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23.12.16

[Bookserie] Engenharia Reversa: Parte XXV - Acerto de Contas

André Luis Almeida Barreto


Engenharia Reversa


Parte XXV - Acerto de Contas


"Tempo para reestruturação da tíbia esquerda: 00:02:56. Tempo para reestruturação do fêmur direito: 00:03:47. Tempo para reconstrução do pulmão direito: 00:06:45."

Jonas e Rat Bones erguem Amanda com dificuldade, cada um segurando em um braço da ciborgue.

- Ali! Coloquem ela apoiada naquela pedra. - Ordena Yuri, apontando para uma grande pedra que se projeta do chão arenoso.

- Que mulher pesada! Não parecia ser tão pesada assim!

- Pois é, cara! Tudo bem que ela é mais alta que eu, mas esse peso todo deve ser essa armadura. Aliás, chefe, por que não tiramos a armadura dela? Isso deve valer uma fortuna!

- É uma boa ideia, Jonas, mas não sei se vai sobrar alguma coisa depois que eu terminar com ela.

Os dois mercenários ficam em silêncio e se entreolham por um instante.

- Mas, Yuri, tu acha prudente matar uma agente da corporação? A VNR vai vir com tudo se fizermos isso! - Diz Jonas, preocupado.

Yuri saca uma faca de combate. Examina a grande lâmina por alguns instantes, como se a mesma fosse um objeto de desejo, logo responde ao mercenário atarracado:

- Que se dane. Vamos para algum lugar fora do alcance da GFA. Afinal, temos a nave mais indetectável que aqueles manés já construíram!

- Isso é verdade! - Responde Rat Bones animado.

Após alguns passos eles chegam na pedra, ela é um pouco inclinada mas com uma superfície lisa e grande o bastante para escorar o corpo de Amanda. Jogam o corpo da agente contra a pedra, de qualquer jeito.

- Coloquem ela de frente, porra! E segurem bem os braços. Eu quero ver aqueles olhões verdes!

- Eu vou ... - Sussurra Amanda através dos alto-falantes do seu capacete.

- Opa! O que... o que você disse, sua vaca? Você vai é morrer! - Diz Yuri, provocativo.

Rat Bones e Jonas obedecem a ordem, virando bruscamente o corpo de Amanda e a colocando de frente para o Coveiro. No horizonte, os primeiros raios de sol começam a despontar.

- Rat, me dá seu rifle - ordena Yuri.

- Prá que tu quer ele?

- Me dá logo essa merda!

O Coveiro puxa o rifle pelo cano, arrebentando a presilha da alça que o fixava à armadura leve de Rat Bones. Então ele se aproxima de Amanda, vendo o seu próprio reflexo no visor do capacete dela

- Eu vou... matar... todos... vocês! - Amanda diz com arduidade.

Yuri solta uma gargalhada. Então levanta o rifle segurando a arma pelo cano com as duas mãos, como se ela fosse um bastão, rapidamente gira o quadril e flexiona os braços, aperta com mais força o cano metálico e então gira de volta o tronco, movendo o rifle no ar em quase cento e oitenta graus, certeiro na direção da cabeça de Amanda. A pancada é violenta, a coronha do rifle atinge em cheio o vidro reforçado do capacete, entornando o pescoço da vítima; ela se contorce e tenta se libertar, mas suas feridas explodem em dor, e os dois mercenários fazem ainda mais força para segurá-la. Então Yuri repete golpe, uma, duas, três, dez vezes, vociferando ódio a cada violenta pancada contra o vidro do capacete. Cansado, ele para, recupera o fôlego e examina o elmo, nota uma pequena rachadura; satisfeito, exibe os dentes em um sorriso diabólico e volta a golpear com violência, seus braços indo e vindo como um pêndulo incontrolável, aterrorizando Rat Bones e Jonas enquanto Amanda se debate.

Um forte estalo. A rachadura aumenta. Yuri concentra os golpes que passam a ser mais rápidos e diretos, castigando sem piedade o ponto fragilizado. A cabeça de Amanda pende para para trás e Yuri explode em um grito de cólera, castigando sua inimiga sem piedade.

- Calma, chefe, assim você vai arrancar a cabeça dela! - Grita tenso Rat Bones.

O Coveiro não dá ouvidos, aumentando ainda mais a força, então, de súbito, o vidro arrebenta lançando uma enxurrada de cacos sobre o chão. As pupilas de Amanda se dilatam. "Não posso deixar o medo me dominar. Não posso ceder a esse animal. Meus ferimentos... meus ferimentos estão quase curados. Aguente firme!" ela diz para si mesma. Yuri solta uma urra, feliz da vida.

- Vejam só que olhos lindos! - ele joga o rifle contra o chão e gesticula apontando o rosto da Rainha de Fogo, agora desprotegido. - Coloquem ela de joelhos, bora!

O brutamontes se aproxima da mulher, enfia as duas mãos dentro do capacete dela, não se importando com as pontas de vidro que restaram; segura firme na parte interna do elmo, respira fundo. Começa então a fazer força, cada vez mais força, tensionando seus bíceps e tríceps ao máximo. Ele solta um grito pavoroso, então o capacete avariado começa a se desprender do resto da armadura com um ranger de metal. Amanda tenta manter o controle, mas é impelida pela agonia e tenta se soltar, mas os reparos em seu corpo estão sugando toda a energia, deixando-a quase indefesa. Yuri grita, seus músculos quase saltando para fora do corpo, então a liga de flexmetal explode lançando pedaços por todos os lados; enfim, o caçador joga o capacete da vítima ao deserto, bufando.

Então ele se apoia nos joelhos, ofegante mas com um sorriso no rosto. Amanda o encara com fúria nos olhos. Yuri se recompõe percebendo o olhar de sua vítima, e se fortifica com ele.

- Tu vai sofrer, sua vaca! Segurem ela com firmeza! - Ele diz com desprezo.

O Coveiro se apoia em uma das pernas, flexiona o braço direito para trás e fecha o punho. Então solta o soco, usando a raiva como combustível. O choque do punho contra rosto de Amanda é avassalador; então ele repete o golpe com o outro braço, tecidos e músculos são destruídos pelo punho enfurecido; alterna novamente para o braço direito, mais impactos, sangue jorrando no ar. Cruzados de direita, cruzados de esquerda, sequências e mais sequências, a cada golpe Yuri solta uma risada, em júbilo. Então, finalmente, para a fim de recuperar o fôlego; respira fundo, observa o estrago no rosto de Amanda e abre um sorriso perverso.

Ela abre a boca, mas, ao invés de palavras, despeja no chão uma gosma escarlate e escura. Em seguida arfa, exausta. Seus cristais visuais implantados nas retinas estão rachados e borrados, embaçando a visão. "Aguenta firme, Amanda, aguenta!" Suplica para si mesma.

- E isso é só o começo, desgraçada! Você vai se arrepender de ter cruzado o meu caminho!

Então o caçador saca sua faca e, com a outra mão, agarra o pescoço da ciborgue e o aperta. Extremamente rápido, ele enfia a ponta da lâmina na parte de baixo do globo ocular esquerdo dela. Faz força, a carne é perfurada e o sangue escorre; veias, nervos e conexões biodigitais se rompem em uma dor excruciante.

- Desgraçado! Você vai pagar por isso! - Amanda Vocifera, a voz trêmula.

Ele a ignora e com empenho move a faca para baixo, como se ela fosse uma alavanca. A dor se espalha por todos os nervos, fazendo Amanda tremer e se esganiçar; lágrimas escorrem de seu outro olho enquanto ela luta para se libertar, forçando os mercenários a aplicarem quase toda a potência de seus implantes para segurá-la; então o globo ocular salta para fora da órbita, ficando pendurado no rosto por um filamento ensanguentado, balançando no ar.

- Mas que merda, chefe! Mata logo ela de uma vez! - Protesta Jonas com o assentimento de Rat Bones.

- Não. Estamos apenas começando, garotos.

A voz de Yuri soa tranquila, ele larga a faca e solta o pescoço de Amanda, pega o olho balançante e começa a manuseá-lo, examinando cada detalhe com atenção. Então volta sua atenção para a mulher: ela está arfando, seu rosto, irreconhecível, não passa de um amontoado de hematomas e sangue enegrecido, mas seu outro olho, mesmo avariado pelos socos, continua fixo em Yuri. Ele ri, deliciando-se, então, de súbito, dá um forte puxão que arranca de vez o órgão visual balançante, rompendo o filamento e produzindo um esguicho de sangue. Amanda vocifera um gemido agoniado.

A tela virtual que restou na Rainha de Fogo treme, perde o foco e a nitidez, então escurece completamente. Imediatamente, toda a resistência desaparece de seu corpo e ela perde os sentidos, desfalecendo nas mãos de seus carrascos.

- Não acredito! Ela morreu! - Grita Rat Bones assustado.

- Caraca! Ela parou de lutar! Chefe, você deve ter arrebentando um circuito cerebral, a mulher morreu! - Grita Jonas incrédulo.

- Nada disso, seus Idiotas! Ela está fingindo! - Responde Yuri com ferocidade.

***

Amanda abre os olhos, sua visão está embaçada. Espantada, levanta o tronco bruscamente. "Eu estava deitada? Mas o que é isso? Onde estou?" Desesperada, leva as duas as mãos ao rosto e tateia a face, a visão desembaça mais um pouco, não há olho arrancado. "Como isso é possível?" Então percebe: nenhuma tela virtual, nenhum display, nenhuma mensagem. Todos os indicadores de saúde, GPS, conexão orbital... tudo se foi. Apoia as mãos no chão, sente um tecido fino, sente algo fofo embaixo dele. "Areia?" A visão desembaça um pouco mais. Incrédula, ele vê suas seu corpo despido da armadura. As pernas nuas e os pés descalços. Pernas de carne e osso. A visão desembaça completamente. Vozes animadas surgem ao redor, o som das ondas quebrando levemente na areia, crianças correndo por todos os lados, o sol bronzeando sua pele e a brisa do mar refrescando seu corpo. "Sardenha! Meu Deus! Como isso é possível?"

- Ei! Peguei pra gente! - Diz um homem que surge ao lado dela, trajado com uma sunga de praia, óculos escuros e segurando um grande coco que possui dois canudinhos brancos saindo pela parte de cima.

- Jo-Joaquim? É você mesmo ? - Ela responde espantada.

- Ora essa! Mas é claro que sou eu, Amanda! Quem você esperava? A presidente Yagami? - o homem ri, divertido.

- Eu não imaginava que... - Então ela toma um choque ao ver o menininho que se aproxima correndo com um cachorro-quente nas mãos e a boca suja de mostarda.

- Gabriel!

***

Imediatamente a visão de Amanda escurece. "Gabriel! Joaquim!" Ela tenta gritar mas percebe que não possui mais voz, e nem corpo, agora é apenas uma consciência flutuando no vazio. "Não, não! Eu quero voltar! Eu quero..."

Um flash. Um som sibilante que cresce no espectro sonoro, indo do mais grave ao mais agudo. A mensagem surge em cores brilhantes: "Reboot do sistema concluído. Regeneração 100% completa. Fluxo de energia restaurado para o factory default."

A imagem ameaçadora do Coveiro surge embaçada. Ela sente as mãos fortes dos mercenários segurando seus braços com força. A dor do olho arrancado permanece, porém, bem mais fraca.

- Ah! Não disse que essa vaca tava armando? Vejam, ela voltou! Agora podemos... -

O jato de cuspe repleto de sangue atinge a face de Yuri.

- O quê? Como é que tu tem coragem de...

Amanda se ergue arrebentando o braço biônico de Jonas e estourando os motores do exoesqueleto de Rat Bones.

Jonas solta um grito pavoroso, então segura o cotoco do braço destruído e cai de joelhos, em prantos. Rat Bones desmonta rapidamente a parte danificada de seu exoesqueleto e corre em disparada na direção ao Fantasma.

- Desgraçada! - Grita Yuri se lançando sobre Amanda, projetando as duas mãos sobre o pescoço dela e a pressionando contra a pedra.

- Chega. - Responde a Rainha de Fogo.

Com uma velocidade incrível ela executa um soco de baixo para cima, acertando em cheio o queixo de Yuri. O impacto destrói o maxilar inferior do homem, levanta-o do chão e o faz cair de costas. O Coveiro tenta gritar, desesperado. Ela se aproxima e o levanta, então o lança violentamente contra a pedra. Então olha o peito da armadura. O primeiro soco arrebenta a couraça e perfura o pulmão esquerdo de Yuri. O segundo soco faz o mesmo com o pulmão direito. Ele arregala os olhos, ainda consciente tenta segurá-la. Então Amanda agarra seu pescoço com a mão e começa a apertá-lo. Yuri segura o braço dela, tentando desesperadamente impedir o estrangulamento. Ela flexiona o outro braço para trás, fecha o punho e mira os olhos do Coveiro. "Potência Máxima", ordena. Então difere o golpe certeiro contra a cabeça de Yuri. O punho de Amanda arrebenta o osso frontal, entrando pelo crânio, rasgando e comprimindo massa encefálica, para finalmente atingir a pedra do outro lado. Com um movimento rápido ela remove o braço. Solta o pescoço de Yuri. A cabeça dele não existe mais, agora são dois pedaços de carne e ossos que pendem para os lados. O corpo do Coveiro tomba. Os dois buracos no peito, um de cada lado, expelem o sangue que ainda é bombeado pelo coração; lentamente, o órgão começa a diminuir seus batimentos.

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André Luis Almeida Barreto
Aspirante a escritor, inquieto por natureza, ainda tenho vontade de mudar o mundo ou pelo menos colocar um monte de gente para pensar. Viciado em livros, games, idéias loucas e sempre procurando coisas que desafiem minha imaginação.

11 comentários:

  1. Estou adorando poder voltar a companhar a bookserie, tinha ficado um tempo sem acompanhar os blogs, mas agora estou em férias e tenho mais tempo de voltar a acompanhar as postagens e a bookserie, claro.

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    1. Ótimo, Mariele! Seja bem vinda de volta!

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  2. André!
    Como assim matar a agente da corporação?
    E que chocante...
    Bem na noite de Natal...kkkkkkk
    “Desejo a você e à sua família um Natal de Luz! Abençoado e repleto de alegrias. Boas Festas!” (Priscilla Rodighiero)
    cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
    TOP Comentarista de DEZEMBRO ESPECIAL livros + BRINDES e 4 ganhadores, participem!

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    1. Feliz natal, Rudy!
      Pois é, esse capítulo foi mesmo tenso, mas necessário!
      Abraços!

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  3. Olá...
    Mais um capítulo incrível dessa Bookserie... Intenso demais!!!! Estou adorando acompanhar...
    Abraços...

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  4. Confesso que estava muito ansiosa para ler o acerto de contas, a Rainha de Fogo aprontou tantas que já era hora dela sentir na pele... mas confesso que senti pena dela... e quando ela se reergueu?! Nossa, sem palavras... Parabéns, André!!

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    1. Obrigado, Any. Vamos ver se ela dura até o final...rs.

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  5. Oi, André!!
    Finalmente comecei a ler Engenharia Reversa!! Estou adorando!!
    Beijoss

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  6. Nossa, bem tenso esse capítulo!
    Muito bom acompanhar cada novo capítulo de Engenharia Reversa.

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