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13.5.20

A Obscena Senhora D [Hilda Hilst]

Hilda Hilst
Cortesia do Grupo Companhia das Letras

Hilda Hilst é uma das autoras mais viscerais que eu já li na vida e não vou mentir: senti o impacto. Li esse livro à quase duas semanas e tô atordoada até agora.

A Obscena Senhora D
Título: A Obscena Senhora D
Autor: Hilda Hilst
Editora: Companhia das Letras
Gênero: Erótico, Ficção, Literatura Brasileira
Páginas: 83
Edição:
Ano: 2020
Onde comprar: Amazon

Em sua prosa extremamente peculiar, a autora escreve sobre uma mulher de luto pela morte do homem que ama, à beira da loucura e em busca de respostas para perguntas complexas demais para serem respondidas.

Hilé, ou “a obscena senhora d” está perdida e sozinha no vão de escada que ela fez de ninho. Louca talvez, ou mais lúcida que nunca, assustando os vizinhos com suas aparições “pouco convencionais” e sempre fazendo aos outros, à Deus e a si mesma questionamentos de ordem filosófica.

“Vi-me afastada do centro de alguma coisa que não sei dar nome, nem por isso irei à sacristia, teófaga incestuosa, isso não, eu Hillé também chamada por Ehud A Senhora D, eu Nada, eu Nome de Ninguém, eu à procura da luz numa cegueira silenciosa, sessenta anos à procura do sentido das coisas”

Sabe quando eu disse que a prosa de Hilda é peculiar? Então, é ela escreve num fluxo de pensamentos. Quem está familiarizado com esse estilo não vai estranhar, mas pra quem lê algo do tipo pela primeira vez, pode ser um incômodo.

Pra começo de conversa texto não distingue a voz da narradora de quaisquer outras vozes presentes na história. Não há aspas ou travessões pra indicar a fala alheia, é tudo um amontoado de ideias, pensamentos e lembranças da Senhora D, dispostos de forma corrida e sem a menor distinção ao longo do texto, o que exige atenção extra do leitor pra entender o que se passa. Também não há continuidade temporal: ela mistura memórias de tempos anteriores com cenas que parecem ter acabado de acontecer e eventos imaginários.

Parece confuso eu sei, mas é extremamente humano e real também. Não há pontuação indicativa de diálogos na sua mente quando você pensa sobre algo, e seu cérebro faz conexões temporalmente absurdas também. O que Hilda faz é colocar isso no papel de forma magistral.

Posso estar enganada, mas acho que tem muito da autora nesse livro. É um texto que seria impossível escrever sem desnudar um pouco a própria alma. A Hillé é uma personagem complexa, cheia de perguntas e de saudades, revoltada com a vida, com Deus e consigo mesma. E por isso ela é tão fascinante.

“Em meio a tantas interrogações, uma certeza inabalável: “loucura é o nome da tua busca”.”

Essa edição da Companhia das Letras trás um posfácio muito enriquecedor, esclarecedor eu diria até. Não me entenda mal, o livro se sustenta sozinho, mas ler o posfácio acrescenta muito à leitura. E por falar em Companhia das Letras, descobri recentemente que a editora tem um podcast chamado Rádio Companhia, cujo o episódio 109 é uma homenagem à Hilda que, se estivesse viva, teria completado noventa anos agora em abril. O episódio trás um pouquinho da história da autora e algumas indicações de leitura muito interessantes. O podcast está disponível no Spotify (e em outros agregadores de podcast) e vale muito à pena pros interessados em conhecer um pouco mais dessa figura.

A Obscena Senhora D é um livro curtíssimo, apenas oitenta páginas na versão impressa, coisa que se lê em uma tarde. Mas recomendo veementemente que você NÃO o faça! É sério, esse não é um livro pra ser lido rapidamente. A prosa de Hilst é crua e nua, "obscenamente lúcida". Ler depressa seria uma heresia. É um livro que requer tempo e cuidado pra ser absorvido.

comentários pelo facebook:

17 comentários em "A Obscena Senhora D [Hilda Hilst]"

  1. Hilda é um mistério! E acho tão estranho quando leio ou ouço alguém dizer que nunca leu nada da autora. Eu já li frases soltas, textos assim, repletos da alma dessa mulher à frente do tempo e também, à frente dela mesma.
    Penso que nenhuma alma nunca irá se igualar a dessa mulher fascinante.
    Já vou lá ouvir o podcast! E claro que preciso desse emaranhado de sentimentos em mãos!!!
    Beijo

    Angela Cunha Gabriel/Rubro Rosa/O Vazio na Flor

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  2. Olá! Com certeza, apesar das poucas páginas, esse parece ser um livro que deve ser lido aos pouquinhos, para que possamos tentar entender tudo o que a autora quer nos transmitir, acredito que a capa retratou muito bem a história do livro.

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  3. Me parece ser uma leitura sofrida, dura, crua.
    É uma experiência única visceral e que portanto deve ser lida em doses homeopáticas.

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  4. Olá Andressa!
    Provavelmente, é necessário um ritmo de leitura mais lento para que seja possível absorver essa complexa trama de Hilst.
    Mas embora seja uma leitura desafiadora, é notório que a autora usa esse recurso de "escrita bagunçada" para expressar todo o conflito de Hilé, uma mulher perturbada que está em busca de repostas.
    Beijos.

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  5. ingriD Figueiredo14 de maio de 2020 01:02

    primeiro pensamento quando vê que são "apenas" 83 paginas: ora, eu leio em uma tarde, tranquilo
    primeiro pensamento quando lê o primeiro capitulo: "merda, que isso? erraram a edição?" kkkkk
    não é possível ler de uma vez só, pelo menos eu não consegui, rs. Me lembrou a escrita do Jose Saramago, uma mistura de falas, narração, mas pelo menos conseguia entender a posição dos personagens nos dialogos (ao contrario desse livro que, mesmo relendo, não consegui identificar 100% quem falava o que)
    eu gostei das referencias que foram colocadas, as vezes eu parava, pesquisava sobre e depois voltava, isso me ajudava a iluminar mais o entendimento.
    Defiinitivamente não é um livro para qualquer pessoa ler de qualquer jeito.

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  6. Andressa!
    Andei lendo alguns livros ultimamente, nesse mesmo formato, em uma prosa corrida, sem travessões, aspas, etc. No início é complicado, até conseguirmos nos localizar.
    Bem, me parece um livro filosófico que nnos faz repensar as premissas de nossas vidas e fazer ainda mais questionamentos interiores.
    cheirinhos
    Rudy

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  7. Oi, Andressa
    Uma leitura intensa, dolorosa, envolvente que deve ser apreciada aos poucos, que trás reflexão ao leitor.
    Também fica difícil de compreender sem travessões, mas durante a leitura você pode se acostumar.
    Beijos

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  8. Olá Andressa!
    Olha, pra que tem uma certa obsessão por arrumação e se apega nos detalhes como eu, esse livro é um baita desafio. Nunca li nada desse tipo e concordo que a leitura deve ser feita com calma, não só para entender as indagações filoficas como também para compreender o que se passa na história. Eu não sabia também que as editoras tinham podcasts, muito bacana mesmo.
    Beijos

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  9. A premissa parece ser bem instigante. Não estou familiarizada com esse estilo de livro e nem com a escrita, confesso que ficaria confusa lendo tal história apesar de aparentar ser um livro rico. As poucas páginas ajudam muito mas como mencionando deve ser um lovro para se ler devagar. Estaria saindo da minha zona de conforto ao me aprofundar nesse mundo da protagonista/autora, mas é bom se aventurar por outro gênero. Gosto muito de ler os posfácio então seria um bônus, achei interessante a homenagem a autora. Amei a resenha, seria um livro que daria uma chance para me aventuraram em algo desconhecido e conhecer um pouco mais sobre a autora, que até então não conhecia

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  10. Uau, que premissa interessante. Eu já tinha ouvido falar na autora, mas nunca li nada dela. Mesmo com poucas páginas, percebi que precisa-se de uma degustação mais lenta, como voce falou para aproveitar a leitura sem le-la rapido.

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  11. Uau!
    Ainda não li nada da autora, mas agora estou aqui querendo sentir esse impacto.
    Deu pra sentir que é uma obra que exige calma, ainda mais para quem é iniciante em relação aos livros da Hilda.
    E esse parece uma boa opção por ser curtinho.
    Realmente estou curiosa com esse livro repleto de sentimentos.

    Beijos

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  12. Olá, Andressa
    Não conhecia essa autora, nem esse livro.
    Achei confuso você falando que não tem distinções das falas dos personagens, não sei se eu gostaria muito de ler assim, mas você elogiando o livro me deixou com vontade de ler.
    Beijos.

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  13. ola
    não conheço essa autora nunca li nada dela
    a sua escrita parece ser diferente, até mesmo confusa para quem não está acostumado a esse tipo de narrativa
    achei intrigante o seu conselho de que não devemos ler o livro rapido
    dica anotada

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  14. Oi Andressa,
    Se eu fosse fazer uma lista de autores que obrigatoriamente eu deveria conhecer a escrita, Hilda Hist estaria nela, talvez até no topo, pois essa é uma autora que sempre é muito bem recomendada, justamente por trazer um conteúdo de muito impacto. Se tem um tema que acho que exige muito do autor em diversos aspectos é o luto e aqui vemos ele sendo abordado de uma forma bem intensa. Hilé poderia muito bem ser qualquer mulher que estive sofrendo pela perda de seu companheiro, pois da maneira como você descreve aqui na resenha vi muita realidade e verdade na história. Talvez, por não ter experiência com esse tipo de narrativa e com a escrita da autora, a leitura dessa obra possa ser mais difícil para mim e, quem sabe, um pouco confusa também (mesmo se tratando de um livro curto). Então quando eu for realizar essa leitura deve ser em um momento propicio onde eu possa ir com calma para aproveitar, entender e absorver as palavras de Hilda Hist.

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  15. Não conheço a autora, mas achei a capa do livro bem interessante, sei que pode não ter nada a ver, mas lendo a resenha senti que a capa quis relatar uma mente conturbada, em confusão.
    Achei bem diferente o tipo de escrita do livro, sem marcação de fala ou marcação temporal, então por esse motivo não sei se seria uma leitura que faria.

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  16. Fiquei muito curiosa, sempre me atraio por livros assim que são mais complicadinhos mesmo. Lendo algumas resenhas dele, vi que muitas pessoas tiveram dificuldade com a leitura e realmente me parece um livro muito denso. Espero poder ler em breve!!

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  17. Não conhecia a autora, o enredo parece ser bem complexo e confuso se não fizermos uma leitura cuidadosa, mas por ser tão próximo da realidade despertou meu interesse.

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