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13.7.14

[Bookserie] Engenharia Reversa: Parte I - Uma Doce Manhã



Engenharia Reversa


Parte I - Uma Doce Manhã


Bairro Praia do Canto. Cidade-estado de Vitória, 7:30 da manhã. O quarto é amplo e bem projetado, uma boa suíte decorada no estilo pojonk, elegante porém minimalista. A parede inteligente que dá para o exterior, construída com uma liga de vidro digital, é utilizada como uma imensa janela que está agora em um tom fumê, meio embaçado, fazendo com que o cenário urbano lá fora pareça uma pintura a óleo em tonalidades de marrom.

A cidade já está pulsando. Milhares de pessoas locomovem-se em suas bicicletas movidas a energia solar nas largas ciclovias suspensas, dezenas de trens Meglev de alta velocidade ziguezagueiam por entre os imensos arranha-céus repletos de jardins suspensos e plantações hidropônicas, e outros milhares de flymobs, carros voadores, de todos os tipos e tamanhos, cortam os céus transportando de pessoas importantes a cargas suspeitas. O som da cidade fica ainda mais insuportável quando somado ao barulho metálico e ritmado gerado pelas centenas de fábricas autônomas, instaladas aos montes nas laterais da fachada do imenso prédio de 200 andares. Mas dentro do quarto, graças a um perfeito isolamento acústico, um casal dorme confortavelmente, ao fundo apenas o relaxante som artificial de uma cascata d´água.

Na cama, Davi na verdade apenas finge estar dormindo. Ele passou a noite inteira em claro, online, examinando e compilando centenas de terabytes de dados, criando um vírus bioneural, ou, como chamam nas ruas, um bioprograma “racha-cuca”. Os dados são compostos em sua maioria por fragmentos de memória que Davi havia colhido de Bel, durante quase 1 ano de namoro dos dois. As imagens passam freneticamente em duas telas virtuais projetadas diretamente em suas retinas. Enquanto em uma tela dezenas de frames com imagens da vida de Bel são exibidos a uma alta velocidade, em outra ele monta o programa do vírus, escrevendo mentalmente dezenas de linhas de código com caracteres brilhantes em um fundo com tonalidade escura. Cada cadeia de caracteres é um comando de programação. Davi termina a codificação e então mentaliza o comando “cp /all”. A tela fica totalmente negra, exibindo apenas um contador em percentual e uma mensagem em cor verde-fosforescente: “Tempo para conclusão do bioprograma: 10 minutos”.

Bel, deitada ao lado dele, acorda e se vira para o namorado. Ela abre seus olhos amendoados e faz um carinho no companheiro, aguarda alguns minutos e se levanta da cama. Nua, dirige-se ao banheiro da suíte. O movimento dela desvia por um segundo o foco de Davi, ele continua fingindo dormir, mas ativa outra tela virtual onde a imagem do quarto é projetada em tempo real. Através de micro câmeras, ele observa a morena se dirigir ao box e ligar a ducha.

Micro câmeras com sensores multifásicos. Davi havia instalado várias delas em todo o apartamento, Bel jamais saberia. Ele não gostava dessa tecnologia, pois o sinal emitido poderia ser captado e decodificado por uma equipe rival bem treinada, preferia usar sensores Taypen implantados, mas teve que remover os seus depois de um acidente em Bangkok. Mas as câmeras eram uma medida necessária, um risco que ele tinha que correr, pois eram a maneira de garantir sua segurança e, talvez, a dela. Enquanto aguarda a montagem do programa, por um breve momento um pensamento passa pela mente dele: e se fosse diferente? E se ele tivesse uma vida normal? Como seria compartilhar sua vida com Bel?

Embora ela fosse apenas um meio, uma “etapa” para o objetivo maior, ao longo do tempo Davi desenvolveu certa empatia pela moça. Uma falha nos inibidores de emoção? Talvez, afinal faz cinco anos que ele não realizava um check-up. “Jamais se envolva”, era a regra número um, porém nesse serviço em especial, por mais que ele não gostasse, existia uma pequena, mas consistente, ligação emocional. Talvez por isso ele tomou uma medida que nunca tinha feito antes: colocou um protocolo de segurança no bioprograma, pois um “racha-cuca” não tinha esse nome à toa, o biosoftware poderia literalmente destruir o cérebro do alvo.

O protocolo faria com que o programa demorasse um pouco mais em sua execução, porém garantiria a integridade cerebral de Bel. Muitos dos antigos alvos de Davi eram pessoas ruins, que de certa forma mereciam o destino horrível de ter o cérebro fritado, mas outros não, estavam só com a informação certa na hora errada. Mas ele aprendeu a não se importar, querendo ou não, no final era só trabalho, e por segurança muitos dos alvos eram apagados de sua memória após o serviço. Mas aquela ali, Bel Yagami, por algum motivo não merecia um destino tão cruel. Ele volta a olhar a micro câmera do quarto, admira a silhueta dela através da parede de vidro embaçado do box, e continua a imaginar uma dimensão paralela, onde a vida seria mais fácil.

Então Davi subitamente retorna a realidade. No monitor virtual em sua retina o aplicativo especial que ele usou para criar o “racha-cuca” emite um aviso: bioprograma pronto para utilização.

Bel sai do banho, vestindo um roupão de cor negra, senta-se na cama e pega um pente. Começa a escovar os cabelos ao mesmo tempo em que se conecta. Várias telas virtuais são projetadas em sua retina: uma exibe a caixa de entrada de e-mails, outra as notícias do dia, e em uma terceira são exibidas as fotos da noitada de uma amiga, mas ela não consegue desgrudar os olhos dos e-mails, em sua grande maioria relacionados ao trabalho.

A partir do momento em que se conectou, todas as atividades virtuais de Bel, e também os dados de suas funções vitais, passam a ser transmitidos em tempo real para Davi. Ela está “grampeada”, mas nem desconfia. Um biochip de última geração, do tamanho de um grão de areia, foi precisamente implantado por ele sob a pele da nuca da jovem mulher. A tecnologia era realmente boa, pois os bioscans da VNR não detectaram o artefato, exatamente como o contratante havia garantido. Apesar de estar conectado há horas, Davi está completamente oculto, camuflado, sua bio-assinatura digital aparece na lista de contatos de Bel como offline.

“Chegou a hora”, pensa ele. Davi se vira na cama, aproximando-se da companheira. Pela visão periférica, uma vez que não está conectada em modo de tela cheia, ela percebe a movimentação dele e também chega mais perto. Bel minimiza todas as janelas virtuais e deita sobre o peito de Davi, encarando-o. Ele abre seus olhos castanhos e finge um bocejo.

- Ei! Dormiu bem? - Pergunta ela, imediatamente se curvando e beijando os lábios de Davi.

O beijo de bom dia dura quase um minuto, e assim que termina ele coloca suas mãos com delicadeza em torno do pescoço da namorada, fazendo um carinho. Bel sorri, mas seu olhar denuncia certa preocupação. Finalmente Davi responde, mudando a expressão e fingindo uma fisionomia mais carrancuda.

- Mais ou menos; você sabe, essa merda toda que tá acontecendo... - Ele dá uma pausa e desvia o olhar, percebe que Bel está atenta, então volta a olhar para ela e continua - Mas ainda temos um ao outro, certo? Pelo tempo em que eu ainda tiver emprego aqui...

Bel pondera um pouco, vira a cabeça para os lados. Ela então coloca carinhosamente suas duas mãos no rosto de Davi.

- Meu bem, não se preocupe. Nem todos na VNR apoiam a reestruturação. Meu chefe, por exemplo, ele é contra. Mas aconteça o que acontecer eu vou dar um jeito de você não ser demitido. Sabe, eu tenho algumas conexões… Farei de tudo para que isso não aconteça!

-Sei. - Ele responde, apático.

Ela volta a falar, agora tomada por certa empolgação, tentando animar o namorado. Davi apenas ouve, fingindo interesse.

Ter um trabalho em uma cidade-estado de jurisdição corporativa, como Vitória, significa quase tudo: acesso à educação, saúde, consumo, diversão, cultura e bônus corporativos a cada seis meses. Mas após a queda da maioria dos governos e de todos os conflitos armados que sacudiram o continente e o mundo nas últimas décadas, muitas cidades-estado adotaram leis quase draconianas, que eram cruéis com as pessoas que não tinham como se sustentar.

Em Vitória os desempregados tinham um prazo para conseguirem um novo emprego ou uma fonte de renda, mas em várias ocasiões este era muito curto. Então eles eram obrigados a deixar a cidade e tentar a sorte nas imensas zonas de exclusão, sem lei e sem governo formal, onde gigantescas favelas se misturavam com pequenas cidades independentes e comunidades fechadas e estranhas. Outra opção, para os que ainda tinham economias, era tentar a sorte em outras cidades-estado, ou nos pequenos países que restaram, como a REF - República do Estado Fluminense ou mesmo o Brasil, agora reduzido a menos de um terço do que era antes.

A VNR - Vieira & Nakashima Robotics - uma das maiores corporações do planeta, com matriz em Vitória, estava passando por um período conturbado. Toda a sua fábrica na cidade seria descontinuada, milhares de operários, técnicos e engenheiros seriam dispensados. A linha de montagem estava prestes a ser movida para Detroit, que após a Guerra do Milênio, entre os EUA e a China, havia se tornado uma gigantesca fábrica de aluguel com custos de produção extremamente baixos.

O contratante havia infiltrado Davi na VNR como um engenheiro, e um dos que seriam dispensados. Então o disfarce exigia que nesse momento ele estivesse sempre tenso, sempre preocupado, mas intimamente ele estava pouco se lixando para tudo isso, pois seu verdadeiro trabalho lhe concedia certos privilégios e várias mordomias. Ele não corria o risco de ser descartado, poderia entrar em quase todo lugar do mundo, e seu mercado de trabalho tinha cada vez mais oportunidades e menos concorrência. O único problema era saber demais, por isso a cada missão terminada ele apagava da memória todas as informações que pudessem colocá-lo em risco, o mesmo era feito com alguns alvos, que tinham todos os traços de memória ligados a Davi deletados. Portanto, em breve Bel jamais saberia que teve um relacionamento com um jovem engenheiro cibertrônico de ascendência latina, estranhamente ele começou a odiar essa parte do serviço.

Então Bel termina de falar, explicando que tem algum tipo de plano para salvá-lo. Os dois ficam um tempo sem dizer palavra, apenas se olhando. Ele quebra o silêncio: “Você é linda”, e então a abraça de forma mais intensa, beijando-a. Ela retribui; Os dois passam um tempo se acariciando, e logo o clima esquenta. Davi se lamenta, sabendo que essa será a última vez dos dois.

O plano é muito simples, porém precisa ser preciso: após o sexo, quando o cérebro de Bel estiver inundado de endorfina, o bioprograma de Davi terá alguns milésimos de segundo para entrar na memória de ligação do CND, o computador neuro-digital implantado no cérebro dela, e então hackear o módulo de dados corporativos, ligado à memória sub-consciente.

Esse módulo especial foi instalado em seu CND quando ela foi selecionada para trabalhar como executiva júnior na Vieira & Nakashima, há cinco anos atrás. Atualmente o cargo de Bel era de extrema confiança, pois ela tinha acesso a todas as informações dos principais executivos da companhia, e também aos principais projetos, muitos dos quais secretos.

Empresas do porte da VNR inicialmente usavam Bio-Computadores para processar e guardar informações estratégicas. Praticamente uma máquina viva, um Bio-computador consome uma imensa quantidade de energia além de exigir rígidos protocolos de segurança, pois seu cérebro positrônico muitas vezes apresenta instabilidades. Devido a esses fatores as corporações e os governos passaram a utilizar os CND´s, que implantados na cabeça de praticamente todo habitante do planeta, conseguem guardar uma imensa quantidade de informações utilizando-se das redes neurais do usuário, além de ser muito mais fácil e barato manipular seres humanos do que inteligências artificiais.

Quando Bel recebia uma informação importante, um programa de varredura entrava em ação identificando e gravando a informação no módulo de dados. E o sistema de segurança do módulo era coisa fina, de última geração, chamava-se “BioCrom”. Ele possuía um software de defesa, um firewall cinético adaptativo, que montava uma chave neuro-digital a partir das memórias do subconsciente do usuário, escolhidas randomicamente. Era quase impossível obter uma cópia dessa chave, seria preciso um exército para invadir a fortaleza de dados na sede da corporação. Mas para Davi e seu contratante, esse problema era passado.

Alguns anos atrás um cientista, Dr. Branislav Kirillovsky, descobriu que a endorfina em certas quantidades era capaz de confundir o BioCrom, a ponto de torná-lo vulnerável por pouquíssimo tempo. O cientista foi morto e sua pesquisa aprendida e destruída. Mas uma parte caiu nas mãos de uma organização misteriosa, que conseguiu criar um algoritmo baseado na descoberta. O programa foi nomeado como The Kirillov Decypher Code, ou KDCode. Bio-hackers como Davi dariam tudo para colocar as mãos nesse negócio, e ele havia de fato tirado a sorte grande, pois acabara de usar o KDCode para criar o bioprograma.

Até agora esse estava sendo o trabalho mais difícil da carreira dele. Levaram anos para conseguir infiltrá-lo na VNR, criaram todo um histórico familiar falso, ID´s falsas, ex-esposas, traumas, filhos, doenças, acidentes, enfim, tudo fora nanometricamente montado, uma farsa perfeita.

O casal termina a transa. Davi deita-se ao lado de Bel; uma tela virtual em sua retina mostra que chegou o momento, os níveis de endorfina em ambos estão no talo. Ele envia o bioprograma. Bel se espreguiça, se vira para ele e fala alegremente:

- Droga, Davi. Agora vou ter que tomar outro banho!

Ele apenas ri, mas olha para a namorada com um grande interesse, como se estivesse fascinado além da beleza natural dela. O sexo havia sido realmente ótimo, mas o que iria acontecer agora seria melhor ainda, pensa ele.

Uma nova conexão neural protegida, via WiMAX3, é estabelecida entre os dois. O bioprograma é transmitido imediatamente e entra oculto na memória do CND da executiva. A medida que se move, o racha-cuca estimula a produção de enzimas pelo cérebro dela. As telas virtuais nas retinas de Davi começam a transmitir dezenas de dados em tempo real; ao mesmo tempo Bel começa a sentir seus batimentos cardíacos ficarem mais lentos, seus músculos vão entrando em estado de relaxamento, sua visão começa a ficar turva. Ela estranha, mas como se tivesse sido picada por um inseto com veneno paralisante, não consegue lutar.

-Davi, eu acho que eu vou…- A jovem desmaia sem conseguir terminar a frase. No cérebro de Bel, dentro do CND, o bioprograma invasor entra na interface digital-biológica e acessa um canal sináptico artificial, semelhante a um túnel, onde correntes elétricas repletas de bytes trafegam informações entre o módulo de dados corporativos e o processador do CND.

O bioprograma então atinge o módulo de dados, uma espécie de cisto do tamanho de uma célula, envolto em um casulo de tecido sintético. Pela sinapse a conexão é estabelecida, porém um alerta pisca nos monitores de Davi: o BioCrom detectou o intruso e está se ativando para destruí-lo.

Davi fica tenso, apreensivo. “O momento da verdade chegou! Vamos ver se o velho russo sabia mesmo das coisas”. Bel se contorce na cama, seus batimentos aceleram. O BioCrom se aproxima do programa invasor, veloz, decidido, como um cão de caça prestes a capturar sua presa, mas, como que por mágica, quando ele fica cara-a-cara com o racha-cuca, alguma coisa acontece e o BioCrom perde completamente o rastro. A endorfina fez o seu trabalho. O bioprograma então se expande, criando milhares de tentáculos virtuais. Ele entra no módulo de dados e também invade facilmente o antes todo poderoso BioCrom.

“Vai garoto, acaba com ele”. O BioCrom então começa a ser deletado; o bioprograma de Davi fez com que ele fosse confundido com um vírus, e o próprio sistema operacional do CND de Bel se encarrega de eliminá-lo da memória. “Lindo!”, pensa Davi tomado por uma empolgação que ele não sentia desde a adolescência.

O protocolo de segurança é ativado, Bel está aparantemente livre de complicações. O racha-cuca cria um fluxo de dados entre ele e o módulo corporativo; pacotes neuro-digitais repletos de memórias da executiva são enviados a uma velocidade absurda, chocando-se contra a interface de input do módulo, tentando forçar a senha de acesso. Sem o BioCrom a dificuldade do trabalho cai absurdamente, agora é só uma questão de tempo.

Davi, completamente tenso, monitora um relógio digital em sua retina. Mesmo sabendo que tomou todas as medidas possíveis, uma angústia comum aos bio-hackers toma conta dele, um pressentimento natural de que alguma coisa sempre pode dar errado.

A conexão entre ele, o racha-cuca, e o módulo corporativo na cabeça de Bel se intensifica.

De repente, todos os monitores virtuais travam e param de exibir dados, um flash estala nas telas, deixando sua visão branca. Adrenalina. A pressão sanguínea dispara, ele começa a suar frio. Os monitores então voltam a funcionar, mas passam a transmitir imagens difusas, incompreensíveis, então todos eles se fundem em um único grande monitor virtual, em tela cheia, que toma por completo todo o campo visual de Davi, lançando-o para dentro da mente de Bel.

Um imenso túnel cilíndrico e reto, com as paredes formadas por milhões de fragmentos de dados, sinapses nervosas e neurônios é projetado na frente de Davi, que começa a se mover dentro dele. Um contador regressivo é exibido e a velocidade começa a aumentar descontroladamente. Os dados na parede se fundem formando uma massa compacta e brilhante, com um espectro de cores que vai do vermelho ao violeta, formando um arco-íris de neon.

A viagem rumo ao final do túnel é frenética, e Davi fica ao mesmo tempo atordoado e excitado. O seu CND já estava preparado, e diversos programas mentais estimulavam o seu cérebro produzindo substâncias que o protegem, caso contrário, pela quantidade de vezes que ele já havia feito isso, o rapaz ficaria completamente louco ou se transformaria em um vegetal. A impressão era sempre a mesma: toda vez que invadia uma mente parecia que ele estava caindo em um grande buraco sem fundo.

Então o contador começa a se aproximar do zero e Davi visualiza o final do túnel: um ponto negro que rapidamente duplica, triplica, quadruplica de tamanho. O ponto se expande, tomando todo o campo de visão do bio-hacker, a velocidade para bruscamente e ele tem a sensação de que seu corpo foi arremessado violentamente contra uma muralha.

Por um breve momento Davi tem a impressão assustadora de que seu coração parou de bater. Não existe mais o túnel e agora tudo está completamente negro. Então um pequeno ponto luminoso amarelo cintilante surge em sua frente, e logo outro, e mais outro, progressivamente centenas deles se materializam e começam a formar uma grande tela virtual, que se expande preenchendo todo o campo de visão. Um caldeirão de enzimas invade o cérebro de Davi, ele conseguiu. Uma mensagem em cor azul turquesa aparece na grande tela recém formada:

VNR Global Corporation - Enterprise Data Module X3,update 3466.7

Crendenciais de acesso aceitas. Bem vinda, Bel Yagami.

Por favor Informe o seguimento de dados que deseja acessar.

Uma sensação profunda, misto de alívio e felicidade, invade por completo o corpo de Davi. “Puta que pariu!”, ele grita e quase pula na cama de tanta emoção.

Aliviado, o rapaz apenas observa enquanto seu bioprograma inicia o procedimento de “copy&clean”: simplesmente todos os dados do módulo corporativo de Bel serão copiados e, após a tarefa, o bioprogama vai apagar por completo seus rastros e restaurar o sistema para um estágio anterior a invasão, onde até mesmo o BioCrom será revivido.

Ela ainda permanece desacordada, com a atividade cerebral a mil, mas nenhum risco é detectado pelo software de monitoramento de Davi. Ele olha para Bel e começa a sentir uma sensação incomoda. Saudades? Tristeza por ter que abandoná-la? Davi não sabe ao certo, pois nunca havia sentido algo assim antes. “Mas que droga está acontecendo comigo?”

De novo ele espanta o sentimento e volta a se concentrar na operação, está na hora de arrumar as malas, fugir dali sem deixar rastros, e receber o pagamento mais do que merecido. O rapaz se levanta da cama e vai em direção ao banheiro, mas, subitamente, ele para no meio do caminho: uma estranha dor de cabeça começa a incomodá-lo.

Ela se origina fraca, na nuca, mas vai se intensificando e se espalhando por todo o cérebro, como se fosse uma mancha de tinta preta se alastrando em uma piscina de águas cristalinas. Davi perde o equilíbrio e cai de joelhos. “Merda! Merda!”. Então ele sente que a dor está se movendo em sua cabeça, indo em direção ao lobo frontal, concentrando-se inteira lá. Agora uma horrível sensação lancinante invade seu cérebro.

-Desgraça! - Ele grita, aterrorizado pela dor. Então se arrasta como pode para a cama. As imagens nos monitores virtuais em sua retina começam a tremer, alertas e mensagens de perigo aparecem nas telas. Ele olha para a namorada, ela ainda está desacordada, mas começa a gemer, a se debater na cama, a ter convulsões.

Sim, havia alguma coisa a mais no CND de Bel, alguma coisa oculta, maligna e muito avançada, que soube encontrar uma brecha em todo o esquema de segurança de Davi e que conseguiu vencer o racha-cuca e o KDCode.

“Puta que pariu, vou morrer aqui” - Desesperado, Davi tenta ativar mentalmente suas proteções, mas todos os seus firewalls caíram, todos os seus programas de defesa foram desativados, a coisa havia invadido seu sistema e o colocou de joelhos, e pior, sua bio-assinatura digital agora estava completamente visível na rede, rastreável de forma que até a UNI-Tron, a polícia bio-digital, poderia localizá-lo.

Então ele começa a perder os movimentos. Seus braços e pernas tremem involuntariamente. Uma mensagem surge em suas retinas: “Aviso: trace detectado. ETA: 8:59:59”.

Um trace é um programa rastreador. Em oito minutos Davi seria localizado por quem quer que fosse o autor daquela armadilha. Entre um grito e outro ele solta frases de ódio, tentando chegar na cabeceira da cama onde havia escondido a ampola de vitrotamida, uma substância sintética que poderia desligar o seu CND encerrando as conexões, e assim evitando que algo pior acontecesse. Entre um choque e outro a mente dele ficou repleta de perguntas sem respostas.

“Devem ser os filhos da puta da VNR. Aqueles escrotos usaram Bel como uma ísca! Mas que merda eles querem comigo? E por que me deixaram chegar tão perto?”

Agora seus pensamentos são preenchidos por flashs de memória da sua própria vida; dor e confusão mental impedem qualquer decisão lógica. Com muito esforço, ele consegue pegar a ampola de vitrotamida, mas sua mão trêmula deixa o objeto cair no chão.A ampola se quebra. Em pânico, Davi luta para não sucumbir a dor, porém seu esforço é inútil e o bio-hacker começa a perder a consciência, então ele pensa em um único nome: Maestro. O pensamento dispara um comando de emergência que envia um e-mail criptografado pela rede, segundos depois Davi desmaia ao lado de Bel e seu CND é desconectado.

***

Em exatos três minutos após Davi desmaiar, um flymob de modelo esportivo e arrojado, caro, manobra e se aproxima do prédio de Bel, ficando ao lado do apartamento dela. O veículo se posiciona em paralelo com a parede inteligente do quarto da suíte, que ainda está em tom marrom, permitindo que o interior seja visto. Uma das portas do veículo se abre revelando um homem mulato, com dreadlocks sinteticamente tratados posicionados todos para trás, e trajando um caro terno de caimento perfeito. Ele olha através do vidro digital e avalia a situação.

Um discreto implante ocular é ativado e uma varredura eletrônica completa é realizada no apartamento de Bel. “Micro câmeras multifásicas? O tal do Vampiro deve ser mesmo um idiota, para usar essas coisas!”, pensa o homem enquanto pega do banco do carona um aparelho rústico, de aspecto pesado e cheio de peças expostas. Do tamanho de uma espingarda de caça, o equipamento é um laser de fusão industrial adaptado para uso manual.

Um alerta pisca em um monitor do painel do veículo, indicando outro flymob que se aproxima do apartamento, e esse merece atenção, pois é um transporte militar, utilizado pela guarda corporativa da VNR. O homem se apressa, aponta o laser para o vidro e o dispara. Com precisão, ele desenha um grande círculo, que se destaca do resto da janela porém permanece imóvel.

Em seguida ele pega outro equipamento, uma pequena esfera de metal do tamanho de um melão. Ele segura o objeto com as duas mãos e puxa os dois hemisférios ao mesmo tempo, transformando a esfera em um cilindro. É um micro motor de gravidade. Então ele lança o equipamento contra o vidro recém cortado. O dispositivo para no ar a milímetros do círculo feito pelo laser, então ele se ativa e cria um pequeno campo de força, atraindo para si toda a área cortada. O micro motor começa a levitar levando junto o pedaço de vidro cortado, abrindo uma espécie de porta esférica na parede inteligente do quarto de Bel.

O homem pula rapidamente do flymob para dentro do apartamento. Por precaução ele saca uma pistola, e então analisa com seu implante ocular o corpo de Davi, depois o de Bel. Se aproxima de Davi, verifica os dados vitais do bio-hacker, pensa um pouco. Ele guarda a pistola em um coldre escondido dentro do terno.

- Mas que vacilão - diz com desdém o homem de dreadlocks olhando para Davi.

Então ele se agacha, saca uma faca, e com precisão cirúrgica faz um grande corte no rapaz. O corte se estende da base do crânio por toda a coluna cervical. A carne se abre, revelando um emaranhado de fios e pequenas placas de microchips coladas nas vértebras cervicais. O homem enfia a mão na ferida e, de uma única vez, arranca violentamente todos os componentes eletrônicos do corpo do bio-hacker.

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Aspirante a escritor, inquieto por natureza, ainda tenho vontade de mudar o mundo ou pelo menos colocar um monte de gente para pensar. Viciado em livros, games, idéias loucas e sempre procurando coisas que desafiem minha imaginação.

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15 comentários em "[Bookserie] Engenharia Reversa: Parte I - Uma Doce Manhã"

  1. Caramba!!!Quantos elementos em uma série:vírus bioneural,bio-hacker,bioscans da VNR, tempo determinado para arrumar outro emprego,achei muito criativo e intrigante!Pode liberar a parte II ,por favor.

    Bjs

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  2. O texto é bem grande, mas é fácil de ler. Instigante do início ao fim, por sinal!
    Gostei desse primeiro contato com um "universo" tão diferente, com muitas referências à tecnologia, o que acho fantástico. Esse clima futurista de ficção científica é bacana também!
    Parabéns pela criatividade! Estou curiosa para saber o que acontece.
    bjs

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  3. Olá, tudo bem?
    Estou passando aqui porque eu vi o seu link no blog de uma amiga e resolvi dar uma passadinha aqui para conhecer, pois amei o seu conteúdo, principalmente o texto dessa postagem. Nossa, vc leva jeito pro negócio em?!! Eu adorei. Deveria escrever um livro. Ficou muito bom.

    Outra coisa, queria te parabenizar pelo seu blog e principalmente pela sua organização.
    Adorei. Pretendo passar sempre aqui para ver suas novidades.
    Se cuida e fica com Deus

    Já estou te seguindo. Ficarei feliz se vc me acompanhar também
    beijinhos

    lovereadmybooks.blogspot.com.br

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  4. Nossa, muito bom, quanta criatividade. O texto prendeu minha atenção e agora estou curiosa para saber o que acontece com Davi e Bel, espero que você poste logo a continuação rsrsrs, estou super ansiosa.

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  5. Gostei muito do texto. É grandinho, mas prende o leitor. Ansiosa para ler a segunda parte.

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  6. Quando comecei a ler não imaginei que iria gostar tanto!! Primeiro por ser grandinho, mas quando comecei não consegui parar mais de ler. Adorei o trama e o universo onde acontece a história... Quero saber o que acontece depois, logo! hahah XD Davi morre? ai gente... e Bel? Quero logo a continuação. rs

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  7. Adorei essa primeira parte. Não conseguia parar de ler. Gostei muito. Vou aguardar o próximo capítulo.

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  8. Gostei bastante da resenha. Um livro bem futurístico!

    Me lembra diversos filmes rsrsrs
    Não conhecia a série e vou procurar ler!

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  9. Essa ideia de uma bookserie é muito legal, e o que posso dizer sobre essa primeira parte? Que foi realmente surpreendente, quando comecei a ler não pensava que iria gostar tanto, agora estou ansiosa pela segunda parte.

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  10. Vou esperar ele está completa pra ler
    Odeio ficar esperando :/

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  11. Me surpreendi com a curiosidade que se apoderou de mim, realmente é uma leitura instigante! Esperando pela continuação!!!!!

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  12. Nossa, a escrita me prendeu do começo ao fim.
    Esperando, ansioso, por uma continuação.

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  13. Mundo incrível esse criado! Como amante de boa história e universos diferentes (que envolvam tecnologia <3) fiquei instigada pela história, o enredo é muuuito bacana, um vírus bioneural com certeza é diferente de tudo que já li, vou aguardar os próximos capítulos.
    Beijocas ^^

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  14. Muito bom seu texto! Já fiquei imaginando de onde veio sua inspiração para escrevê-la. Com certeza é diferente de tudo que já li. Um diferente muito bom. Super curiosa pelo próximo capítulo. Tomara que saia logo.

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  15. No comecinho me senti um pouco confuso com tantos termos que não conhecia muito. Mas, com o decorrer da narrativa, as coisas começaram a ficar mais claras. Gostei da tua escrita, da criatividade e do universo futurístico que você criou. Aguardando a próxima parte dessa história.

    @_Dom_Dom

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