acompanhe o blog
nas redes sociais

20.1.17

[Bookserie] Engenharia Reversa: Parte XXVII - Você Ainda Tem Uma Chance

André Luis Almeida Barreto


Engenharia Reversa


Parte XXVII - Você Ainda Tem Uma Chance


- Nos tirem daqui, seus bostas!

Maestro esmurra mais uma vez a placa de vidro, os borrões de sangue criam um estranho desenho na superfície transparente e fina; ela possui apenas uma abertura na parte de baixo, por onde a comida é entregue, e apesar da aparente delicadeza, o material resiste sem nenhum arranhão aos ataques violentos do deletador.

No fundo da cela, sentado no chão e encostado na parede, Davi tem o olhar distante e o semblante completamente apático diante da explosão de fúria de Maestro. A imagem dos corpos de Bel e Thiago vão e vem de sua mente, provocando um sentimento de tristeza que ele nunca imaginou ser capaz de ter, minando suas forças e o deixando apático, o completo oposto de Maestro, que, ainda enfurecido, castiga novamente o vidro e vocifera para quem quer que esteja do outro lado da cela:

- Vocês não tem o direito do nos manterem presos! O que fizeram com os corpos dos meus amigos?

A placa transparente recebe uma nova sequência de chutes poderosos, mas apenas treme levemente em resposta. Exausto, Maestro se apoia de costas em uma parede e arqueia o tronco, segurando nos joelhos, seus dreds caem sobre o rosto e então ele começa a respirar mais lentamente, tentando recuperar o fôlego.

- E agora? O que vamos fazer? Acho que a missão acabou. - Diz Davi olhando para o chão.

- Ela só acaba quando Yagami chegar ao Brasil.

- Bel morreu, cara. - Davi se levanta. - Thiago morreu. Marcela finalmente foi capturada. Você perdeu tudo. Eu perdi tudo.

Maestro se aproxima de Davi e o encara com afinco, os olhos brilhando, as sobrancelhas arqueadas.

- Não. Bel não morreu, eu tenho certeza.

- Você tá louco, cara! A missão subiu a sua cabeça! Aceita que é mais fácil. Já era, estamos condenados a passar o resto da vida nessa prisão de pedra.

***

A luz vai gradativamente ficando mais forte. O frio proveniente da chapa de metal é sentido como uma navalha na carne. Em um espasmo, Bel abre os olhos para logo em seguida desviar o rosto do foco da lâmpada amarela, posicionada bem em cima de sua cabeça. Sente um cheiro forte e agridoce. O peito lateja e ela então se dá conta de que está completamente nua, deitada em uma bancada. Olha para o peito e vê o buraco do tiro, a bala já fora removida e o processo de cura está em andamento. Suas células biosintéticas trabalham para reparar os tecidos, ossos e órgãos danificados. "Maestro!". Ela se concentra e tenta novamente contactar o deletador, sem sucesso. Acessa um subsistema e em instantes a mensagem pisca em sua retina: "Energia insuficiente para o sistema de comunicação. Energia desviada para o sistema de reparação vital".

- Droga!

Rapidamente se senta na bancada, mas então tudo gira ao seu redor e a cabeça dói, novamente se deita. Fecha os olhos e respira fundo. "Toda a minha energia está sendo usada para reconstruir meu corpo, tenho que ir devagar". Lentamente, se apoia nos braços e começa a se levantar de novo, abre os olhos, nada de tontura. Então, subitamente, olha para o lado. O coração dispara, mesmo danificado.

- Thiago!

Ele move as pernas, uma de cada vez. Os pés descalços sentem a pedra fria, o granito que reina abundante em Nova Esperança. Leva as mãos ao peito forçada pela dor da carne que quase a faz se deitar novamente, mas persiste, arrastando os passos até o amigo. Examina com pesar o corpo de Thiago Klein. A bala entrara exatamente no mesmo local: bem no tórax, bem no coração. O hacker está pálido, seus lábios arroxados e o cabelo volumoso completamente desgrenhado, mas ele está sereno, tranquilo, o reflexo da luz amarela o faz parecer uma obra de arte mórbida, uma estátua de tempos remotos. Lágrimas vertem dos olhos dela; então se lembra do homem que atirou neles, do contentamento nos olhos do assassino ao ver o corpo dela tombar, ao ver Marcela sendo capturada. "Marcela, companheira". A lembrança do ocorrido parece doer mais que a ferida no peito. Então Bel se abaixa e abraça Thiago, maculando-o com suas lágrimas.

- Você ainda tem uma chance, meu amigo. Nós vamos encontrar Marcela e você a verá novamente! Eu te prometo.

Ela dá uma última olhada no hacker ruivo, enxuga as lágrimas e fecha os olhos brevemente, então, tomada por uma energia súbita, se volta para o outro lado e começa a esquadrinhar o ambiente; logo encontra suas roupas, empilhadas em uma das prateleiras coladas na parede. Vê muitos instrumentos cirúrgicos dispostos sobre bancadas, estantes e armários de metal. Em uma prateleira um punhado de caixinhas translucidas se destacam, são as primeiras coisas de plástico que Bel vê em Nova Esperança. Rapidamente se veste e então vai até as caixinhas, pega uma delas e a abre, arregala os olhos ao ver o pequeno objeto envolto em uma crosta cor de vinho. "Minha nossa! Um CND! Mas para que eles querem isso?". Por impulso ela leva uma mão à nuca e a tateia, mesmo sabendo que nada lhe havia sido feito. Então corre até Thiago e levanta a cabeça do rapaz, procurando por incursões cirúrgicas, felizmente, tudo está no lugar. "Não podemos deixar ele aqui. Tenho que encontrar os outros e voltar para pegar o corpo de Thiago!". Então ela percebe com um susto a câmera fixada na parede bem em cima da porta, um led vermelho piscando incessante. "Merda!".

Com o máximo de cautela que consegue, se aproxima da porta de madeira e levemente vira a maçaneta, produzindo um 'claque', puxa o cabo de metal, deixando a porta aberta apenas o suficiente para seu corpo passar. Com um passo de cada vez, Bel adentra um grande corredor. Sente uma corrente de ar e olha para os lados: a sua direita, bem lá na frente, ela pode ver a recepção, onde uma grande porta revela a noite. Do outro lado, o corredor se prolonga e termina em uma bifurcação antes de alcançar uma parede, onde uma pequena janela está aberta. Pé ante pé ela começa a se mover na direção da recepção, ainda tonta, a cabeça doendo e o peito latejando, no corredor o cheiro agridoce é ainda mais forte.

Enquanto anda confere seus sinais vitais e checa o progresso da reparação dos órgãos avariados. "Ótimo, já posso tentar contactar o Maestro agora... O quê? O sinal biodigital dele desapareceu !? Mas como?". Por um minuto ela vacila, perde o equilíbrio e quase cai no chão de pedra, então respira fundo e se recompõe. "Preciso sair daqui. O primeiro passo é sair daqui."

Volta a se mover, seguindo de costas rente à parede. Se aproxima da porta da recepção. Leves baforadas de ar vindas da rua ajudam a dissipar o cheiro forte. Ela para de se mover na entrada. Olha rapidamente para dentro da sala e vê, do lado de fora do prédio, um soldado montando guarda, contudo, o homem e está de costas para o interior da sala. Batimentos subindo, e a dor no peito acompanhando. Se joga novamente para a parede do corredor, respira rápido. Então dá outra olhada para dessa vez observar todo o interior da recepção: cadeiras, uma grande janela em uma parede e, na parede oposta, um balcão com um homem vestido de branco e lendo algum tipo de jornal. Atrás dele, seis monitores exibem imagens das várias salas do prédio, Bel pode ver a sala onde estava, com o corpo de Thiago ao lado da bancada de metal vazia. "A não!".

A dor de cabeça começa a diminuir e o peito já não lateja mais, porém, ela ainda se sente fraca. De súbito, uma ideia surge em sua mente. Checa a distribuição de energia em seu corpo. "Sim! Acho que vai dar!". Rapidamente começa a procurar por todos os sinais biodigitais na cidade. Então a dor volta, a fraqueza aumenta e ela é forçada a se sentar. "Tenho que ser rápida, não posso me dar ao luxo de esperar mais!". Logo uma listagem de vários endereços hexadecimais aparece em sua retina. "Decodificar". O comando é executado, mas ao custo de quase fazê-la desmaiar. Respira fundo. Agora a listagem exibe um conjunto de nomes e dados, apenas quinze CND's ativos em toda Nova Esperança. Vasculha os dados e logo encontra o que procura: a tag de identificação de Samuel, com seu ID biodigital.

Repentinamente, um som vindo da rua começa a preencher o ar. Bel se levanta, sua pupila dilata; vozes, pisadas fortes contra o chão de granito. Ela olha para a rua: um grupo de homens entra apressado na recepção, guardas da cidade; a frente deles, um oficial de cabelos brancos e rosto limpo aponta horrorizado para a matriz de monitores na parede. O soldado que montava guarda se junta ao grupo, se apresentando perante o superior:

- Ninguém entrou ou saiu do prédio, senhor! - Grita o guarda.

- Então ela ainda pode estar escondida! Vocês três, vasculhem tudo aí dentro - ele se volta para os quatro soldados que ficaram mais próximos da entrada - E vocês, cerquem o perímetro, ninguém entra, ninguém sai, entendido?

Os soldados confirmam com um gesto de cabeça e logo partem para executar suas ordens. Bel estanca, arregala os olhos, mas então se vira bruscamente e empreende uma corrida desesperada até o lado oposto do corredor. Chega à bifurcação. Olha para a direita: o corredor se prolonga até uma parede, de um lado ela vê o que parecem ser portas, bem espaçadas umas das outras; olha para a esquerda: apenas uma lâmpada funcionando, de forma que é impossível ver o resto do corredor.

- Ei, eu vi alguém correndo lá para dentro! - Grita um dos guardas.

Bel se lança na penumbra.

https://www.facebook.com/engenhariareversalivro

IR PARA O PRIMEIRO CAPÍTULO
Para navegar entre os capítulos clique sobre os botões "Anterior" e "Próximo" disponíveis logos abaixo.

[Anterior] [Próximo]

André Luis Almeida Barreto
Aspirante a escritor, inquieto por natureza, ainda tenho vontade de mudar o mundo ou pelo menos colocar um monte de gente para pensar. Viciado em livros, games, idéias loucas e sempre procurando coisas que desafiem minha imaginação.

21 comentários em "[Bookserie] Engenharia Reversa: Parte XXVII - Você Ainda Tem Uma Chance"

  1. Olá!!
    Desde que li a sua BOOKSERIE eu adorei de verdade e fora que estou adorando os personagens, ainda estou lendo os outros anteriores aos poucos mais cada um está ficando cada vez mais interativo, super diferente.
    Até mais!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, Marília! Que massa! Tem bastante coisa para ler, mas acredito que será um bom divertimento! Obrigado pelo comentário e abraçõs!

      Excluir
  2. André, como eu disse no capítulo anterior, essa é a primeira BOOKSERIE que eu comecei a ler e a acompanhar. Para um aspirante a escritor sua escrita é tão leve que eu começo a ler e quando mal percebo já acabei. O fato de você trazer detalhes tão minuciosos deixa a leitura muito rica.
    E esse suspense no final deixa um gosto de quero mais para os próximos capítulos.
    Espero que você continue escrevendo e cada vez mais aperfeiçoe sua escrita.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigado pelo apoio, Nicoli. Eu ainda tenho muito que aprender, mas a experiência com ER está sendo ótima! Valeu!

      Excluir
  3. André!
    É sempre um imenso prazer poder ler mais um capítulo da sua booksérie.
    Hoje fiquei um tanto triste...com pena do amiguinho...
    “Eu não procuro saber as respostas, procuro compreender as perguntas.” (Confúcio)
    cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
    TOP Comentarista de JANEIRO dos nacionais, livros + BRINDES e 3 ganhadores, participem!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Rudy, pois é, é sempre uma decisão complicada, mas, como você deve saber, nada tem fim, principalmente numa história de ficção...rs Abraços!

      Excluir
  4. Apesar de não curtir muito ficção sempre me vejo envolvida nessa história! Parabéns!!

    ResponderExcluir
  5. Oi André...
    Sua escrita surpreende a cada capítulo... Estou adorando acompanhar essa Booksérie, que como eu já disse, a cada capítulo um gostinho de quero mais...
    Abraços.

    ResponderExcluir
  6. Olá, estou amando essa book série, apesar de estar ainda no começo, espero que tenha muitos outros capítulos. Beijos.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, Alison, obrigado! Está na reta final!

      Excluir
  7. Adorei essa parte XXVII da booksérie, super bem escrita, e sempre quando leio fico envolvida na história, gostei muito, aguardando a próxima booksérie.

    ResponderExcluir
  8. Olá, amei essa parte, a historia como te envolve mesmo não te acompanhado desde o começo mas e linda, a leitura e leve, te envolve..e perfeita...
    Bjs

    ResponderExcluir
  9. Oi André!
    Cada capítulo da série me envolvo no enredo, vc tá de parabéns pela escrita!
    bjs!

    ResponderExcluir
  10. Oi André
    Gostei do link para o primeiro capítulo,ficou prática essa organização no blog,é muito legal ver a evolução da história com o passar do tempo

    ResponderExcluir
  11. Oi, André!!
    Estou adorando a história!! Cada capitulo melhor que o outro!!
    Beijoss

    ResponderExcluir
  12. eu estou adorando essa série!!! ou melhor continuo adorando essa série, cada cap traz uma nova reviravolta!
    sucesso rapaz!

    ResponderExcluir
  13. Estou adorando acompanhar essa BOOKSERIE. Está cada dia melhor! Parabéns pela escrita!

    ResponderExcluir

Qual sua opinião sobre o livro? Compartilhe!

siga no instagram @lerparadivertir