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11.11.19

A Fúria: E Outros Contos [Silvina Ocampo]

Silvina Ocampo
Cortesia do Grupo Companhia das Letras

A raiva incontida

Retomei o interesse pela literatura argentina logo após assistir ao filme “Relatos selvagens”. Pode parecer estranho à primeira vista, mas é a mais pura verdade. Pensei comigo: se nossos amigos hermanos podem produzir um filme tão intenso, impactante e envolvente, o que não poderiam fazer no universo literário?

Pensei em Borges, em Casares e a consequência natural foi Silvina Ocampo. E por que ela? Estranhamente negligenciada por aqui acabou redescoberta ainda que tardiamente. Fazendo parte da aristocracia portenha ela viveu e morreu à sombra de familiares e amigos, muito por causa da fobia que sentia de sua imagem (em inúmeras fotos ela aparece com as mãos em frente ao rosto).

Em 1940, Silvina casa-se com seu parceiro Bioy Casares e é por ele eclipsado. Por sua vez Casares perde o brilho ao se deparar com um expoente Borges (amigo de Silvina de uma vida inteira).

Este lugar marginal no qual Silvina se colocara e mais os escândalos (homossexualismo, libertinagem e um casamento aberto cheio de casos) envolvendo seu nome podem ter dado vazão, razão e inspiração aos escritos insólitos que tomaram conta de seus contos.

A Fúria: E Outros Contos
Título: A Fúria: E Outros Contos
Autor: Silvina Ocampo
Tradutor: Livia Deorsola
Editora: Companhia das Letras
Gênero: Horror
Páginas: 224
Edição:
Ano: 2019
Onde comprar: Amazon

A fúria (Companhia das Letras, 224 páginas) é a prova cabal de tudo aquilo que estou dizendo. É um tesouro feito de violência e poesia.

No coração da tarde, o sol a iluminava como um holocausto nas lâminas da história sagrada. As lebres não são todas iguais (...), e não era sua pelagem, acredite, que a distinguia das outras lebres não eram seus olhos de tártaro nem a forma caprichosa de suas orelhas; era algo que ia muito além do que nós, humanos, chamamos de personalidade. As inumeráveis transmigrações que sua alma tinha sofrido lhe ensinaram a se tornar invisível ou visível nos momentos indicados, para haver cumplicidade com Deus ou com alguns anjos intrépidos.

Em seus contos podemos perceber um pouco de sua arte inicial, já que ela estudou pintura com um dos mais destacados pintores cubistas, Fernand Léger. Traça ambientes e entornos com maestria como o faz um pintor, dando graça e cores para fazer brilhar suas personagens.

(...) Vocês dois, Elena e você, me olhavam com reticência, pensando que não era a loucura que me espreitava, e sim que eu espreitava a loucura, para atormentar a quem estivesse por perto. Entre as volutas de fumaça dos cigarros dos dois, você me olhava com ódio, enquanto acariciava um cão porfiado que sempre te esperava, que esperava ser seu porque não tinha dono.

Mas não se enganem, a cólera está sempre lá à espreita, aguardando o momento oportuno ou inoportuno, que seja, para sua entrada triunfal e aniquiladora.

(...) logo me irritaram a indiferença e a doçura aparente com que ela respondia aos seus lamentos, às suas mentiras. Ela acumulava rancores, rancores que a rodeavam como aqueles gatos horríveis que ela adorava. Era fácil chegar a esse estado, tolerando em silêncio o meu comportamento. Ninguém destruiu com mais força um afeto. Ninguém aceitou com tanta docilidade um distanciamento...

E é aí que Silvina Ocampo ganha terreno, explode o seio familiar, desvenda o que há de mais obscuro no cotidiano, nas pequenas coisas escondidas no varejo. Ela constrói um mundo sem regra moral, ego e superego destruídos, apenas desejos, vontades, pulsões primitivas fora de controle, prato cheio para Freud.

Para mal dos meus pecados, eu era canhoto. Quando tomava o lápis com a mão esquerda para escrever ou segurava a faca para cortar carne na hora das refeições, o Avô me dava uma bofetada e me mandava para a cama sem comer. Cheguei a perder dois dentes graças a esses tabefes e, por causa dessa penitência, que tanto me debilitou no verão tremia de frio sob agasalhos de inverno. Para me curar, o Avô me deixou passar uma noite inteira debaixo de chuva, de camisolão, descalço sobre o piso frio. Se não morri, é porque Deus é grande ou porque somos mais fortes do que pensamos.

Eu me arrisco a dizer que o profundo sentimento de frustração, insegurança, inveja, tudo dentro do mesmo caldeirão, está sempre prestes a entrar em combustão, bastando apenas o tempero. E o tempero de seus contos é sem dúvida a “raiva”.

(...) Se não morri, não me procure, e se morri, tampouco: nunca gostei que me olhasse meu rosto enquanto eu dormia.
(...) jamais vou entender por quê; era como se nossos lábios tivessem sido selados para tudo o que não fosse beijos nervosos, insatisfeitos, ou palavras inúteis.

Em muitos de seus contos, Silvina se utiliza de crianças para destilar seu veneno, isso causa um imenso incômodo, é como se isso lhe desse salvo-conduto para qualquer tipo de atrocidade, já que as crianças não podem ser responsabilizadas por atitudes insanas, ainda que seja o assassinato.

Foi difícil escolher os trechos que demonstrariam a potência dos escritos de Silvina, separei dezenas. E nem só de raiva vive um bom livro de contos, há também o amor, mesmo que travestido de raiva e eu me pergunto: não seríamos todos assim, um misto de raiva, volúpia e amor, contidos em nome de um suposto bem maior que chamamos moral?

Faz quanto tempo que não penso em outra coisa a não ser em você, imbecil?, você, que se intromete nas linhas do livro que leio, na música que escuto, dentro dos objetos que vejo. Não creio ser possível que o revestimento do meu esqueleto seja igual ao seu. Suspeito que você pertence a outro planeta, que seu Deus é diferente do meu, que o anjo da guarda da sua infância não se parecia com o meu(...) Às vezes, ao ouvir seu nome ser pronunciado, meu coração para de bater. Imagino as frases que você diz, os lugares que frequenta, os livros de que gosta.

Só pra não dizer que Silvina é só raiva o conto do qual mais gostei , “O prazer e a penitência”, não há violência alguma, ele não representa em absoluto esta coletânea, mas está nela por algum motivo e é aí que se encontra o cerne dos contos dessa autora – eles dizem mais do que querem dizer, cabe-nos alcançá-los.

(...) não se pode ser fiel um equívoco indefinidamente.

E como se não bastasse o desvelo com que Silvina goteja sua ira sobre a família, a moral e os bons costumes, revelando tudo o que é varrido para debaixo do tapete (nisso ela se parece com nossa Clarice Lispector, aliás as duas leram uma a outra como apresentado no posfácio do livro), ela ainda trafega pelo fantástico com a mesma naturalidade com que passa manteiga no pão, como se tudo não passasse de algo banal.

Ela não me respondeu e apertou os lábios: jamais voltou a abri-los para me dizer que me amava. Não consegui chorar. Como se a contemplasse do topo de uma montanha, eu a olhei, distante, indefesa, inalcançável. Sua loucura era meu único rival. Eu a abracei pela última vez e foi como se a violasse. Durante o relato, o tempo, para mim, tinha transcorrido ao contrário: para ela, vinte anos menos, que significaram para mim vinte anos mais. Dei uma olhada no espelho, esperando que refletisse seres menos angustiados, menos perturbados que nós. Vi que meus cabelos tinham ficado brancos.

Silvina nasceu para levantar bandeiras e eu não queria estar em um debate com alguém como ela detentora do dom da retórica, do poder do convencimento. Alguns de seus contos me atingiram em cheio, não se encerram em si mesmos, repercutem ad infinitum. E não é esta a função de um conto: atingir o oponente com um só golpe?

comentários pelo facebook:

17 comentários em "A Fúria: E Outros Contos [Silvina Ocampo]"

  1. Puxa, admito que não conheço nenhuma obra da autora, mas depois de uma resenha tão sentimental assim, deu maior vontade conhecer.
    E não falo no sentimento bom não, falo realmente da fúria, da gana que provavelmente você sentiu ao ser tocado por contos tão intensos!
    Há uma intensidade em cada palavra e foi maravilhoso ler tudo isso.
    Como não conhecia, claro que já quero demais poder conferir não só essa raiva incontida, mas outras obras da autora!!!
    Beijo

    Angela Cunha Gabriel/Rubro Rosa/O Vazio na Flor

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  2. Olá! O título e capa do livro já me deixaram aqui intrigada, mesmo tendo notado que se trata do gênero terror na descrição do livro (gênero do qual eu fujo um pouco), fiquei curiosa para conhecer a escrita da autora, que parece fazer uso de uma linguagem forte e impactante.

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  3. São textos densos, cruéis, reais que impactam o leitor pela força que possuem e pela identificação que por vezes sentimos.

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  4. Rodolfo!
    Gostei do jogo de palavras e sentimentos existentes em sua resenha.
    Não sei se um livro que traz a raiva e outros sentimentos tão perniciosos como inspiração, possa trazer o real sentido do ser humano.
    Acredito que apenas fazendo a leitura para ver.
    cheirinhos
    Rudy

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  5. Uau, essa resenha está perfeita!
    Ainda não tive contato com a literatura argentina, mas agora estou me perguntando o porquê.
    É um turbilhão de sentimentos e fiquei fascinada com suas palavras - imagino como vou ficar com a leitura.
    E por trazer contos, acho que será mais fácil para um primeiro contato.

    Beijos

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  6. Acho que nunca li uma definição mais correta para os contos! Apesar de gostar bastante, não tenho lido tantos contos assim, e é uma leitura que normalmente me agrada, apesar de quase sempre ficar com aquela sensação de “mais uma página”. Confesso que ainda não me arrisquei na literatura argentina, no entanto gostei da dica, e sem dúvida vou procurar mais sobre a obra e principalmente sobre a autora.

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  7. Olá Rodolfo!
    Fico sempre encantado com a diversidade literária que encontramos de país para país, porque sempre há uma particularidade local que torna a obra em questão mais autêntica, e aqui não parece ser diferente.
    Em cada um dos contos é possível perceber que Ocampo se doa inteiramente para que o leitor absorva esse turbilhão de sentimentos que permeia as histórias, de modo que a experiência se torna muito profunda.
    Beijos.

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  8. Confesso que não curto muito contos nem o gênero terror. Mas não foi só por esses motivos que o livro não despertou a minha atenção.
    O maior critério que uso para começar uma leitura é o impacto que a sinopse, resenha ou até mesmo de partes do livro me causa, e foi isso que senti falta nessa obra.

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  9. Olá Rodolfo!
    Apesar de não conhecer a autora, só por esses trechos dá pra perceber a intensidade de suas palavras e as reflexões que elas trazem. Esse trecho do canhoto é bem impactante, ainda não consigo acreditar que a pessoa era torturada por escrever com a mão "errada". São tantas bizarrices. Mas voltando ao livro, não faz meu estilo de leitura, mas sem dúvida é uma obra bem intensa.
    Beijos

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  10. Olá! ♡ Ainda não conhecia nem a obra, nem a autora, mas gostaria de conhecer seus contos.
    O livro é bem diferente do que estou acostumada a ler, mas ainda assim fiquei bem curiosa para conferi-lo.
    Parece um livro bem intenso, que traz a tona várias reflexões e críticas importantes.
    Obrigada pela indicação! Beijos! ♡

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  11. Oi Rodolfo,
    Não me lembro de já ter tido contato com algum autor argentino e nem com filmes originários do país, mas como cada vez mais tenho ido atrás de referências que não sejam americanas ou inglesas, essa indicação é mais que bem vinda. Pela capa do livro eu jamais esperaria uma história tão densa e impactante, mas sendo a autora, também uma artista era algo de se esperar, afinal de contas há muitas artes coloridas, mas que representam tristeza, medo e até dor. Os contos, pelo o que foi citado, são brutos, trazem elementos chocantes o que, acredito, demonstra bem o estilo da autora. Mesmo contos, não sendo um estilo de leitura que aprecio, A Fúria tem um certo apelo que me deixou curiosa tanto pela narrativa quanto pela vida de Silvina.

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  12. Olá!
    Não conhecia a obra da autora, fiquei muito interessada pela leitura. O livro tem uma ótima premissa. Não sou muito de ler contos mas alguns que leio fico muito curiosa para conhecer.

    Meu blog:
    Tempos Literários

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  13. Oi, Rodolfo
    Não conhecia a autora, mas vou pesquisar mais sobre seus livros.
    Pela sua resenha percebo que a leitura é complexa, envolvente e nos convida, como poucas, à fantasia e à imaginação.
    Assim que tiver chance quero ler esse livro.
    Beijos

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  14. Oiii ❤ Ainda não conhecia a autora, nem li algo dela, mas só pela resenha deu para perceber que ela tem uma escrita única.
    Achei tão interessante que a autora fala sobre o obscuro no cotidiano e faz uma crítica ao bons costumes e a família, deve ser bem legal observar a forma como ela faz isso no livro.
    Obrigada pela dica de leitura.
    Beijos ❤

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  15. Estranhamente não curti muito o que a autora escreveu. Muito intenso e impactante, mas que para mim não estou preparada. Vou tentar assisti ao filme Relatos Selvagens primeiro.

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  16. Oi, Rodolfo!!
    Acho que nunca li nenhum livro de uma autor argentino e a primeira vez que leio algo sobre a obra da Silvina Ocampo, mas achei interessante a história e se tiver oportunidade vou sim curtir essa indicação.
    Bjs

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  17. Oi, Rodolfo
    Não conhecia o livro, nem a autora, mas achei esses contos bem interessantes.
    Algo forte, crítico e que nos parar e refletir sobre a vida que levamos, o que nos frustra, o que precisamos superar, etc.
    Anotado!
    bjs

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