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21.8.15

[Bookserie] Engenharia Reversa: Parte XII - A Justiça do Sangue



Engenharia Reversa


Parte XII - A Justiça do Sangue


O bairro de Alta Santa Maria é um lugar quase esquecido pela sociedade de Vix. Sua única relevância se deve as muitas plantas industriais instaladas na região. Antes delas, o local era habitado apenas pela classe operária, porém, sem nenhuma indústria relevante. Hoje, a imensa população de operários divide espaço com muitas gangues, composta em sua maioria por blood-punks, termo usado para definir os marginais que não tem nada a perder, mas que trabalham para alguma organização criminosa.

Bem no centro da região, onde antes havia uma pequena cidade, hoje existe um grande deserto repleto de desejos industriais, foi o local onde Maestro e seus homens emboscaram o transporte da VNR. Ao redor do deserto, se erguem as plantas industriais e, depois delas, em um círculo maior, encontram-se os diversos municípios que abrigam a população local. Toda a região fica bem ao norte do centro de Vix, separada do resto da cidade pelo bairro agrícola de Esopólis.

Porém, nesse momento Santa Maria está em todos os noticiários, e seus se aproximam das janelas, para ver o perigoso "espetáculo" que se desenrola nos céus da região.

- Desviem! Rápido, agora! - Grita para seus companheiros o líder da força de ataque da UNI-Tron, com os olhos cheios de sangue ao ver os projéteis disparados pela nave do Coveiro cruzando os céus com grande velocidade em direção à esquadrilha de flymobs da força policial.

Por muito pouco ele consegue esquivar sua nave, executando uma manobra evasiva que a vira noventa graus, enquanto os morteiros passam bem perto, deixando um rastro luminoso nos céus de Santa Maria.

Mas as duas naves que seguem bem atrás do líder não têm a mesma sorte. Um projétil atinge o flymob marcado com a identificação EPX-343, transformando-o em uma caótica explosão de chamas amarelas e vermelhas, que iluminam a noite como se fossem fogos de artifício. O segundo aeromóvel por pouco não consegue escapar, o piloto erra o cálculo e a nave é atingida na parte de baixo da fuselagem. A explosão divide o veículo em dois, os destroços voam pelos céus e ainda atingem de raspão outras naves. O corpo de um dos tripulantes é arremessado, ainda em chamas, em direção aos prédios lá embaixo, como se ele fosse um grotesco meteoro humano. A massa corporal carbonizada do desafortunado policial atinge com violência o piso de uma cobertura, espalhando partes de seu corpo por entre mesas e cadeiras de plástico.

Enfurecido, o líder do esquadrão ordena um ataque massivo.

- Aquele miserável não vai escapar! Abram fogo com tudo que tiverem!

Os céus sobre o pequeno município operário são iluminados com centenas de raios de neon, cada um de uma cor diferente, cada um mais brilhante que o outro. A frente deles, um grande objeto repleto de pequenas luzes verdes e vermelhas que parecem ser fantasmagóricas executa manobras incríveis para escapar dos raios, porém, vários deles atingem o corpo da nave, criando explosões magníficas e ondas sonoras de ensurdecedores decibéis; por onde o ensandecido comboio de flymobs passa, as pessoas se surpreendem e se assustam, correndo para suas casas ou qualquer coisa que forneça abrigo.

Dentro de seu poderoso veículo, Yuri Webber, o Coveiro, está firmemente preso em uma cadeira cirúrgica, onde um de seus homens, o médico de bordo, tenta realizar uma cirurgia para implantar um olho biônico, pois seu órgão ocular esquerdo havia sido completamente destruído por um golpe de Amanda durante a emboscada para resgatar Bel. O médico tenta se segurar como pode quando os disparos das armas da UNI-Tron atingem a fuselagem da nave. Yuri está conectado em uma video conferência com Cássius, e ficou enfurecido ao descobrir que Marcela havia fugido com a ajuda de Thiago:

- Ela se foi, porra! A loirinha foi raptada pelo frangote que trabalha para o Meastro, eles me traíram!

Do outro lado do canal de comunicação, Cassius Dex, vestido com um chamativo terno verde metálico parece não acreditar nas palavras de seu sócio.

- Yuri! Como isso foi acontecer? Cara... Agora acabou de vez! Você ferrou nosso esquema! Não temos mais a presa, tu se meteu com a polícia... Ouviu o que eu disse? A merda da polícia!

- Não vai ficar assim, Cassius, te garanto. Eles não vão me prender de novo! Vou me livrar desses trouxas da UNI-Tron e vou recuperar a presa, e mato o traidor do Maestro no processo!

- Yuri, veja bem, camarada, a única coisa que você pode fazer agora é dar um jeito de escapar e se esconder o melhor que puder, até a poeira baixar. Olha isso, cara.

Nesse momento, Cassius envia um sinal de vídeo para o CND do seu sócio, onde uma chamada do programa "A Hora do Caçador" exibe a imagem do Coveiro e o classifica como a "presa mais valiosa de toda a história do programa".

O sangue ferve dentro de Yuri, liberando um turbilhão de ódio e raiva, deixando-o ainda mais insano do que o normal. Ele se levanta bruscamente da cadeira, encerrando a conexão com Cassius. Sua aparência é terrível: um buraco vermelho e roxo, ainda com pedaços de carne pendurados no lugar onde antes ficava seu olho esquerdo, possui hematomas e machucados por todo o corpo. O médico se afasta dele, assustado e segurando com a mão trêmula a prótese biônica do novo olho:

- Senhor, tenho que terminar o implante!

Yuri ignora o homem, saindo da sala como um animal que escapa de sua jaula. O flymob executa novas manobras para escapar das rajadas disparadas pelas naves policiais, e, então, responde ao fogo disparando todas as suas armas, localizadas sobre a fuselagem e apontadas para os perseguidores. Cada disparo faz tudo tremer dentro do veículo, e o Coveiro por pouco não perde o equilíbrio enquanto corre pelos corredores, o joelho, também muito ferido devido à luta contra Amanda, dói de maneira exponencial a cada passo que o homem dá. Mas ele não para, ignora totalmente a dor e finalmente chega a sala de comando, onde estão Henry, que pilota o flymob, e mais três homens, controlando as armas.

Yuri se aproxima de Henry e com um movimento bruto empurra o técnico chefe para longe dos controles.

- O que você está fazendo aqui? Seu... Seu olho! - Diz Henri, espantado ao ver a aparência medonha do chefe.

Os outros homens olham incrédulos para o Coveiro, que assume o comando da nave e imediatamente executa uma manobra radical, fazendo um cavalo de pau com o veículo e posicionando-o totalmente de frente para as naves da UNI-Tron.

Ensandecido, Yuri acelera ao máximo as quatro potentes turbinas colocando seu flymob em rota de colisão contra o esquadrão da polícia. As primeiras naves tentam resistir até o último segundo, porém, apavorados, os policiais cedem, e o grande flymob do Coveiro começa a atravessar o esquadrão como se fosse uma bala de canhão, forçando os veículos policiais a executarem manobras evasivas. As naves se desviam como podem, algumas vertendo fogo peles turbinas e vergando para os lados, outras virando para baixo ou para cima. Totalmente dominado pela adrenalina e com um brilho sinistro no olhar, o Coveiro vocifera para seus homens:

- Queimem toda a droga da munição, destruam esses filhos da mãe! - Apavorados, os três técnicos percebem que agora as naves da UNI-Tron se tornaram presas fáceis, e sem a menor cerimônia descarregam todas as armas contra o inimigo, Henry apenas observa, porém, começa a se mover para fora da sala sem que os outros percebam.

Os disparos são certeiros, destruindo em pleno ar muitos flymobs ou danificando mortalmente outros tantos. No entanto, as naves que estavam mais atrás no esquadrão abrem fogo contra a cabine do aeromóvel de Yuri, que, percebendo o perigo, desvia seu veículo tirando-o da linha de fogo minutos antes do vidro reforçado ser atingido, assumindo uma nova rota e já saindo dos limites do bairro de Santa Maria.

As naves que não foram destruídas no ar, mas que sofreram graves avarias em suas fuselagens, se aproximam da superfície e começam a pousar, aterrissando verticalmente nas calçadas e no meio das ruas. Algumas não conseguem manobrar, mas atingem altitudes baixas o suficiente para que os agentes pulem dos veículos antes deles se espatifarem no asfalto. Em alguns minutos dezenas de flymobs da UNI-Tron estão no meio de antigos carros e dispostos caoticamente nas vias terrestres do bairro operário. Fogo e explosões acontecem por todos os lados, provocados pelos veículos que foram destruídos pelos homens do Coveiro e que caíram como bolas de fogo sobre as residências e os comércios, matando nesse processo muitos civis.

Os oficiais, espalhados pelas ruas e saindo de dentro dos veículos avariados, não conseguem acreditar no que aconteceu. Muitos dos mais jovens estão em estado de choque, vendo o fogo e os restos dos veículos por sobre as construções. Porém, o que mais impressiona os novatos são os corpos carbonizados de outros tantos agentes que não conseguiriam fugir de suas naves a tempo.

Então, subitamente, grupos de blood punks de diversas gangues diferentes começam a surgir de dentro dos condomínios. Eles estão furiosos, portam desde porretes cheios de pregos a fuzis e metralhadoras da década passada, porém, são armas suficientes para causar uma carnificina. Além de quererem trucidar os policiais, eles estão atrás das valiosas peças dos flymobs que ainda funcionam.

Repentinamente, o grupo de criminosos começa a correr em direção aos policiais, gritando ensandecidamente como loucos, a horda aponta suas armas e inicia o ataque brutal sem a menor cerimônia, aproveitando-se do estado de choque de muitos dos policiais e usando o elemento surpresa.

Existe muito ódio entre a UNI-Tron e as gangues urbanas das zonas pobres de Vix, e agora o mesmo estava sendo canalizado pelas armas dos blood-punks. Não se importando em fazer prisioneiros, os criminosos metralham qualquer um que esteja usando um uniforme azul e branco, matando com a mesma violência homens e mulheres, cabos, sargentos e tenentes.

Num piscar de olhos, o ar é preenchido por gritos de horror e as ruelas são percorridas por policiais em pânico, tentando fugir da turva assassina que comera cada morte com euforia. Muitos agentes são mortos pelas costas, enquanto outros são derrubados no chão e linchados por grupos de punks usando bastões e garras de metal, o inferno não pode ser pior.

Os agentes mais velhos, que perceberam a ameaça primeiro, tentam se proteger dentro dos flymobs avariados, se esforçando para responder ao fogo e dar cobertura aos demais colegas, ao mesmo tempo solicitando desesperadamente por ajuda.

Minutos se passam, e então, rápidos como um enxame de abelhas, centenas de drones de ataque da UNI-Tron chegam ao lugar onde a chacina se desenrola, e, com manobras precisas, usam suas mini-metralhadoras e começam a rechaçar os blood punks, protegendo muitos agentes e, enfim, virando o jogo a favor da força policial. Os flymobs restantes, que ainda estão no ar, ao receberem os chamados desesperados dos oficiais em terra encerram a perseguição à nave do Coveiro e retornam para salvar seus companheiros. Em questão de segundos, as naves cercam as gangues e, da mesma maneira que os punks fizeram, atiram sem piedade nos homens das ruas. Muitos são cercados por drones, que, sem nenhuma trava eletrônica, enchem os inimigos de buracos de bala.

Enquanto isso, o flymob do Coveiro já está longe de Santa Maria, em direção ao sul e agora sobrevoando o bairro agrícola de Esopólis. Rindo da situação, Yuri interrompe a comemoração com seus homens e contacta Cassius.

- Fala, parceiro! A UNI-Tron já era. Estou indo para o ponto de encontro aqui perto, me encontre lá, beleza?

Pela tela virtual, Cassius aparenta estar um pouco cansado, com preocupação no olhar.

- Cara, você acha que vai ser tão fácil assim? Colocaram tua cabeça a prêmio! Você se tornou o segundo criminoso mais procurado nas dez cidades corporativas do continente!

Yuri ri, gostando da situação, pois agora poderia agir livremente.

- É? Que honra! - ele solta mais algumas risadas - E quem é o primeiro?

- É o tal do Maestro. O cara deve estar com a nossa presa.

Agora Yuri fica sério.

- Vou pegar o filho da puta. E depois vou atrás da Fúria para recuperar a outra presa. Tu vai ver, parceiro.

Então, um forte impacto se faz sentir dentro do grande flymob. Os técnicos, ainda em júbilo devido a incrível vitória contra a polícia, arregalam os olhos e encaram Yuri. Logo, um deles, o mais esperto, acessa os sistemas da nave e vê, incrédulo, que alguma coisa atingiu uma das turbinas. Um tiro, e disparado por uma arma muito mais potente do que as usadas pelas naves da UNI-Tron, pois o tiro havia varado a poderosa blindagem e destruído tudo no caminho.

- É um laser! - Grita o técnico.

- Dá onde veio essa porra? - Inquere Yuri, encerrando abruptamente a conferência com Cassius.

- Não sei chefe! Estamos perdendo altitude!

Logo, mais disparos atingem a nave. Como uma chuva mortal, dezenas de filetes de energia disparados de uma alta órbita perfuram a blindagem do flymob destruindo tudo que encontram pela frente. Um dos raios atinge a cabine e, grotescamente parte um dos homens em dois.

- É o GTGA! Estão usando um satélite para atirar na gente! Não temos como escapar! - Grita desesperado o outro técnico.

- Saia da minha frente!

Yuri empurra o homem e se lança para fora da cabine. Correndo com tudo que pode, ele presencia o inferno que toma conta da nave. Pequenas explosões elétricas por todos os lados, curto-circuitos, filamentos incandescestes pela fuselagem indicando por onde os lasers passaram.

Mais tiros, e agora o flymob começa a envergar para baixo. Desesperado, Yuri desce uma pequena escada e em meio ao caos consegue chegar à parte de baixo da nave, onde deveria encontrar duas flybikes.

- Filho da puta! - Grita ao perceber que uma delas não está mais ali. Então ele vê a grande escotilha aberta. Henry havia fugido.

A tempestade de raios se intensifica, causando muitos danos estruturais. Yuri se lança sobre a flybike. Imediatamente, a tela do veículo se acende e estabelece uma conexão com seu CND, exibindo informações importantes. A aero-moto começa a flutuar e, com um comando mental, Yuri faz o pequeno veículo acelerar. Com certa dificuldade, ele consegue sair do flymob. Olha para trás e presencia o espetáculo terrível: uma chuva de raios, uma cachoeira de néons, castiga sua grande nave, cortando suas partes como se fossem feitas de papel.

A moto ganha velocidade e agora já está a mais de um quilometro de distância do flymob. Uma forte explosão clareia a noite. A grande nave cai sobre uma plantação como uma bola de fogo. Centenas de luzes surgem no horizonte e se dirigem para o local do acidente. Bem distante, Yuri apenas observa usando a câmera traseira da flybike.

"Idiotas", ele pensa. Então, rápido como uma bala, o Coveiro atinge os limites do bairro Esopólis, chegando a um setor urbano mais avançado. Manobra velozmente por entre grandes arranha-céus, tomando todo o cuidado para evitar as naves da polícia, afinal, o toque de recolher está em vigor e por isso todo o cuidado é pouco. Sente o vendo no rosto, a sensação de liberdade.

Acessa um bio-arquivo em seu CND. Com um bio-software, decodifica o arquivo usando como entrada seu próprio DNA, a informação que revela o local do esconderijo é descarregada em sua memória, dando a impressão de que ele sempre soube daquilo.

Visualiza em suas retinas a nova rota e ajusta a direção da moto. Cruza os céus em alta velocidade, pilotando com precisão, enfim chega até uma cobertura em forma de círculo, localizada em um edifício de baixa estatura que é rodeado por outros imensos prédios, de tal forma que os prédios parecem criar uma espécie de muralha natural em volta da cobertura. Avista lá baixo a figura de Cassius, agora vestindo um sobretudo verde oliva.

Suavemente, aterrissa a flybike na cobertura, diminuindo gradativamente a intensidade nas pequenas turbinas laterais usadas para as manobras verticais. Aliviado, Yuri desce da moto e anda em direção ao seu sócio.

- Tá vendo só, Cassius, foi moleza!

Mas a expressão no rosto do homem não é das melhores, ele está carrancudo, um tanto tenso. Esforça-se para produzir um sorriso amarelo.

- É, bro, você conseguiu!

Yuri percebe que tem algo errado. Se lembra que na flybike existe uma pistola dentro de um coldre fixado junto ao motor. Ele gira nos calcanhares, pronto para correr para a moto, porém, é derrubado por um forte soco que surge do nada, um cruzado de direita.

Ele cai, cospe sangue e se apoia no chão forrado por placas de mármore.

- Que merda essa, Cassius?

Então, sente um forte chute contra as costelas, que o fazem voar por alguns metros na direção de Cassius, que prontamente se esquiva para um lado enquanto o copo do Yuri passa por ele.

- Acho que agora estamos quites, Coveiro.

A voz feminina ecoa no ar através de alto-falantes. Yuri tenta se levantar, porém, sente que várias costelas foram quebradas, produzindo uma dor terrível. Com um pouco de atraso enfim reconhece a voz.

- Dianna! - Ele grita, acometido pela surpresa e pelo pânico.

O ar começa a vibrar ao lado de Cassius. Contornos brilhantes parecem emergir do nada e então uma silhueta feminina ganga forma, em instantes revelando uma bela armadura branca com ornamentos dourados. A Fúria se faz presente.

- Seu desgraçado! Você me traiu! Filho da puta! - Mesmo ferido, o Coveiro consegue se levantar e empreende uma corrida desesperada na direção de Cassius, porém, Dianna está atenta e, levanto seu braço direito, dispara um dardo elétrico contra Yuri, que o atinge no peito fazendo com que o grande homem despenque, parando a alguns centímetros de seu ex-sócio.

Cassius se abaixa, olha fixo para Yuri, que ainda é puro ódio, mas já não consegue pronunciar nenhuma palavra. O dardo liberou centenas de nanorôbos em seu corpo, e agora eles estão paralisando uma a uma suas funções vitais.

- Desculpa sócio. Mas ela cobriu todo o prejuízo que tivemos na caçada e - faz uma pausa, respira fundo e desabafa - tua cabeça tá a prêmio!

Os olhos do Coveiro expressam um ódio sobre-humano, ele tenta fechar o punho para dar um último soco, mas, dominado por uma fadiga sobre-natural, desfalece.

Trinta minutos depois, Yuri recobra a consciência. Olha ao redor, está deitado em uma maca em uma sala apertada, de paredes brancas. Reconhece aquele tipo de ambiente, está a bordo de um flymob de transporte, mas um não tão grande quanto o seu, que, ele se lembra, agora não passa da um monte ferro retorcido.

Então, algo muito estranho acontece: sem que ele queira, suas pernas se movem sozinhas, seu corpo se levanta e o coloca de pé. Tudo acontece indiferente a sua vontade. "Que merda é essa?", pensa desnorteado.

Começa a andar pela sala, tenta lutar desesperadamente, tenta assumir o controle do próprio corpo, em vão. A escotilha se abre e ele entra em um novo compartimento, onde, pela primeira vez, vê Dianna sem seu capacete. Os traços finos, a pele alva, o cabelo negro preso em um coque, a Fúria é realmente linda e, por um breve instante, Yuri sente uma incômoda vontade de beijar os lábios cheios da italiana, mas o desejo logo desaparece quando seu corpo para de se mover e a sensação de impotência o domina.

Ela sorri sarcasticamente.

- Olá, Yuri. Você deve estar se perguntando o que está acontecendo, certo?

Ele tenta falar, mas seus lábios não se movem, expressa a raiva com o olhar, o que só deixa Dianna ainda mais animada.

- É só um novo brinquedinho do Raji, meu sócio genial. Incrível, não é mesmo?

Yuri é dominado por um pânico extremo, havia sido transformado em um mero boneco, um brinquedo nas mãos da Fúria. A raiva é tamanha que, por alguns instantes, ele quase sente o punho, quase consegue movê-lo um milímetro, mas logo percebe ser impossível. Dianna o observa, consegue ler suas reações. O rosto da caçadora assume uma expressão séria.

- Você é uma vergonha, Webber. E é devido a brutamontes como você que nosso ofício vem sendo perseguido pelas autoridades. Você não respeita o Código, não joga conforme as regras, nunca se filiou à Ordem de Ártemis, ou seja, você não merece ser chamado de caçador, Yuri. Não estou aqui apenas para capturar a Marcela, que você, de maneira suja e covarde roubou de minhas mãos. Estou aqui, principalmente, para fazer justiça, a Justiça do Sangue.

Yuri ouve atentamente cada uma das palavras, sim, havia o Código e a maldita Ordem de Ártemis, uma seita imbecil, segundo ele, que treinava e controlava os caçadores de recompensas ao redor do mundo, uma coisa pavorosa, que ia contra seus ideais de liberdade. A Justiça do Sangue era como os caçadores artemianos chamavam o ato de se livrar dos caçadores que não pertenciam à ordem, em outras palavras, era quando um caçador caçava outro para matá-lo ou deixá-lo incapacitado para sempre. Não existem alternativas, ele começa a desistir de lutar. "Fim da linha", pensa, já se conformando com seu destino.

Ainda consegue controlar seus olhos, e somente eles. Vê a caçadora pegando o capacete, muito semelhante a um elmo de centurião romano. Ela o coloca com delicadeza e então se move na frente dele, descendo por uma pequena rampa com passos cadenciados, o quadril, em lentos movimentos devido a armadura, irradia uma certa sensualidade, bonita, mas não vulgar. Os movimentos de Dianna espelham confiança, mostrando que, naquele momento, ela havia vencido.

Então eles saem de dentro da nave e Yuri a reconhece como o flymob de Dianna, bem menor que o seu, porém, muito mais rápido. Olha em volta, vê fumaça e pequenos incêndios por todos os lados, vê os restos dos aeromóveis da UNI-Tron juntamente com vários corpos espalhados ao longo da rua, muitos policiais, mas também muitos blood punks. Então, percebe, ele está de volta a Santa Maria, no bairro operário onde seus finados técnicos haviam dado aquela "surra" na força policial.

Um grupo de agentes se aproxima dos dois, à frente deles, um oficial cumprimenta Dianna com um aparto de mãos, ela então se volta para Yuri e fala com ele usando a interface de comunicação do CND.

- Você foi à presa mais fácil que eu já capturei, e a mais valiosa também!

Incrédulo, ele a vê subir de volta para a nave, mas, antes de fechar a rampa, Dianna se vira para o Coveiro e envia uma última mensagem:

- O bio-programa do Raji é sensacional! Ele me permite ter total controle sobre os seus músculos, contudo, tem um pequeno probleminha: você não sente nenhuma dor, é como se seus nervos fossem desligados, e isso não é bom, porque seus amigos ali querem te dar um recado. Enfim, estou desativando o programa e em breve ele será destruído e expelido do seu corpo, através de suas glândulas sudoríparas. Ah, e se serve de consolo, não se preocupe que vou capturar a Marcela, a VNR colocou um alto preço pela cabeça dela.

Dianna desaparece com a pequena rampa se fechando de sua nave se fechando. Logo o veículo inicia seu procedimento de decolagem. Yuri então sente um choque e cai de joelhos. De imediato, ele consegue abrir os dedos das mãos, e, para sua satisfação, volta a sentir seus braços e pernas.

Animado, não percebe os muitos agentes que começam a cercá-lo, e quando se dá conta, é atingido brutalmente no rosto por um forte soco. Perto dali, o oficial que havia cumprimentado Dianna emite uma ordem que se restringe apenas aos policiais presentes:

- THX 754, desligue todas as câmeras, temos um acerto de contas a realizar.

Os oficias da UNI-Tron fecham o círculo ao redor do Coveiro e, cheios de fúria, o agridem com uma profusão de socos, chutes e golpes de cassetete, descarregando no caçador de recompensas toda a raiva acumulada durante a última hora. Yuri é forte, mas em pouco tempo sua mente desfalece enquanto seu corpo se torna um mero saco de pancadas.


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Aspirante a escritor, inquieto por natureza, ainda tenho vontade de mudar o mundo ou pelo menos colocar um monte de gente para pensar. Viciado em livros, games, idéias loucas e sempre procurando coisas que desafiem minha imaginação.

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15 comentários em "[Bookserie] Engenharia Reversa: Parte XII - A Justiça do Sangue"

  1. Gostando cada vez mais da ação que essa estória transmite. Gosto muito de como a paisagem é descrita e de como os personagens evoluem. Aguardando o próximo.

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  2. Oi, André! Tentando recuperar o fôlego aqui rs. Genial! Fica cada vez melhor. Adorei todas as cenas de ação, as reviravoltas e sua criatividade é admirável. Ansiosa pela continuação.

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  3. Oi,
    Acompanhei a parte anterior e essa me surpreendeu ainda mais. Tem ação do jeito que gosto. Eu fiquei imaginando o corpo carbonizado do policial espalhado no piso, que loucura essa parte. Parabéns pela história! Está me prendendo cada vez mais. Aguardando ansiosamente a parte seguinte.
    Bjjs

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  4. As cenas de ação como sempre fantásticas, consigo ver cada detalhe em minha imaginação. Achei impressionantes as cenas de violência protagonizadas pelos grupos de punks, e fiquei bastante curiosa pra saber como Yuri conseguirá sair dessa encrenca.
    Abraços!

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  5. Estou adorando cada vez mais essa história.
    Como adoro livros com muita ação, estou encantada com essa história.
    Aguardando ansiosamente a próxima parte da história.

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  6. Tenho acompanhado essa história desde o começo do mês passado, e estou adorando como ela está se desenvolvendo. E quem não gosta de uma boa ação? Até eu que não sou muito fã desse gênero, estou encantada <3
    Já estou ansiosa pela continuação, e o que irá acontecer com Yuri, depois de virar um saco de pancadas dos oficiais =/
    Abçs!!

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  7. André, a história é bastante envolvente. Li, desde os primeiros capítulos, e me prendi bastante a trama contada por você. Não vejo a hora de ler mais capítulos repletos de ação e aventura.

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  8. Olá a todas e todos! Estou meio sumido porque o tempo está cada vez mais curto! Rs, mas não parei de escrever ER, estamos quase chegando na reta final da história. Muito obrigado pelos comentários e pelas palavras, eu realmente curto muito saber que a opinião dos leitores e leitoras ; )

    Bem, criei uma fã page do livro do Facebook, e eu adoraria que vocês dessem uma passadinha por lá:

    https://www.facebook.com/engenhariareversalivro

    Abraços e beijos!


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    1. Já estou te seguindo pelo face, amei a fã page!
      Abraços!

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  9. Oi!
    Gosto muito dessa historia a cada capitulo a historia fica mais interessante, fiquei muito curiosa sobre esse capitulo já que o anterior acabou e fiquei sem saber se eles iriam escapar e ao terminar de ler esse fiquei apreensiva pra saber o que ira acontecer com o Yuri !!

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    1. Valeu Suzana, eu até queria contar spoilers, mas não vou estragar a surpresa! Rs...Abraços

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  10. André!
    A forma como faz as descrições de forma detalhada é um dos pontes que me atri mais em sua narrativa.
    cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
    Participem do nosso Top Comentarista!

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    1. Obrigado, Rudy. Eu gosto de descrever, mas tento não ser superficial o bastante e nem exagerar. Abraços!

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  11. Puts! Parece que foi ontem que estava lendo o primeiro capítulo, e hoje já estamos chegando no 12º. A cada dia já começo a ficar esperando o desfecho disso tudo. A única coisa que espero é ser surpreendido.

    @_Dom_Dom

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    1. Rs! E eu acho que vai ser, muito em breve, Nardonio! Abraços!

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