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25.3.21

[Bookserie] Aurora Vaga-Lume e os Deuses Cromados: Parte 1: Saindo da Vizinhança

Bookserie

Aurora Vaga-Lume e os Deuses Cromados

Parte 1: Saindo da Vizinhança

Inicia-se hoje mais um Book Série do Autor André Luis Barreto, composta de 6 capítulos. Aurora Vaga-Lume e os Deuses Cromados é uma obra de ficção científica que queremos compartilhar com vocês.

Sinopse:
Aurora tem um sonho: virar uma programadora na Pryda Software, uma das maiores empresas de informática do mundo. Porém, eventos inesperados acontecem, forçando-a a trilhar um caminho sombrio no qual sua própria vida estará em risco, contudo, ela finalmente descobrirá do que realmente é capaz.

Inicio:

Eram quatro e meia da madrugada quando Aurora desceu apressada as escadarias do número vinte e três da rua Cipriano Argento. Ao parar na portaria, o vigia virtual surgiu em seu holovisor, flutuando a poucos centímetros de seus olhos.

- Senhorita, por favor, informe sua senha - disse o holograma.

Ela mentalizou a sequência de números e pensou na palavra enviar. Em segundos, o grande portão enferrujado rugiu, deixando a claridade opaca invadir o saguão.

- Tenha um ótimo di-di-dia, Aurora Ro-ro-rocha - despediu-se o avatar, iniciando as engrenagens para isolar novamente o prédio.

A jovem sorriu ao pisar na rua, lembrando-se que havia prometido aos moradores corrigir o bug no programa centenário. "Não vou acertar isso, vou é comprar um aplicativo novo", pensou.

Colocou seu capuz e conferiu se a máscara de filtragem estava corretamente fixada em seu rosto, envolvendo boca e nariz. Checou o relógio: tinha exatos dez minutos para chegar à estação. Aurora apressou os passos, mas quase caiu de cara no chão ao tropeçar na perna de um homem. Irritada, apanhou sua bolsa na calçada e virou-se para reclamar, mas viu o holograma multicolorido pulsando no rosto do sujeito e conteve-se. "Ai, droga, mais um pobre coitado viciado em SatSim."

Aurora tomou seu rumo, deixando o rapaz entregue aos delírios do software alucinógeno. Olhou de soslaio para ver se pelo menos ele ainda usava a máscara; sentiu pena, pois em breve o rapaz teria o filtro de ar roubado. Se o SatSim não o matasse, a poluição certamente o faria, e talvez fosse melhor assim: uma morte rápida por parada cardíaca antes que algum abutre o encontrasse. Então notou que haviam muitos, um exército de viciados jazia ao longo da rua; lembrou-se que o Serviço de Remoção, quando vinha, costumava passar lá pelas oito horas. Ela avançou desviando dos dependentes.

Um tremor cortou os céus em tons metálicos, seguido por relâmpagos rápidos. As primeiras gotas de chuva começaram a cair, cinzentas e salgadas, e logo encheram as crateras na calçada. A poucos metros do cruzamento com a rua Atílio Pereira, subitamente, Aurora parou e olhou para trás. Viu as holografias em cores vivas envolvendo as cabeças dos viciados, pulsando no ar em meio a névoa rala da poluição. A visão era ao mesmo tempo bela e assustadora, e fez com que ela se lembrasse dos jardins outonais que sua mãe, Larissa, cultivava na antiga propriedade da família, antes da Karbyne Agrotech derrubar a lei de exploração rural e apropriar-se das pequenas fazendas. Tristeza. Saudade. Raiva. Recompôs-se, colocou no lugar a mecha azulada de cabelo que havia caído sobre o olho e deu de ombros, conferindo o cronômetro e apertando os passos.

A Atílio Pereira já apresentava alguns transeuntes, gente apressada que, assim como Aurora, dirigia-se para a estação do metrô de superfície. Mas ali não havia viciados: aquela era a única rua que recebia patrulhas regulares da Força Distrital, pois os comerciantes da Atílio eram os mais prósperos de El Dorado, e por isso podiam pagar pelo serviço de segurança. A jovem cruzou com um robô de limpeza, um modelo novo que chamou sua atenção, mas logo um sentimento de repulsa surgiu quando ela viu a logomarca da Karbyne Robotics cravada no dorso do autômato. "Eles estão em toda parte, miseráveis!", praguejou. Continuou seu caminho até atingir a rua Eurico Funaro, onde avistou a imensa fila para entrar na estação do metrô, mas apesar do grande volume de gente, a fila se movia com rapidez, e logo Aurora estava no interior do terminal cinquenta e cinco.

Através do teto transparente, ela notou que a chuva havia parado, mas o céu continuava agourento, prenunciando uma tempestade que poderia cair a qualquer momento. Implorou para que isso não acontecesse, pois o grande volume de chuva tóxica sempre danificava os trilhos do metrô, e com isso ela perderia o processo seletivo. "Não, nada de tempestades hoje.", afirmou como se pudesse controlar o clima.

Assim que o alerta de toxicidade sumiu de seu visor holográfico, ela removeu a máscara de filtragem, deixando o aroma de café pincelado por um forte cheiro de queijo derretido invadir suas narinas. Checou o relógio: três minutos para o embarque. Correu até a lojinha mais próxima e pediu a oferta do momento: expresso curto acompanhado por um generoso pão de queijo. Apanhou o lanche. Imediatamente, o valor de seis cyphers foram debitados, fazendo com que ela franzisse o nariz, afinal, o mesmo combo poderia ser comprado nas ruas por menos da metade.

Juntou-se ao grupo de pessoas que embarcava no vagão trezentos e três. Foi automaticamente identificada e autenticada. Um mapa tridimensional apareceu em seu holovisor, indicando o assento que comprara: primeira fileira, poltrona da janela. Estrategicamente escolhido, o lugar era perfeito pois daria espaço de sobra para ela esticar as pernas. Sorveu um gole do café e sentou-se. O programa da companhia de transporte surgiu diante de seus olhos, representado por um avatar masculino, razoavelmente modelado.

- Bem-vinda ao expresso trezentos e três, Aurora Rocha. O tempo estimado de viagem até o centro é de quarenta e oito horas e vinte e cinco minutos, caso não ocorram imprevistos. A CT Limiar deseja a você uma excelente viagem.

A jovem lamentou: se tivesse dinheiro suficiente poderia pegar o Dynamo, que a levaria ao centro em uma hora. "Quem sabe em breve", desejou. As portas foram fechadas. O vagão começou a se mover. Um senhor ocupou o assento ao lado dela, ajeitou-se na poltrona a fim de ficar mais confortável. Aurora mordeu o pão de queijo, saboreando e sentindo a textura. Então, um pequeno ícone cintilou em seu holovisor. Rapidamente ela o abriu.

- Bom dia, filha. Vai dar tudo certo, estou torcendo por você - disse Marcos na transmissão de vídeo.

Aurora notou o brilho nos olhos do pai, algo que ela não via há muito tempo. Sorriu e, ao mesmo tempo, percebeu que ele estava bem ansioso, provavelmente até mais do que ela.

- Pai, chegar até aqui já foi uma grande vitória, e sem você eu jamais teria essa chance - ela desejou poder abraçá-lo -, vai dar tudo certo, torce por mim!

- Te amo, vaga-lume, e sim, vai dar tudo certo!

- Mas não se preocupe, se algo der errado posso arrumar alguma coisa por aqui mesmo, então está meio que garantido - respondeu Aurora, confiante.

A fisionomia de Marcos mudou, externando preocupação.

- Algum problema, pai?

- Você vai conseguir esse emprego. Você estudou para isso, não merece trabalhar para esses derrotados daqui - subiu o tom -, eu tenho certeza de que vai conseguir.

Aurora apenas observava o pai, sem entender o motivo daquela reação. Ele coçou a cabeça e desviou o olhar. Então um alerta piscou para os dois, indicando que o expresso já se aproximava dos limites do distrito, onde outra tarifa seria acrescida na transmissão. Foi Marcos quem quebrou o silêncio:

- Vai ficar caro, querida. Vou desconectar - ele juntou as duas mãos como se fosse rezar. - Nada vai sair errado, a vaga já é sua! Te amo.

- Também te amo. E, pai, cuida das minhas plantas, tá?

A imagem de Marcos sumiu, deixando no ar a frase conexão terminada, que logo desfigurou-se. Ainda sem entender, Aurora olhou para a janela e observou as grandes torres industriais que cuspiam fumaça negra para o céu. O vagão sublevou-se acima da maioria das habitações e comércios, percorrendo com velocidade o trilho que o levaria para fora de El Dorado. Repentinamente, uma voz rouca irrompeu sobre o ruído dos motores:

- Você viu o que eles fizeram agora? - perguntou o senhor ao lado de Aurora.

- Hein? Não entendi.

- Em que mundo você vive, menina? Tome - ele deu um tapinha no ar dentro de seu holovisor, fazendo com que uma imagem se deslocasse e atingisse o holovisor de Aurora. A gravação mostrava uma repórter de cabelos prateados, desesperada, com um prédio em chamas ao fundo. A jornalista gritava aos prantos:

- Em um atentado aterrador, o grupo terrorista que se auto intitula "Os Deuses Cromados", acaba de assumir a autoria por mais um ataque contra o grid de filtragem de ar do sistema Anemoi, contabilizando seis ataques em seis meses.

- Sistema Anemoi? - indagou Aurora. - Isso fica em Alphapolis, no centro, não é?

O ancião desativou sua matriz holográfica e encarou a jovem, arregalando seus olhos cansados.

- Exatamente, querida. E é prá lá que estamos indo! Só espero que esses malucos não aprontem nada contra nosso trem.

Aurora respondeu com um sorriso amarelo, até o tempo do homem religar suas holografias e voltar para seja lá o que estava fazendo. Por um segundo, ela desejou sair correndo dali, voltar para seu quarto e cuidar de sua pequena plantação hidropônica. Ainda em execução, o vídeo da reportagem mostrava a imagem de um político enfurecido, Luciano alguma coisa, mas Aurora não queria mais ver aquilo. Ela deu um tapinha na holografia, que desintegrou-se. Então acessou o aplicativo de música e carregou o mais recente álbum de Lana Stardust, deixando-se levar pelas batidas etéreas e pelos acordes orientais.

Para navegar entre os capítulos clique sobre os botões "Anterior" e "Próximo" disponíveis logos abaixo.

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27 comentários em "[Bookserie] Aurora Vaga-Lume e os Deuses Cromados: Parte 1: Saindo da Vizinhança"

  1. Oi, André! Que demais poder viajar por mais uma bookserie sua! Essa eu vou tentar acompanhar todinha. Muitas coisas já despertaram meu interesse. Quero saber mais sobre esse grupo terrorista Os Deuses Cromados. E adorei ver meu nome em umas das personagens haha. Aguardo muita ação!

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    1. Olá, Larissa. Obrigado! Essa é mais curtinha, então fica mais fácil de acompanhar!

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  2. Oba André!
    Fico feliz em ler mais uma booksérie sua.
    E já começou com suspense, trazendo curiosidade para saber o que aconteceu e porque o pai não quer que ela trabalhe na cidade dela.
    Vamos aguardar o próximo capítulo.
    Parabéns!
    cheirinhos
    Rudy

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    1. Obrigado, Rudy. Essa será mais curtinha, então dá para acompanhar melhor! Abraços!

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  3. Mesmo não lendo muita ficção científica, curti muito Aurora Vagalume.
    Já estou ansiosa para mais capítulos

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    1. Obrigado, Chelle. Essa será mais fácil de acompanhar! Valeu!

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  4. Que maravilha chegar aqui e dar de cara com esse primeiro capítulo de outra série que parece ser fantástica.
    Só preciso perguntar uma coisa: as máscaras de filtragem de ar, é alguma referência ao momento que passamos? Foi escrito durante a pandemia? rs
    Fiquei mega curiosa, até pelo número de viciados nas ruas, trágico, futurista, mas tão real.
    Adorei e com certeza, estarei aqui, doida para saber o que acontecerá no trem ou quando o destino chegar!
    Beijo

    Angela Cunha Gabriel/Rubro Rosa/O Vazio na flor

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    1. Obrigado, Angelsa. Sobre as máscaras, na verdade não. Esse conto foi escrito bem antes da pandemia, que coincidência infeliz, não? Valeu pela leitura! Abraços!

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  5. Oi, André!
    Que legal, com certeza vou ler essa nova aventura, mas como Aurora Vaga-Lume e os Deuses Cromados é coposta por 6 capítulos vou deixar acumular um pouco os capítulos para só então ler... Enquanto isso vou colocar os capítulos de Engenharia Reversa em dia :)
    Bjos!

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    1. Olá, Any! Boa! Essa história aqui você consegue ler tudo de uma vez! Abraços!

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  6. Olá,

    Parabéns, André!
    Fiquei bem interessada na história, só senti falta de uma sinopse, já que amo saber um pouco da história antes de começar a ler, não sei se tinha em outro post e eu pulei sem querer.

    Beijos

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    1. Oi, Theresa. Pois é, nesse caso realmente faltou a sinopse. Vou ver com a Gisela se dá para incluir. Abraços!

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  7. É a primeira vez que consigo acompanhar algo do início aqui no blog, fiquei bastante feliz!
    Que interessante pensar em um mundo tão diferente e inovador. Que legal seria se a gente tivesse também um detector do covid pra podermos tirar a máscara hein?
    Fiquei curiosa pra saber se vai acontecer alguma coisa no trem e sobre esse emprego dela. Aguardo os próximos capítulos.

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    1. Valeu, Bruna! Fique ligada que ainda vai acontecer muita coisa! Abraços!

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  8. Olá André
    Amo a sua escrita. E táo fluida e direta.ri aqui quando Aurora compara os preços do café e do pâo de queijo .e o que seria esse Dynamo ? Seria um transporte mais rápido.?
    E Curiosa para saber o que será que ela encontrar em Alphapolis e quem sáo esses
    Deuse Cromados .

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    1. Eliane, muito obrigado! Sim, o Dynamo é um transporte que leva 40 minutos para chegar ao centro da cidade, porémo que Auroa pegou levará uma semana(!) Abraços!

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  9. Ah, que bacana! Eu não consegui acompanhar a outra booksérie desde o início, então é legal ver a 1° parte dessa.
    Esse início é bom, instigante e já quero saber mais do que irá acontecer com Aurora.

    Abraços

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    1. Ludyanne, muito obrigado! Essa vai dar para acompanhar tranquilo.

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  10. Olá André!
    Adorei saber que não vamos ficar desamparados depois do término de Engenharia Reversa. Já gostei da Aurora, parece ser uma protagonista forte. Fiquei curiosa para saber qual emprego ela está procurando e morrendo de medo do grupo terrorista. Ansiosa pelos próximos capítulos.
    Beijos

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    1. Oi, Aline! Muitas surpresas esperam Aurora, rs, fique ligada! E obrigado pelo comentário, abraços

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  11. Olá! Muito bacana ter a oportunidade de acompanhar essa nova série, para mim é uma ótima maneira de me familiarizar mais com o gênero.

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    1. Fico bem feliz, Elizete! Essa vai dar para acompanhar tranquilo, espero que goste! Valeu! Abraços!

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  12. Oii, André
    Que bom ter um novo livro seu!
    Gostei muito da Aurora, ela parece muito determinada.
    Bjs

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    1. Obrigado, Ana! A história é menor, porém, acho que você vai gostar ainda mais da Aurora nos próximos capítulos! Abraços!

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  13. Ebaaa, e eu que pensei que não teríamos mais esse momento. Bora começar mais essa aventura!

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    1. Bora, Elizangela! Essa será bem mais fácil de acompanhar, prometo!

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  14. Este comentário foi removido pelo autor.

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