos
    Rudy

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  5. Não conhecia esse livro do King. Pelo pouco que conheço dos livros dele, sei que há algo sinistro acontecendo com Scott. Gostei da crítica (?) a forma como tratam Missy e Deidre. Também não desconfiava que King podia ser conciso e até delicado mas não me surpreende, afinal ele é King.

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  6. Sigo sem conhecer a escrita do King; em grande parte por não ser gêneros que me deixam confortável.
    Mas estou ficando intrigada com a escrita dele; são tantos elogios e o cara parece gênio mesmo.
    Trazendo histórias que mexem com o leitor e com muitas reflexões, não é mesmo?

    Abraços

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  7. Ainda não conheço a escrita do autor, mas não me falta vontade para conferir seus aclamados livros.
    Achei a proposta do autor nesse livro bem diferente daqueles de terror/suspense que sempre ouço associado ao grande Stephen King. Por esse e vários outros motivos, tenho grande vontade de conhecer as obrar do autor.

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  8. Nossa como pode acontecer tantas coisas bizarras em uma única cidadezinha (só pode ser algo na água!), em relação a esse livro, até fiquei bastante curiosa em conferir, justamente por esse caminho um pouco diferente que o autor resolveu seguir, e pela temática discutida ser bastante atual.

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  9. Olá!
    King sempre sendo King. Não li nada do autor mas já vi muitas resenhas e sempre são positivas. Pretendo muito ler, mas ainda não sei quando. Gostei muito da premissa e espero conseguir ler logo.

    Meu blog:
    Tempos Literários

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  10. Oi, Rodolfo!!
    Mais um livro do Stephen King!! Nossa estou em divida comigo mesma pois não li nenhum livro do mestre o ano passado, espero que esse ano seja um pouco diferente, pois estou com vontade de ler It: a Coisa. E com relação a esse livro achei a história muito curiosa e interessante.
    Bjs

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  11. Olá, Rodolfo
    Não li nada do autor, preciso mudar isso. Mas ele tem tantos livros que nem sei por qual começo a ler.
    É muito legal quando o autor consegue escrever de formas diferentes que acaba atraindo mais leitores.
    Li algumas resenhas dessa novela e King trouxe o preconceito, política e claro crítica à sociedade americana.
    Vai para a lista de desejos, beijos.

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  12. Eu achei a proposta desse livro muito aleatória mas eu não duvido o potencial do Stephen King em nos surpreender quando nós achamos impossível e o fato do livro pequeno me deixa ainda mais curiosa para ver o que o autor vai aprontar em tao

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  13. Oi, Rodolfo
    Fiquei muito interessada para ler essa história.
    Primeiro, que não tem terror, então não terei medo! kkkkk
    E segundo, que a história do Scott parece ser muito inteligente e traz ótimas críticas e reflexões sobre preconceito e demais intolerâncias.
    Assim que der, lerei, sem falta!
    bjs

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