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7.10.16

[Bookserie] Engenharia Reversa: Parte XXI - O Lobo e os Abutres

André Luis Almeida Barreto


Engenharia Reversa


Parte XXI - O Lobo e os Abutres


A horda de máquinas insanas da Falange da Montanha envolve por completo o comboio de strikers, como moscas atraídas pela carne exposta, os bugres providos de metralhadoras se aproximam e cravam de balas as blindagens dos grandes veículos, enquanto homens nas garupas das motos lançam granadas contra as rodas dos titãs inimigos.

A cada explosão, o corpo de ferro do Lobo do Deserto sofre uma convulsão, que faz seu sistema hidráulico rangir, emitindo um ruído tenebroso que reverbera pelo interior do veículo.

No compartimento dos passageiros, o grupo sente os tremores, mas todos estão calados, aguardando que alguma coisa aconteça para por fim aquilo, mas o silêncio não esconde a ansiedade e o medo, que fica bem evidente nos olhares de Marcela, Davi e Thiago, enquanto Maestro observa com interesse os medidores dançarem nas telas e Bel fica imóvel e de olhos bem fechados, totalmente apoiada em sua poltrona.

- Ela tá dormindo? Ela desligou? Como é que pode? - Diz Thiago olhando para a executiva.

- Bel! O que você tá fazendo? - Grita Marcela.

A voz de Bel invade a mente de Thiago, usando os intra-transmissores do CND:

"Eu tô tentando achar alguma coisa sobre essa Falange da Montanha, estou vasculhando a HyperNet, mas não tem nada!"

"Caramba, Bel, como você consegue acessar a Hypernet? Desde que saímos de VIX a conexão ficou tão lenta que eu não consegui completar nenhuma requisição!"

"Foi bem complicado, e não consegui um bom canal, e está me drenando! Vou sair"

- Thiago! - Grita Marcela.

- Oi! Ah... Desculpa é que eu tava...

- Ele estava falando comigo, Marcela. Eu tentei achar alguma informação sobre a Falange na Hypernet, mas não tem nada!

- Hypernet - Diz Davi, olhando triste para o chão.

De súbito, outro forte tremor sacode a estrutura interna do veículo, fazendo com que todos olhem para os monitores das câmeras; a imagem exibe um trio de motos que se distancia, onde os homens nas garupas giram correntes no ar que criam traçados flamejantes, quase hipnóticos, produzidos por bolas de fogo presas nas extremidades das correntes. Então, uma das motos se aproxima e o carona fica de pé, lançando a corrente e seu artefato incendido contra o Lobo do Deserto, uma serpente incandescente cruza o ar, rapidamente desaparecendo do foco, em instantes, outro estrondo violento se faz ouvir, rangendo a estrutura do striker, o Lobo grita mais uma vez.

- Mas essa coisa não tem armas? - Protesta Davi.

- Elas estão carregando. - Responde Maestro.

- Como assim? - Questiona a engenheira.

- Vejam aqui - Maestro aponta para um uma das telas, que exibe quatro barras preenchidas em mais da metade. - Esses veículos utilizam um tipo de arma nada usual, os projeteis são acelerados usando correntes elétricas, um mecanismo chamado de railgun.

Marcela arregala os olhos, focando nos monitores.

- Bem, se os Filhos de Alfa Um, a UNI-Tron e a Fúria não nos mataram, com certeza essa falange imunda vai! - Ironiza Davi.

- Maestro, quanto tempo falta pra essa coisa carregar? - Pergunta Marcela.

- Três minutos.

A engenheira bufa. Davi e Thiago suspiram.

- Bel, faz alguma coisa!

- Ela não pode fazer nada, Marcela, não existe interface sem fio com o Lobo, além disso, o sistema operacional dele é muito antiquado.

Então uma estrondosa explosão acontece, o striker derrapa, sacolejando ainda mais seu interior.

- O reator explodiu! - Grita Marcela, apavorada.

- Nem tanto! - Responde Thiago, segurando no ombro da loira, tentando confortá-la.

- As câmeras frontais perderam o sinal, aconteceu algo grave. Bel, venha comigo.

Maestro solta seu cinto de segurança e com um pulo está na frente da escotilha, girando a trava hidráulica que a mantém fechada. O Lobo diminuiu sua velocidade, do lado de fora, o número de atacantes aumenta.

- Ei, por que vai levar ela, cara?

- Porque ela pode ser muito útil, Davi.

- Mas como, se você mesmo disse que é impossível se conectar com o sistema dessa lata velha?

- Velocidade de processamento neural, aprendizado aumentado, sinapses digitais...

- Tá, já entendi. - Responde Davi, apático, sob os olhares quase zombeteiros de Thiago e Marcela.

Rapidamente, Bel e Maestro chegam à cabine, onde podem ver através dos vidros gradeados uma nuvem negra ascender para o céu azul, é o Flecha Vermelha, avariado e movendo-se para fora da estrada, virando para a direita cercado por ambos os lados pelas motos e bugres da Falange, com seus pilotos gritando e comemorando, atirando sem parar no veículo danificado. Ao perceber a presença dos dois passageiros, Samuel cospe uma gosma estranha, então volta a mastigar algo e começa a falar ao mesmo tempo:

- Os filhos da mãe acertaram um cabo de combustível do Flecha, eu falei para o otário do Karl trocar a blindagem! Esses strikers mais novos não sabem o que é guerra, não foram endurecidos!

- Ele vai explodir?

- Não, nada disso, moreninha. Vamos montar o forte e fazer os reparos.

- Forte?

Samuel solta uma pequena risada, então ajusta seu headphone.

- Karl, aguenta firme seu bosta! - ele pressiona um botão no volante. - Jabe? Tá na escuta?

- Tô aqui. Câmbio!

- E aí? O Guarani já tá no grau? Minhas armas não tão prontas ainda e o Flecha tá pacificado.

- Vou ter que salvar a pele de vocês, de novo! Dez segundos para o guerreiro cuspir metal! Vai, entra no delta!

- Fechou!

Bem a frente, o Flecha Vermelha está parado e virado de lado, entre os dois strikers uma turba de motoqueiros enlouquecidos.

- Segurem-se! - Grita Samuel, acelerando o veículo.

Então o Lobo do Deserto vira bruscamente para a direita, levantando uma grande quantidade de poeira e parando em paralelo ao outro striker. Os dois gigantes ficam lado a lado, prendendo um bugre da Falange entre eles. Desnorteados, os ocupantes do bugre saem correndo, passando bem rente as câmeras do Lobo. Os dois homens conseguem se afastar, mas são surpreendidos pelo Guarani, que avança sobre eles os jogando no chão e os esmagando, não dando tempo para os irmãos da Falange resgatarem os seus. Enfurecidos, os atacantes concentram o fogo no Guarani, mas as metralhadoras do striker respondem com ferocidade, tirando de combate vários inimigos.

Então o Guarani manobra, ficando do outro lado do Flecha Vermelha, o lado avariado. Ele começa a parar se colocando paralelo ao seu irmão ferido. Os três titãs de metal ficam alinhados.

- Forte montado! - Diz pelo rádio Jabe, o piloto do Guarani.

Agora os atacantes formam um círculo ao redor do comboio. As granadas cruzam o ar explodindo contra os strikers. Notando que o Lobo ainda não começou a atirar, a maioria dos inimigos concentra os esforços contra ele, metralhando a proteção de metal das rodas e tentando atingir partes pouco protegidas pela blindagem.

- É isso aí! Esses abutres de merda vão ver o que é bom! - Comemora Samuel, quase em êxtase - Maestro, Yagami, as armas estão prontas! Tomem seus lugares e comecem a mandar esses infelizes para o inferno!

Bel olha para Maestro sem saber o que fazer. Ele aponta para uma cadeira na lateral da cabine, onde, no console de comandos próximo a ela, um monitor exibe os vários veículos inimigos, marcados por quadrados vermelhos a medida em que entram no campo de tiro. Abaixo do monitor, dois controles em forma de joystics.

Ela rapidamente entende o que precisa fazer, mas exita. Maestro se senta e começa a manejar os controles das armas, logo, duas das quatro metralhadoras do Lobo começam a atirar, derrubando muitos inimigos, mas também errando incontáveis tiros.

- Bel, rápido! Assuma o seu lugar e opere as armas! - Grita Maestro.

Ela engole seco, mas se senta e assume os controles. As outras duas metralhadoras respondem imediatamente, e Bel se concentra na imagem à sua frente, notando um padrão de movimento nas manobras dos inimigos. Ela respira fundo, encara os quadradinhos na tela e então pressiona os botões de tiro, sentindo os controles vibrarem quando as armas são disparadas, como se aquele sistema de morte estivesse vivo.

- Minha nossa! - Grita Samuel, impressionado.

Cada bala disparada pelas armas sob o controle de Bel acerta o seu alvo: ou o tanque de combustível de uma moto, ou o motor de um bugre, causando pesadas baixas nas fileiras da Falange. Do outro lado, o Guarani continua repelindo os inimigos, que gradualmente começam a se afastar, sumindo no horizonte e deixando seus mortos e feridos para trás.

Logo, todo o campo envolta dos strikers está repleto de corpos e de carcaças de metal flamejante. As armas silenciam, focos de fumaça negra emanam dos veículos destruídos criando sombras monstruosas na areia. Samuel se volta para Bel:

- Moreninha, você não errou um tiro! Nunca vi ninguém atirar assim! Quantas vezes você já usou um sistema desse tipo?

- Nunca, essa foi a minha primeira vez.

https://www.facebook.com/engenhariareversalivro

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André Luis Almeida Barreto
Aspirante a escritor, inquieto por natureza, ainda tenho vontade de mudar o mundo ou pelo menos colocar um monte de gente para pensar. Viciado em livros, games, idéias loucas e sempre procurando coisas que desafiem minha imaginação.

22 comentários:

  1. Pra quem nunca usou um sistema assim teve uma grande sorte de principiante, hein? Como ainda não li os anteriores, continuo muito perdida, mas a sua escrita é muito legal e envolvente. Um dia, eu juro, que vou ler tudo desde o início. Ou não... hahaha
    Um abraço!

    http://paragrafosetravessoes.blogspot.com.br/

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    1. Eduarda, muito obrigado! Mas tem uma boa explicação, acredite! Rs, abraços!

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  2. Oi, André!
    Sua escrita é ótima, flui muito agradável e, ao mesmo tempo, prende a atenção. Prometo que irei reler as partes anteriores, pois estou um pouco perdida. De qualquer forma, parabéns, a história é muito bem escrita. Abraços.

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    1. Obrigado, Márcia! Leia mesmo e depois volte aqui e diga o que achou!

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  3. Nossa! Sua escrita é muito boa!
    Mas eu cheguei agora no blog e não sabia que vc escrevia!
    Vou tentar ler desde o começo para poder me situar na história.

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    1. Bem vinda, Rita. Obrigado e espero que goste da trama! Abraços!

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  4. André!
    Cada vez que chego aqui e leio mais um capítulo dessa maravilhosa ficção bem escrita, fico curiosa por saber como tudo terminará....
    Ansiosa por mais um capítulo.
    “Buscamos, no outro, não a sabedoria do conselho, mas o silêncio da escuta; não a solidez do músculo, mas o colo que acolhe.” (Rubem Alves)
    cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
    TOP Comentarista de OUTUBRO com 3 livros + BRINDES e 3 ganhadores, participem!

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    1. Muito obrigado, Rudy. Sempre bom ter seu incentivo! Abraços!

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  5. Oii André!
    Cada vez que vc nos trás m capítulo me surpreendo mais ainda com o bookserie..Lembro q no comecinho pensei q não iria me interessar...E foi ao contrário...Hj, enquanto não consigo ler, fico no aguardo pra ler e ansiosa pra descobri mais um pouquinho dessa aventura...
    Bjs

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    1. Nossa, muito grato, Aline. Fico bem contente! Bjos!

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  6. Oi, tudo bom?
    Gostei muito, achei super bacana a ideia de termos a bookserie, sua escrita é bem fluida e os personagens bem construídos.
    Beijos *-*

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    1. Oi, Camila. Muito obrigado pelo comentário! Beijos!

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  7. Oi.
    Eu amei o capítulo de hoje, mas confesso que me perdir em algum lugar, irei tentar reler todos os capítulos assim que der, você tem uma escrita muito fluída, e eu amei, parabéns.
    Boa Tarde.

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    1. Boa, Marlene, tenta mesmo! O livro tá ficando bem maneiro!

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  8. É o primeiro post que leio dessa bookserie e apesar de eu ter entendido muita coisa, fiquei bem curiosa para descobrir mais. Vou começar a ler do início e pretendo acompanhar daqui pra frente. Gostei muito da sua escrita André.

    Beijos, Gabi
    Reino da Loucura || Participe do top comentarista e concorra por um livro a sua escolha.

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    1. Olá, Gabriela, obrigado pelo comentário. Leia mesmo, e depois dê sua opinião sincera, ok?
      Beijos,

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  9. Bel sempre arrasando, se não fosse por ela os outros estariam perdidos, curiosíssima para saber mais sobre suas habilidades...
    Abraços!

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  10. Oi, André!
    Ainda não tinha lido nenhuma parte da história mas pelo visto já cheguei em um momento bem crítico. Achei bem interessante, consegui tranquilamente imaginar tudo isso acontecendo em um filme de ação, e o Samuel como um daqueles caras que sabe consertar tudo e é sempre bem durão.

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    1. Olá, Luciana! Bem vinda! Que bom que o texto conseguiu passar essa impressão. Abraços!

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  11. Tenho que confessar que me perdi em capítulos anteriores! Vou tentar retomar a leitura. Mas pelo que li aqui sua narrativa continua maravilhosa e a história está bem fluida.

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  12. Sua escrita é realmente muito boa. Embora tenha pego a história já iniciada, gostei muito, gostei da ação presente no enredo. Fiquei bem curiosa para conferir tudo, assim que tiver um tempinho farei isso.
    Abraço!
    A Arte de Escrever

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