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23.8.17

Grandes Esperanças [Charles Dickens]

Grandes Esperanças
Penguin Companhia, 2012 - 704 páginas
- "Pip, um órfão criado rigidamente pela irmã num lar humilde e disfuncional. A vida de Pip sofre uma reviravolta ainda maior quando, já se preparando para o ofício de ferreiro, recebe a visita de um advogado, que anuncia que o jovem é herdeiro de uma fortuna. Após abandonar a família para viver em Londres, Pip passa a desprezar a sua vida anterior, tentando tornar-se digno de se casar com a jovem Estella, que, no entanto, não se interessa por seus sentimentos."

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Você com certeza já ouviu falar de Charles John Huffman Dickens (1812-1870) ou, pelo menos, de alguns de seus muitos livros como, por exemplo, David Coperfield, Um Conto de Natal (que já deve várias adaptações para o cinema, para televisão e para o teatro), Oliver Twist, Um Conto de Duas Cidades... e tantos outros. Dickens – ou Boz, como também era conhecido, foi o mais popular romancista da era vitoriana, cuja obra contribuiu bastante para a crítica social na literatura inglesa de ficção.

Publicado já quase no final da carreira de Dickens, o romance Grandes Esperanças é considerado uma das melhores obras do escritor britânico. Inicialmente publicada em série, no jornal All the Year Round entre Dezembro de 1860 e Agosto de 1861, a obra é dividida em três volumes e já teve várias adaptações para o cinema e para a televisão.

Quem já conhece os livros de Dickens sabe o quanto o autor gosta de construir personagens irônicos, principalmente levando em consideração o humor britânico já pulsante na era vitoriana. Com Grandes Esperanças não é diferente. Narrado em primeira pessoa pelo nosso protagonista e herói improvável, Philip Pirrip – ou Pip, como ele mesmo gosta de ser chamado, o livro é considerado uma das obras mais fantásticas já escritas por Dickens, ainda que o autor tenha decidido reescrever o final.

Charles Dickens

Tudo começa com um dia decisivo na vida de Pip que, até então, é só um menino. Brincando distraído nos terrenos do cemitério – que ótimo, não? – Pip é abordado por um prisioneiro fugitivo que obriga o garoto a ajudá-lo. O fugitivo ordena que Pip lhe consiga uma lima – uma espécie de cerrote para metais – para cerrar as correntes que lhe prendem a perna.

Apavorado, Pip volta para casa de sua irmã mais velha – com quem ele mora, desde que seus pais morreram, na esperança de conseguir as ferramentas para o fugitivo junto a ferraria de seu cunhado. Acontece que esse não é um dia qualquer, mas sim o dia de Natal (um tema bastante recorrente nas obras do autor) e, nessa ocasião, a família de Pip recebe a visita de um parente distante que traz notícias que vão mudar o destino do garoto.

Miss Havisham, uma rica e excêntrica senhora que vive na cidade, está em busca de crianças para “apadrinhar”. Doida para se livrar do menino e das despesas extras, a irmã de Pip decide enviar o garoto para Miss Havisham e, assim, Pip acaba vivendo dois fatídicos acontecimentos no mesmo dia: ele se torna cúmplice de um foragido da justiça e, também, o protegido de uma senhora rica.

Ao chegar na casa de Miss Havisham, Pip descobre que não estará sozinho. Aparentemente, Miss Havisham já havia adotado uma outra criança, a menina Estella. Pense numa patricinha de marca maior, e então multiplique isso por dez: o resultado seria algo próximo do que é a menina Estella. Insuportável, mandona, toda cheia de si, Estella promete fazer da vida do pequeno Pip um verdadeiro inferno já que, aparentemente, Miss Havisham apadrinhou o garoto justamente para que, uma vez por semana, ele viesse brincar com a menina, e evitar que ela se sentisse muito solitária.

Alguns anos se passam, e Pip e Estella crescem. Ela se torna uma bela jovem, e ele, um belo rapaz. Acontece que, de forma inesperada, Pip recebe uma herança de um benfeitor misterioso e, do dia para a noite, se vê consideravelmente rico. Até então, descrente de conquistar o afeto ou mesmo a atenção de Estella, justamente por ser de uma classe social inferior, Pip se torna o mais confiante – e também o mais arrogante – jovem aristocrata da cidade.

Grandes Esperanças

Grandes Esperanças é um livro que traz muito de Charles Dickens e, ao mesmo tempo, é completamente diferente de tudo o que o autor já havia produzido até então. Pip nada mais é um do que um garoto órfão e pobre, criado pela irmã mais velha, de quem sofre maus tratos. Como muitas outras obras da era vitoriana, esse é um romance de formação, isto é, o leitor tem a oportunidade de acompanhar o crescimento e o desenvolvimento moral e intelectual do protagonista. Mas diferente de outros meninos bonzinhos surgidos da imaginação de Dickens (como Oliver Twist e David Coperfield), Pip não é assim tão herói quanto seus antecessores dickensianos. Na verdade, ele é bastante arrogante e presunçoso e, não raro, fez por merecer muitos dos tapas que levou no pé da orelha.

Isso não quer dizer que Pip seja um protagonista ruim, muito pelo contrário. Sua personalidade é uma das mais humanas da literatura inglesa, e a jornada pessoal que ele vivencia ao longo do romance é extremamente palpável. É como se Charles Dickens, já no final de sua carreira literária, tivesse finalmente decidido que era hora de se desvencilhar do convencional melodrama vitoriano, para então se aventurar nas bordas do realismo. Em alguns pontos, a narrativa chega até a adquirir um outro tom, lembrando um pouco os romances góticos (na dúvida, basta olhar para Miss Havisham).

Apesar de Dickens não ser nenhum grande defensor do empoderamento feminino, Grandes Esperanças é um romance quase que completamente dominado por figuras femininas. O livro não só retrata diretamente o estilo de vida da era vitoriana, mas também realiza, em momentos muito sutis, uma denúncia velada à violência doméstica que as mulheres sofriam já naquela época. Outros temas também bastante recorrentes nessa obra são o sistema penitenciário britânico (lembra que Pip ajuda um foragido da justiça logo no começo da história?), os processos judiciais interminavelmente longos e imparciais (duas pessoas de origem sociais diferentes recebem tratamentos diferentes, ainda que o crime que elas tenham cometido venha a ser o mesmo).

Como dito anteriormente, esse romance de Charles Dickens ganhou diversas adaptações para o cinema, para o teatro e para a televisão. Duas das mais populares são a adaptação para o cinema de 1946, filme em preto e branco dirigido por David Lean, e a mais recente adaptação para a televisão realizada pela BCC. Enquanto o filme apela bastante para a parte gótica da obra (com uma Miss Havisham bem tenebrosa), a minissérie da BBC tem um quê de romance histórico – os amantes de Orgulho e Preconceito vão se sentir em casa com essa minissérie.

Grandes Esperanças

Vale a pena comentar que a edição de Grandes Esperanças da editora Penguin Companhia é um verdadeiro presente para os apaixonados por livros. Além de contar com um excelente trabalho de tradução, o livro tem, ainda, um prefácio bastante explicativo e contextual sobre a época em que Dickens viveu e como isso transformou a obra. Essa edição contém, ainda, os dois finais que o autor escreveu para a obra, ficando a cargo de nós, leitores, eleger o melhor.

Charles Dickens dispensa apresentações de sua genialidade. Grandes Esperanças é uma leitura obrigatória para todos os amantes da literatura inglesa.


Thiago Oliveira
Leitor Preguiçoso, não sai de casa sem levar um livro, é sentimental, e só começa o dia depois de uma boa caneca de café.
Cortesia do Grupo Companhia das Letras
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comentários pelo facebook:

15 comentários em "Grandes Esperanças [Charles Dickens] "

  1. Thiago!
    Faz tempo que não leio uma resenha de um clássico da literatura. Ultimamente os romances e livros fantásticos da atualidade dominam nos blogs e fico bem feliz em ver que ainda existem leitores de clássicos.
    E ainda melhor ver que o livro escolhido traz esperança e fala de assuntos, que mesmo escrito há décadas, ainda são tão atuais.
    Análise bem feita.
    "...Aceite com sabedoria o fato de que o caminho está cheio de contradições. Há momentos de alegria e desespero, confiança e falta de fé, mas vale a pena seguir adiante..."(Paulo Coelho)
    Cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA DE AGOSTO 3 livros, 3 ganhadores, participem.

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  2. Oi Thiago.
    Confesso que essa é a primeira vez que vejo falar do livro e fiquei bem curiosa para ler e apesar de não ser muito por dentro do assunto de empoderamento feminino, sempre gosto quando acho em livros mulheres que são dignas de admiração em especial por sua força, enfim gostei.
    Bjs.

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  3. Oi Thiago, Grandes Esperanças é um clássico do autor e apesar de ainda não ter lido já ouvi falar e curti muito a resenha, não sei se a personalidade de Pip me cativaria pra leitura de um livro de 700 páginas por agora mas achei bem bacana a indicação da série e tentarei assistir ;)

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  4. Olá! Charles Dickens é..., por isso não resta dúvida de que este seja um grande livro, já tinha ouvido falar sobre a história, mas ainda não tive a oportunidade de ler, o que corrigirei o mais breve possível, gostei da dica da série e sem duvida também entrará na minha listinha.

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  5. Oi Thiago,
    Já ouvi falar (e muito) de Charles Dickens , mas nunca li nenhuma de suas obras. Quando se trabalha com o crescimento do personagem ao longo da trama corre-se o risco da história se perder um pouco, mas Dickens sabe como trabalhar o desenvolvimento de forma que não só o personagem cresça mas que a narrativa, gradualmente, vá se adaptando ao que ocorre no livro. Pip é bem inocente no começo da trama, tanto que quando ele se depara com o prisioneiro sua atitude é a de ajuda-lo, uma característica que cativa o leitor. O adulto que ele irá se tornar são consequências de escolhas e de fatos que irão ocorrer em sua vida e isso torna a história bem crível. Espero conhecer a escrita de Dickens em algum momento e espero que seja com Grandes Esperanças.

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  6. Oi Thiago, tudo bom?
    Essa é a primeira vez que ouço falar do Dickens hahaha, e fiquei super interessada em ler Grandes Esperanças, parece ser um livro muito bom, e achei legal que nosso protagonista não é de todo bonzinho, que ele tem atitudes bem realistas, espero ter a oportunidade de ler, e que interessante ter dois finais e fica a nosso critério escolher o que mais gostamos.
    Beijos *-*

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  7. Olá!
    Essa é a primeira vez que ouço fala desse autor, não tinha conhecimento dos livros deles e nem dos filmes. Gostei bastante desse livro, tem uma historia maravilhosa e o personagem tem aquela carisma quando criança e ao poucos vai mudando essa lado dele para melhor. Espero ter a oportunidade de ler ele.

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  8. E ai Thiago! Beleza?

    To amando esses posts de clássicos, ainda não conhecia a escrita do Charles de perto, mas adorei!


    Grande abraço,
    www.cafeidilico.com

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  9. Tenho esse livro na lista e ia demorar para ler ele, mas depois dessa resenha acho que vale a pena colocar ele na frente e começar a ler logo. Tomara que eu goste. 😃

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  10. Dickens e os temas natalinos..gostei do personagem principal não ser aquela figura de menino bonzinho,dá mais vontade de conhecer sua jornada.
    Ah,tem adaptação da BBC?Não sabia,tenho interesse em conhecer essa obra há algum tempo,vou atrás dela antes de encarar o livro.Bom ver essas dicas de clássicos por aqui ^^

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  11. Eu sou super fã de Dickens, desde que li David Coperfield.
    Grandes esperanças está na minha lista de próximos.
    Não sabia que havia uma minissérie feita pela BBC, irei procurar.
    Ótima resenha.

    beijinhos

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  12. Já ouvi falar muito do autor, mas ainda não li nenhum de seus livros e nem sabia da minissérie que fiquei curiosa para assistir. O livro parece ser interessante com um protagonista que também comete erros e que se torna um arrogante por causa do dinheiro que recebe nos mostra um personagem bem real, apesar da mudança de tempo muitas coisas não mudam, fiquei curiosa com o desenrolar da vida dele.

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  13. Oi, Thiago!!
    Gostei muito da resenha, acho que nunca li nada de esse autor, mais sem dúvida algumas adaptações já assisti. Acho bem interessante que o dinheiro faz com as pessoas. Amei a indicação e se tiver oportunidade vou ler sim.
    Bjos

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  14. Sim, já assisti várias versões de David Coperfield, Um Conto de Natal, mas nunca li nenhum livro do Dickens, e sinceramente, o livro Grandes Esperanças não despertou o meu interesse, mas fiquei curiosa em relação a essa minissérie da BBC por causa desse quê de romance histórico, vou ver se eu consigo assisti-la e quem sabe depois eu fique interessada em ler Grandes Esperanças?!... Mas no momento esse livro não vai para a minha lista de leitura...
    Abraços!

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  15. Já conhecia o autor de nome, mas nunca me interessei.
    Que livro grande, talvez no futuro com mais tempo, prefiro ver a minissérie e ver se dá um ânimo.

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